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A força da mulher na música brasileira

Livro conta a tragetória pessoal e profissional de Dona Ivone Lara

  • Por Redação

Recém-lançado, o livro Nasci para sonhar e cantar (Editora Record) é um estudo antropológico, de gênero e trajetória, sobre a vida e carreira de Dona Ivone Lara, figura central da história do samba e da música popular brasileira. A autora do livro é Mila Burns, repórter da Rede Globo. A proposta da obra, além de contar a carreira de Dona Ivone Lara, é contextualizar a presença das mulheres, compositoras especialmente, na música popular brasileira, e que tipo de adversidades e preconceitos elas tiveram de superar. “Percebo a figura de Dona Ivone como uma representação de tenacidade, de vontade e, sobretudo, inteligência. Ela traça a própria vida, é senhora de seu destino, não espera as coisas acontecerem”. O livro acompanha a trajetória da cantora, órfã muito cedo, passando pelos anos em que ela se dividia entre o samba e a profissão, enfermeira, até o estouro tardio como cantora. Mila Burns entrevistou Dona Ivone Lara e outras fontes ligadas à autora diversas vezes. A pesquisa demorou mais de um ano. O livro nasceu como tese de mestrado em Antropologia da autora, mas passou por um segundo processo de escrita e adaptação.

P: O projeto de tese já nasceu com o foco apenas para Dona Ivone Lara ou sua ideia inicial era discutir todas as mulheres compositoras?

Na verdade, a ideia inicial era estudar algumas figuras femininas do samba, destacando as “tias”. Sempre me interessei por estudos de gênero e envelhecimento e acreditava que com esse tema conseguiria abarcar essas duas paixões. Logo no início da pesquisa me deparei com a figura de Dona Ivone e me encantei com sua trajetória ímpar. Percebi que uma vida tão rica renderia por si só um estudo.

P: A história de Dona Ivone Lara tem relevância como compositora, mas pode ser também usada como símbolo da trajetória da mulher brasileira do século XX, não?

Acredito muito nisso. Percebo a figura de Dona Ivone como uma representação de tenacidade, de vontade e, sobretudo, inteligência. Ela traça a própria vida, é senhora de seu destino, não espera as coisas acontecerem. Se para alguns sua opção por se aposentar em uma carreira “estável” e só depois se “arriscar” no meio musical pode parecer medo é, na verdade, uma escolha. É aquela história… medo de fugir é coragem de ficar.

P: Quanto tempo passou com Dona Ivone para escrever o livro?

A pesquisa durou mais de um ano. Foram dezenas de entrevistas por telefone ou pessoalmente.

P: Até que ponto a orfandade contribuiu para a personalidade de Dona Ivone?

Acredito, como afirmam pesquisadores citados no livro, que a orfandade impõe a necessidade de cuidar do próprio destino, de trabalhar, de olhar para os lados e ter de decidir sozinho que caminho seguir. Certamente isso foi decisivo para que ela se tomasse a pessoa que é. Percebo, no entanto, que a coragem, a força e o ímpeto de ter sucesso em diferentes áreas da vida já a acompanhavam antes mesmo de ela perder os pais.

P: Dona Ivone Lara foi aluna de Lucília Villa-Lobos, esposa de Heitor Villa-Lobos, e de Zaíra de Oliveira, primeira mulher de Donga. Como essas referências na juventude influíram no trabalho da compositora pelo resto da vida?

Pelos relatos de Dona Ivone, essas mulheres não foram apenas referências musicais, mas pessoais. A trajetória das duas, mulheres de homens famosos, profissionalmente reconhecidos, mas que não abriam mão de trabalhar, foi uma forte influência.

P: Em 1965, Dona Ivone foi primeira mulher a assinar um samba-enredo. Antes suas músicas já eram tocadas na quadra, mas eram “assinadas” pelo primo mestre Fuleiro. Como é pensar sobre esse pioneirismo e o que ele possibilitou nesses 40 anos depois?

O “jeitinho” de Dona Ivone, a decisão de conquistar pelo talento e não pela força, abriu caminho para várias mulheres. Não ,apenas para musicistas e compositoras, mas para nós, pessoas comuns, que buscamos melhorar, conquistar espaço profissional e pessoal. Ela impôs quase uma degustação às cegas. Mostrou suas melodias sem dar a elas o rótulo e música-feita-por-mulher e com essa “malandragem” cheia de sinceridade e autoconfiança nos trouxe a certeza de que é possível conquistar o espaço merecido em qualquer circunstância.

P: Você conta a história da mudança do nome de batismo, Yvonne Lara, para o artístico, Dona Ivone Lara. Que outra boa história você descobriu e contou no livro?

Dona Ivone é um baú de histórias curiosas. Minha mãe, meu maior exemplo de mulher de fibra, disse que chorou muito lendo as passagens do livro que mostram as escolhas, a força dessa mulher. Mas ela é cheia de graça, conta casos divertidos, como o toque final que deu a Cinco bailes da história do Rio. Silas de Oliveira e Bacalhau tentavam terminar o samba-enredo e não conseguiam até que ela cantarolou algumas melodias e resolveu o problema dos dois. Um de seus momentos mais intuitivos, menos doloridos, como compositora, mas que lhe rendeu um lugar na história.

P: Do ponto de vista antropológico, como foi lidar com esse personagem tão rico, uma sambista compositora pioneira, mulher, negra, moradora de comunidade? Isso tornou o trabalho mais complexo?

A história de vida de Dona Ivone é a história de vida de um indivíduo extremamente complexo, como dizemos na antropologia. Isso tomou o trabalho mais difícil, mas muito mais prazeroso.

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