O escritor e missionário jesuíta, Padre Antônio Vieira, conhecido pelos seus famosos sermões, que nasceu em Lisboa no dia 6 de fevereiro de l608 e faleceu em l8 de julho de l697, no Colégio da Bahia, foi um conhecedor das teorias astronômicas de sua época. Veio menino para o Brasil e quando estudava no Colégio da Bahia resolveu entrar para a Companhia de Jesus, na Cidade de Salvador, em 5 de maio de l623. Ordenou-se sacerdote em l0 de dezembro de l634, após obter o grau de Mestre em Artes. Os seus dotes históricos lhe asseguraram a imortalidade tanto como um grande orador como escritor. Em seus Sermões, Obras, Várias e Cartas, encontram-se inúmeras citações a cometas observados no Brasil. Pela análise de suas Cartas e Sermões é possível verificar que as suas indicações constituem, às vezes, a primeira observação efetuada que se conhece. Um desses exemplos é o caso do cometa Jacob (l695), que segundo o seu sermão intitulado: Voz de Deos ao mundo, a Portugal e à Bahia: Juízo do cometa que nela foi visto em 27 de outubro de l695 e continua até hoje, 9 de novembro do mesmo ano. Tendo em vista a data indicada, a primeira observação deste cometa foi efetuada sem dúvida na Bahia tendo sido o padre Antônio Vieira quem com prioridade registrou esse cometa em todo o mundo.

Seria conveniente lembrar que o interesse de Vieira pelos cometas estava associado à crença de que os cometas eram avisos de Deus. O caráter místico desses registros não invalida, como poderia parecer a um leigo, a sua importância histórica. Atualmente, os astrônomos têm procurado analisar os velhos manuscritos na procura de relatos que elucidem determinadas ocorrências celestes. Uma das maiores fontes de informação histórica sobre os eventos do início da civilização é a dos arquivos dos astrólogos-astrônomos chineses, pagos pelo governo para estudar os acontecimentos celestes que se acreditava possuírem enorme influência sobre os homens e os regimes políticos. Em Vieira iremos encontrar existência de alguns importantes relatos. Antes, no entretanto, seria conveniente lembrar que Vieira, apesar de sua interpretação teológica dos cometas e outros eventos celestes, sempre condenou a astrologia, separando-a da observação científica, como se poderia verificar pelo texto abaixo:

“Não se chama de juízo astronômico, porque não é nosso intento examinar ou definir a natureza, a matéria, o nascimento, o lugar, as instâncias, os aspectos, os movimentos, nem algumas das outras circunstâncias em que curiosamente se empregam as observações da astronomia, e muito menos a duração e o caso deste predigioso meteoro, pois ainda estão pendentes. Também se não chama astrológico este juízo, porque, reputando nós, com os mais sábios e prudentes professores da mesma arte quão inútil, infrutuosa e vã seja aquela parte da astrologia, que com o nome de judiciária costuma entreter os discursos e enganar as esperanças ou fantasias dos homens, não só seria crime contra a Providência do Altíssimo, mas desprezo de seus avisos tão manifestos, divertilos a considerações ociosas, em que se confundam e percam os efeitos próprios e saudáveis que deve e pode produzir em nós uma causa tão notável.”

Aliás, a posição adotada por Vieira era a mesma de Kepler, de cujos livros deve ter tido conhecimento, pois em diversos escritos cita o grande astrônomo, em especial em um dos seus Sermão, no qual fala da estrela Nova de 1608 que apareceu em 30 de setembro desse ano na constelação de Ofiúco:

“Assim o diz expressamente e já alegado Képlero, matemático famoso deste século, que, com a mesma estrela diante dos olhos, observando todos os movimentos seus, e dos outros astros, compôs dela um eruditíssimo livro, no qual, descendo a declaração e juízo de seus efeitos, ou influídos, o primeiro é este: Novam ex hoc tempora rempublicam adolescere, cujus imperio generali regma hodie valde tumultuantia subigantur olim: ut ita mundus nimium inquietus, et ferox aliquandiu sub hujus monarchae tutela conquiescat-Quer dizer: que desde o ano de l604, em que aquela estrela apareceu no céu, começava a nascer e se levantar na terra uma nova república, a qual crescendo com a idade, viria a dirmar a seu tempo um império universal, debaixo de cuja obediência todos os reinos do mundo, que ao presente tumultuavam ferozmente em guerras, deporiam as armas, e ele seria o jugo que os amansasse, e o freio que os contivesse em paz”:

O “eruditíssimo livro” acima citado é De stella nova de Kepler, publicado em l606, que Vieira deve ter lido.

Como muito bem afirmou o escritor positivista Ivan Lins, em sua notável biografia sobre Vieira, a concepção dos cometas em Vieira, assim como no astrônomo alemão Johannes Kepler (l57l-l630), no matemático suíço Jacques Bernouilli (l654-l705), no filósofo italiano Tommaso Campanella (l568-l639) era dos homens de seu tempo que possuíam o modo de pensar de sua época.

Seu conhecimento astronômico não se limitou aos registros de eventos celestes. Vieira em diversas ocasiões se pronunciou sobre as novas idéias da época, tais como as defendidas por Galileu e Copérnico, aliás, sobre o sistema copernicano, Vieira fez esta interessante observação, no Sermão do Primeira Dominga do Advento:

“Copérnico, insigne matemático do próximo século, inventou um sistema do mundo, em que demonstrou, ou quis demonstrar (posto que erradamente), que não era o sol o que se via e rodeava o mundo, senão que esta mesma terra em que vivemos, sem nós o sentirmos, é a que se move, e anda sempre à roda. De sorte que, quando a terra dá meia volta, então descobre o Sol, e dizemos que nasce, e quando acaba de dar a outra meia volta então lhe desaparece o Sol, e dizemos que se põe. E a maravilha novo invento é a suposição dele corre todo o governo do universo, e as proporções dos astros e medidas dos tempos, com a mesma pontualidade e certeza com que até agora se tinham observado e estabelecido na suposição contrária”.

Se bem que não sustentasse o princípio do movimento de terra e do heliocentrismo, externava “a maravilha deste novo invento”.

Para aqueles que pouco conhecem a vida desse notável humanista, fugindo da astronomia, lembramos que apesar de jesuítas, Vieira condenou a Inquisição quando esta agia ainda com toda a sua força. Hoje, como diz Ivan Lins, é fácil condenar os processos da Santa Inquisição quando ela já não aterroriza, mas naquela época seria necessária uma coragem pouco comum.

Ronaldo Rogério de Freitas Mourão

é pesquisador-titutar do Museu de Astronomia e Ciências Afins, no qual foi fundador e primeiro diretor, autor de mais de 65 livros, entre outros livros, do “Anuário de Astronomia 2003”.Consulte a homepage:
http://www.ronaldomourao.com