Eriberto Leão não resiste a um personagem grandiloqüente, daqueles com tons bem teatrais e épicos. Caso, especificamente, de seu atual papel, o Dimas do "remake" de Sinhá Moça. O personagem é um jovem ex-escravo alforriado que carrega nos ombros o peso de ser um filho bastardo e rejeitado pelo pai, o temido Coronel Ferreira, conhecido como Barão de Araruna interpretado por Osmar Prado. Embora também marcado por uma certa simplicidade, no que se parece muito com o personagem Tomé, que fez em Cabocla, Dimas tem uma visão mais ampla da questão social. Tanto que acalenta o desejo de ajudar a pôr fim à escravidão, que marca a trama das 18h da Globo. "O Dimas é um Che Guevara. E o Che é uma inspiração para mim. Eu sou um revolucionário dentro de mim mesmo", exalta o ator.

Apaixonado por histórias antigas e por ícones brasileiros do cinema e da literatura, como Glauber Rocha e Castro Alves, Eriberto Leão não esconde a satisfação de estar no elenco de mais uma trama de Benedito Ruy Barbosa nesta versão adaptada do original de 1986 pelas filhas do autor, Edmara e Edilene Barbosa. Para o ator, esta reedição de Sinhá Moça, baseada no romance homônimo de Maria Dezonne Pacheco Fernandes, é muito mais que relevante. Eriberto vê na história do Brasil valores deixados de lado, que perderam significativo espaço na sociedade para o "entertainment". "Para mim, o Benedito é o maior autor brasileiro. Ele consegue resgatar valores com uma história de amor que dá audiência, deixa as pessoas emocionadas e as faz refletir sobre valores esquecidos pela sociedade", avalia Eriberto.

Das riquezas levantadas pelo enredo de Sinhá Moça, o ator destaca a importância histórica do período em que se passa a trama, o Brasil da segunda metade do Século XIX, às vésperas da abolição da escravatura. Em um rápido paralelo com seu último trabalho na tevê, na também de época Cabocla, de 2004, Eriberto vê no caráter e na honra as únicas semelhanças entre seus dois personagens. Distintos, Tomé e Dimas também simbolizam gerações e estilos de vida completamente diferentes. Enquanto o primeiro é um peão analfabeto, extremamente simples e sem ambições, seu personagem atual é inteligente e carrega valores que o impulsionam a enveredar nas questões políticas de seu tempo. "Cabocla não tinha escravidão. Sinhá Moça é mais dramática e densa. O Tomé era um homem muito simples, sem grandes ambições. O Dimas é um sujeito politizado, que luta por seus ideais e vai enfrentar o mundo", compara o ator.

Eriberto nem disfarça que está em "lua-de-mel" com o seu personagem. Afinal, Dimas tem vários elementos a serem explorados além do carácter político, carrega nas tintas do drama. O personagem, que quando pequeno se chamava Rafael, é filho da escrava Das Dores, vivida pela atriz Cris Vianna. Por ser o único branco na senzala, o rapazinho vivia na casa do Barão e tornou-se o melhor amigo da menina Sinhaninha. Sua história é ocultada até o dia do falecimento de seu avô, o Pai José de Milton Gonçalves, que é castigado no tronco até a morte. Nesta noite, o menino descobre que é filho do Barão e passa a odiá-lo.

Logo depois, Rafael é vendido com sua mãe e ambos são comprados por Inácio, mercador que lhes entrega uma casa e dinheiro para comprarem suas alforrias, a pedido de Aristides, primo-irmão do Coronel. Depois de ficar anos em regime de internato numa escola fora da cidade, o rapaz se torna tipógrafo e volta à fictícia Araruna como Dimas. Ao chegar, ele procura Augusto, personagem de Carlos Vereza, para oferecer seus serviços e esperar a ocasião para, em segredo, vingar-se do pai. "O Dimas é um rapaz que não teve amor. Por isso, o mote é esse amor revolucionário, que vai possibilitar a ele direcionar o ódio pelo pai e se tornar uma das chaves da transformação do Barão", sintetiza o ator.