Foram apenas seis apresentações em 2008, com lotação máxima para 50 pessoas. Quem viu A Última Palavra É a Penúltima, viu. Quem não viu, não poderá mais ver. É que, apesar de o Teatro da Vertigem reestrear o espetáculo nesta sexta-feira, 3, a apresentação tem gosto de estreia. “Não é 100% inédito, mas eu diria que é de 80 a 90% novo”, diz Antônio Araújo, que divide a direção do espetáculo com Eliana Monteiro. Pelo novo teor, a obra ganha um adendo em seu nome – A Última Palavra É a Penúltima 2.0 – e agora tem temporada maior, até o início de dezembro.

A remontagem surgiu depois de um convite da curadoria da 31ª Bienal de Artes para que o Vertigem apresentasse alguma peça. “Conhecíamos o Vertigem, principalmente pelo Bom Retiro”, diz Pablo Lafuente, um dos curadores do evento. “O trabalho do grupo é uma das comunicações mais intensas que tínhamos visto em muito tempo.” Ele explica que a temática da Bienal – “coisas que não existem” – sugere que o mundo é maior do que parece ser. E a arte e o teatro podem fazer o mundo maior.

Segundo Araújo, a ideia original era criar um espetáculo completamente novo, mas a agenda não permitia. Na ocasião, o grupo estava envolvido com Dizer Aquilo Que Não Pensamos em Línguas Que Não Falamos, peça que estreou em maio, abordava a crise financeira europeia e usava, como palco, a Bolsa de Valores de Bruxelas, na Bélgica. Como o retorno dos integrantes da companhia estava marcado para agosto e o início da Bienal para setembro, não havia tempo hábil para investir em um novo processo de criação. A solução foi resgatar A Última Palavra… que, até pela curta temporada, era um trabalho que Eliana tinha vontade de revisitar.

Em 2008, ela dividiu a direção do espetáculo com três encenadores: Carlos Cueva, André Semenza e Fernanda Lippi. A montagem era resultado de uma parceria do Teatro da Vertigem com os grupos LOT, do Peru, e Zikzira, de Belo Horizonte.

Apesar da vontade de Eliana e Araújo em apresentar a peça da maneira que ela foi concebida, a Bienal não teria verba para trazer esses grupos a São Paulo para uma temporada de mais de dois meses.

“Mantivemos as propostas que tinham partido do Vertigem, como o texto que dá base ao espetáculo e o espaço”, explica Araújo. “Por uma questão ética, não aproveitamos os materiais produzidos por atores e diretores que não integram esta versão da montagem – como a trilha sonora, que tinha sido totalmente feita por um músico que trabalhava com o Zikzira.”

O resultado é uma performance que ainda parte de O Esgotado, do filósofo francês Gilles Deleuze (1925-1995), e, como na primeira versão, ocupa a passagem subterrânea da Rua Xavier de Toledo, no centro de São Paulo, mas de uma maneira diferente, com outra proposta e outros materiais cênicos.

Para Araújo, A Última Palavra… está mais próxima de uma intervenção cênico-visual do que de uma peça com narrativa e tema claro. Ao descer a escadaria que dá acesso à passagem, em frente ao Shopping Light, o público pode sentar em bancos dentro de vitrines dispostas nos dois lados do corredor. A partir daí, dez atores começam a circular em um fluxo interminável: cruzam a passagem, sobem a escada, cruzam a rua, descem a escada e cruzam a passagem novamente. No trajeto, interpretam pessoas comuns, com atitudes que causam empatia, estranhamento e choque.

Vai da plateia, no entanto, escolher a forma de como ver a peça. Os espectadores que preferirem ser mais ativos podem também caminhar pela passagem, mesclando-se ao elenco. A eles, ainda podem se juntar as pessoas que, sem saber que a performance está ocorrendo, venham a usar o local naturalmente.

A ideia da intervenção, segundo Eliana, é discutir o esgotamento – o que influi na escolha do local de encenação. “Refletindo sobre o conceito, concluí que o que me esgotava era o excesso de câmeras de vigilância no trânsito, nos elevadores. Também tinha o fato de que a visão no centro da cidade é encurtada pelos prédios”, diz. Ela pensou, então, que o espaço deveria ser estreito, não poderia ter céu. A partir daí, a equipe do Vertigem saiu em busca de um lugar que se encaixasse até encontrar a passagem da Xavier de Toledo. Na ocasião da primeira montagem, em 2008, o local já estava fechado havia cerca de dez anos. Depois das apresentações, a passagem foi fechada novamente, e agora é reaberta para a mesma finalidade.

Em A Última Palavra…, cada espectador sai com uma experiência diferente, baseada nas inúmeras possibilidades de interpretação. A linguagem impressiona: as vitrines têm insulfilm, o que reforça o conceito de “ver e ser visto”. Em algumas horas, o vidro reflete o público. Em outras, permite a vista da passagem. Dentro do ambiente claustrofóbico, televisores mostram imagens do próprio lugar e do que se passa na Rua Xavier de Toledo. Ao sair da performance, quando se olha a rua, a impressão é de que a obra continua. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.