Ediglei Feitosa / Diário do Noroeste
Rafael Muçamba (à esquerda) marcou o gol de empate do Paraná.

Os outros resultados ajudaram, as substituições surtiram efeito e o gol no final minou uma possível reação do adversário. Na rodada em que tudo deu certo, o Paraná Clube ganhou do Paranavaí por 2 x 1, ontem, no Noroeste do Estado, e ficou a um passo da classificação para as quartas-de-final do Campeonato Paranaense.

Com a vitória – primeira de virada do Tricolor neste Estadual -, o time manteve a quarta colocação, mas abriu cinco pontos sobre o Roma, quinto colocado, derrotado pelo lanterna Toledo em casa. E o revés da Adap para o União Bandeirante, no sábado, deixa o Paraná com chances reais de brigar pela primeira colocação do grupo B. O time de Campo Mourão, ainda liderando a chave, tem só três pontos a mais do que o Tricolor, seu próximo adversário. Já o Paranavaí não tem mais chances de seguir adiante.

O começo de jogo de ontem, disputado debaixo de muito calor, foi monótono. As equipes iam pouco à frente e a primeira oportunidade de gol saiu só aos 21 minutos. E ocasionou justamente a abertura do placar, em favor do Paranavaí. O meia Luciano Araújo bateu forte, Flávio defendeu parcialmente e o atacante Mauro apanhou livre o rebote, tirando do alcance do goleiro tricolor.

A desvantagem no placar fez o Paraná despertar. A equipe saiu da morosidade e criou pelo menos duas boas chances de empatar. Numa delas, Maicosuel passou pelo goleiro e tocou para Leonardo, que com o gol aberto chutou em cima do zagueiro.

No intervalo, o técnico Barbieri trocou o zagueiro João Paulo pelo meia Sandro, lançando a formação testada no coletivo da sexta-feira. O time evoluiu e logo aos cinco minutos igualou o marcador: Marcelinho fez bela assistência e Rafael Muçamba, à vontade na frente do goleiro, chutou para as redes: 1 x 1.

O Tricolor aproveitou o embalo e tomou o controle da partida, embora sem criar muitas oportunidades claras de gol. Atrás, a equipe não permitia a aproximação do Paranavaí – Flávio fez só uma defesa, aos 27 minutos, num chute do zagueiro Tiago Soler.

Aos 28, Vandinho entrou no lugar de Marcelinho – alteração que deixou o time num 4-4-2 tradicional – para mudar a história do jogo. Três minutos depois, Rodrigo Alvim tomou a bola do veterano Vítor, foi à linha de fundo e cruzou na medida para o jovem atacante, que cabeceou para as redes.

Tranqüilo com o 2 x 1, o Paraná só administrou até o final a vitória, fundamental para encerrar a sina de quatro anos sem passar da primeira fase do Estadual.

Jogadores comemoram 2.ª vitória seguida

?Apesar de não termos feito grande partida, a vitória era o que interessava. E conseguimos?, falou o ala Goiano, resumindo o sentimento dos jogadores no vestiário tricolor. Depois de uma fase ruim, o Paraná Clube comemorou a segunda vitória consecutiva e a ótima possibilidade de disputar a fase final da competição.

O capitão Beto citou a evolução do time e elogiou a postura diante da adversidade no placar. ?Independente de onde jogarmos, temos que nos portar como um time grande, como fizemos em Paranavaí?, falou. Para o meia Marcelinho, a sorte agora pendeu para o lado paranista. ?Depois do tropeço com o Londrina, empatamos com o União com um gol no final e ganhamos os dois jogos. Vamos buscar a classificação?, falou.

O técnico Barbieri falou que a equipe fez um grande jogo e contou que deu uma dura nos jogadores no intervalo. ?Perguntei onde queríamos chegar e disse que simplificando e jogando com determinação a gente viraria o jogo. O time assimilou bem?, comentou.

Barbieri disse ter aprovado o desempenho da equipe após a mudança tática no intervalo (a troca de um zagueiro por um meia), mas descartou abrir mão de jogar com três beques. ?Não posso mudar radicalmente o esquema de um time que há muito tempo joga assim?, falou.

O treinador também criticou a ?cultura? de julgar o trabalho somente com base nos resultados e disse que não é um ?cara ruim?. ?Sou aberto ao diálogo, mas na hora de cobrar a gente cobra?, falou.

Nas duas últimas rodadas, o Tricolor joga em casa – quinta-feira à noite, contra a Adap, e domingo, diante do Toledo. Bastam dois pontos para a equipe assegurar matematicamente a classificação.

