A literatura brasileira tem graça. Duas vezes. No primeiro caso, bons escritores embora como em toda literatura os maus sejam em maior número. Este não é o principal, o principal é que não há nada que estimule a leitura de bons escritores brasileiros – e de bons livros nacionais.
A escola não ajuda. A obrigatoriedade em decorar autores, escolas literárias e trechos na marra só ajuda a criar certa repulsa, repulsa que todo hábito compulsório provoca.
Não bastasse, ainda há o hábito tupiniquim de reverenciar o que é estrangeiro, mesmo que o produto não seja grande coisa. No segundo caso, temos Graça. Graciliano Ramos.
Um dos melhores da safra modernista e que ascendeu ao panteão de grande escritor brasileiro não de hoje. Se isto é óbvio e notório, porque se fala dele aqui? Por uma razão: por que na realidade se fala pouco dele por aí. Fala-se pouco e lê-se menos ainda.
O maior quinhão de leitores de Graciliano hoje em dia deve estar entre pessoas engajadas na chamada causa popular – personagens do escritor são emblemáticos no que se refere a sofrimento e no segmento que Luís Buñuel denominou de olvidados.
Mas é inegável que Graciliano é talhado para ser clássico em qualquer país ou literatura. Já foi. E se hoje não é, amanhã voltará a ser. É um Juan Rulfo denso porque a obra do mexicano é escassa: publicou dois livros em vida.
E o México honra Rulfo de forma solene. Graciliano encontra parentesco com Manuel Scorza, embora o peruano tenha como ninguém temperado doses razoáveis de humor com o sofrimento.
O sofrimento no caso de Graciliano não é para brincar. É para trocar pelo não-sofrimento – troca que os personagens do escritor quase sempre não conseguem fazer.
Graciliano, como Rulfo e Scorza, se interessa pelo sujeito inculto, aquele cuja vida se confunde com a terra em que nasce, vive e morre. E, como os dois, Graciliano escapa das armadilhas que espreitam quem deseja falar de pobres e miseráveis em tom solidário, descambando para o discurso político e para a má literatura.
No caso de Rulfo o interesse decorre do fato de sua família ser de proprietários de terras, arruinados pela revolução. Ele era do meio. O mesmo ocorre com Scorza, mestiço de índios e brancos. No caso de Graciliano, por perambular por vários lugares do Nordeste, incluindo Palmeira dos Índios, em Alagoas, onde foi prefeito.
Publicou São Bernardo (1934) e quando se preparava para publicar Angústia, foi preso acusado de envolvimento na intentona comunista.
Amigos, como José Lins do Rego, ajudaram a publicar o livro em 1936. Em 1938, saiu Vidas Secas.
Graciliano saiu da prisão em janeiro de 1937 com outro livro na alma: Memórias do Cárcere, que só viria a ser publicado em 1953, depois da morte do escritor.
Ainda assim faltando o último capítulo. Graciliano publicou mais livros. Mas o miolo da obra estava pronto.
Podia morrer tranqüilo se fosse levar em conta a obra. E ele morreu até relativamente novo, em 1953.
Aos sessenta anos. De câncer. Graça fumava feito chaminé e fumo cobra caro. Mas ele deixou legado de admiradores, entre eles o crítico Otto Maria Carpeaux, para quem a maestria singular do escritor residia em seu estilo.
Graciliano seria capaz de ‘eliminar páginas inteiras, capítulos inteiros, eliminar o próprio mundo: para guardar apenas aquilo que é essencial’. Não deixa de ser um baita elogio.
Mas hoje em dia o universo do velho Graça parece sem graça. O escritor não é lido como deveria, por quem gosta de boa literatura ou por quem tenha o menor interesse de conhecer o vasto território diversificado, que é o Brasil.
É lido por estes tipos que procuram defender, teses de mestrado e doutorado, com o mesmo entusiasmo de médicos legistas – ou por engajados. E leitura de estudante não vale. É obrigatória e tão atraente como estupro.
Não tem o calor do conluio provocado pela paixão, mas pelo desespero de se livrar de mais uma matéria com uma nota boa. Análises estudantis feitas sobre a obra de Graciliano – como de resto de qualquer outro autor -são como movimentos de açougueiro. Não valem. Vale a leitura espontânea.
Graciliano é escritor de texto refinado, limpo e exemplar, como observou Carpeaux. Não se meteu a reformar a linguagem como Guimarães Rosa, embora o universo de ambos seja, quase sempre, os grotões do amplo e inóspito território do nordeste brasileiro.
Seus tipos são homens rudes do sertão, cidades pequenas, tipos que em alguns não despertam tanta simpatia. Paulo Francis, por exemplo, torcia o nariz para Graciliano por esta razão.
Francis não se interessava por gente na retaguarda do progresso – justamente por isso. O diacho é que não se pode classificar de boa ou má literatura por razões tão frágeis. Caso contrário, muitos clássicos universais iam para o lixo.
Por falar em clássico, Graciliano produziu clássicos para uma literatura que se consolidava. Não há em língua portuguesa livro que narre a atmosfera prisional como Memórias do Cárcere.
Há parentesco na literatura universal em Recordações da Casa dos Mortos, de Fedor Dostoievski ou em Um Dia na Vida de Ivan Denissovitch, de Alexander Solzjenitsin.
Ambos, como Graciliano Ramos, provaram o amargo sabor do cárcere. E só quem passa por uma experiência desta consegue reproduzir nas páginas algo que se aproxime da realidade.
O parentesco com Dostoievski pode ainda ser encontrado no pujante Angústia, considerado por alguns seu melhor livro – outros acreditam que seja Vidas Secas. Em Angústia, o personagem diz: ‘Há criaturas que não suporto.
Os vagabundos, por exemplo. Parece-me que eles cresceram muito, e, aproximando-se de mim, não vão gemer peditórios: vão gritar, exigir, tomar-me qualquer coisa’.
É o tipo de declaração que parece sair da boca do narrador de Vozes do Subterrâneo, livro tido como o primeiro e insuperável manifesto existencialista. No entanto, Graciliano tinha sobre o ser humano, também, um olhar solidário, como em Vidas Secas, livro que se chamaria inicialmente de O Mundo Coberto de Penas e narra o drama de uma família retirante em busca de vida melhor.
O impacto da narrativa de Vidas Secas pode ser conferido na tela do cinema com Nelson Pereira dos Santos. O drama da cadela Baleia fez marmanjos verterem lágrimas.
A cadela adquire dimensão quase humana, parece ter alma e que ao morrer encontraria redenção, ‘acordaria feliz, num mundo cheio de preás. E lamberia a mão de Fabiano’.
Um belo filme do ciclo do cinema novo. A obra de Graciliano Ramos, aliás, rendeu outros bons filmes. Assim como a de Jorge Amado. O livro São Bernardo foi levado às telas num bom trabalho de Leon Hirszman, com Othon Bastos, no papel de Paulo Honório, o mascate filho de camponeses que é possuído pela obsessão de arrancar a fazenda São Bernardo das mãos de seu endividado e inepto dono, Luiz Padilha. Sem contar o já citado Memórias do Cárcere também filmado sob a direção de Nelson Pereira dos Santos. Tudo são evidências de que estamos diante de um clássico. O diacho é que os clássicos são muito citados, muito filmados e, às vezes, pouco lidos.