Campeonato Paranaense
1.ª fase ­ 12.ª rodada

Paranavaí 1×2 Paraná

Gols: Mauro (20-2º), Rafael Muçamba (5-2º) e Vandinho (31-2º)
Cartões amarelos: Tiago Soler e André Góes (Paranavaí), Marcelinho e Emerson (Paraná)
Árbitro: Marcos Daniel de Camargo
Assistentes: Aparecido Donizetti Santana e Luiz Henrique de Souza Ernesto
Local: Estádio Waldemiro Wagner

Paranavaí
Márcio Vieira; Vítor, Tiago Soler, Neilor e Válber (Rafael); Rafael Pulga, André Góes, Luciano Araújo e Ethiê; Tiago e Mauro (Alan, depois Cahê). Técnico: Carlos Gainete

Paraná
Flávio; João Paulo (Sandro), Emerson e Neguete; Goiano, Rafael Muçamba, Beto, Marcelinho (Vandinho), Maicosuel (Serginho) e Rodrigo Alvim; Leonardo. Técnico: Barbieri

No embalo das marchinhas

Cristian Toledo

"Ô, abre alas / que eu quero passar / ô, abre alas / que eu quero passar / eu sou da lira / não posso negar / Rosas de Ouro / é quem vai ganhar…".

A música O Abre Alas, de Chiquinha Gonzaga, é o ?pontapé inicial? da música contemporânea brasileira. É a primeira canção popular, mesmo que ainda não tivesse um sucesso extraordinário. Tal como o futebol, que chegou ao Brasil quase ao mesmo tempo em que Chiquinha mudava a história cultural do país.

"O chefe da polícia / pelo telefone / mandou me avisar…". Pelo Telefone, de Donga, é o primeiro samba reconhecido como tal pelos especialistas em música popular. Era a fusão entre os ritmos afro-cubanos (como o maxixe) e os ?industrializados? americanos (como o fox-trot). Era o primeiro passo da história do Carnaval, no momento em que o futebol começava a se transformar no principal esporte do país.

Música, samba e Carnaval sempre se misturaram com o futebol. Não conseguem viver separados. E era natural que algumas canções, mesmo que não estritamente futebolísticas, se transformassem em hinos de torcidas ou mesmo de clubes. E nenhuma vertente daquilo que podemos chamar de MPB foi (e é) tão ligada ao futebol como a marchinha. Um estilo que reinou nos carnavais dos anos 30 aos anos 60.

A primeira grande participação das marchinhas no futebol não aconteceu dentro de campo – foi no concurso de carnaval do Fluminense em 1939, quando Praça Onze (de Herivelto Martins e Grande Otelo) e Ai, Que Saudade da Amélia (de Ataulfo Alves e Mário Lago) dividiram o grande prêmio, numa decisão avalizada pelo então presidente Marcos Carneiro de Mendonça, que foi o primeiro goleiro da história tricolor e o primeiro goleiro da seleção brasileira.

Depois, a primeira manifestação coletiva de uma marchinha. Na Copa de 1950, no Brasil, uma música de João de Barro e Alberto Ribeiro foi entoada por 150 mil pessoas no Maracanã, enquanto a seleção brasileira vencia a Espanha por 6×2. Era Touradas em Madri -"Eu fui às touradas em Madri / pararatimbumbumbum / e quase não volto mais aqui / pra ver Peri beijar Ceci…". Contam os historiadores que, quando vinha o verso "conheci uma espanhola / natural da Catalunha", o "u" esticado da música se transformou em um vendaval. Claro que o exagero da época ajuda a história, mas não é de se surpreender.

Quem percebeu que o estilo se encaixava perfeitamente às torcidas foi Lamartine Babo, um dos maiores compositores de todos os tempos. Ele também notou que os clubes tinham hinos rebuscados, cheios de palavras em desuso. Por isso, nos anos 50, ele compôs ?marchas-exaltação? em homenagem aos então cinco principais clubes do Rio de Janeiro – Flamengo, Fluminense, Vasco, Botafogo e América.

Foi o início de um novo ?surto?. A música que embalou o título mundial de 1958 foi A Taça do Mundo É Nossa, com os Titulares do Ritmo. Emoção igual no tricampeonato, em 1970, com Pra Frente Brasil, de Miguel Gustavo. Era a afirmação definitiva do gênero como legítimo difusor do futebol brasileiro na música. Mas teve mais. Hoje, as principais torcidas usam antigas marchinhas, como Mulata Bossa Nova e Marcha do Remador, devidamente adaptadas (com alguns palavrões, inclusive) para incentivar suas equipes.

E não só marchinhas, mas também refrões de sambas-enredo, como o dos Acadêmicos do Salgueiro -lembram de Peguei um Ita no Norte? É assim: "Explode coração / na maior felicidade / é lindo o meu Salgueiro / contagiando e sacudindo esta cidade…". Se você não ouviu na Marquês de Sapucaí, certamente ouviu em qualquer estádio brasileiro, que pode ser comparado à grande passarela do nosso samba.