Passado exatamente um ano da goleada por 7 a 1 para a Alemanha na semifinal da Copa do Mundo, praticamente nada mudou no futebol brasileiro. A CBF só decidiu tomar medidas efetivas para tentar reerguer a seleção depois da eliminação na Copa América para o Paraguai, no mês passado. Com a queda diante da pior seleção do continente na última edição das Eliminatórias, a avaliação da entidade foi que, se algo não fosse feito imediatamente, eram grandes os riscos de o Brasil em 2018 ficar fora, pela primeira vez na história, de um Mundial.

Por isso, foi criado nesta semana o chamado “Conselho de Desenvolvimento Estratégico do Futebol Brasileiro”. O diagnóstico apresentado pela CBF foi que o “futebol brasileiro, que viveu o seu apogeu com a conquista de cinco Copas Mundiais, necessita realizar uma análise profunda para a sua revitalização”.

A primeira reunião ocorreu na última segunda-feira, na sede da CBF, e contou com a presença de ex-técnicos da seleção. Também serão chamados para o debate treinadores de clubes, estrangeiros, ex-jogadores campeões do mundo e jornalistas. Não há previsão de quando as sugestões sairão do papel.

O maior desafio do presidente Marco Polo Del Nero, no entanto, é recuperar a credibilidade da entidade. O ex-presidente José Maria Marin foi preso em 27 de maio na Suíça, acusado de ter recebido propina para fechar contratos da Copa América e da Copa do Brasil. Del Nero foi vice de Marin durante três anos e já admitiu ter participado da negociação de acordos comerciais feitos pela CBF durante a gestão do seu antecessor. Logo após a prisão de Marin, começou um movimento liderado pelo senador Romário, Ronaldo Fenômeno e o Bom Senso FC pedindo a renúncia de Del Nero.

O dirigente também passou a conviver com a descrença de alguns profissionais, que não acreditam que as mudanças necessárias para modernizar o futebol brasileiro serão, de fato, implantadas. Levir Culpi, técnico do Atlético Mineiro, por exemplo, disse que não está mais disposto a colaborar com a CBF depois que uma única sugestão apresentada por ele durante encontro entre treinadores da Série A do Campeonato Brasileiro não foi atendida pela entidade. Ele pediu que os gramados dos estádios utilizados nos jogos da primeira divisão tivessem um tamanho padrão.

Para Tite, técnico do Corinthians, o problema é que depois da Copa do Mundo os treinadores passaram a ser apontados como os únicos responsáveis pela mau momento do futebol brasileiro. “Qualquer coisa virou culpa do técnico depois do 7 a 1. Mas não são apenas os técnicos que fazem o futebol. É preciso discutir também a imprensa, dirigentes, atletas e categorias de base. É toda uma estrutura da qual os técnicos fazem parte. A questão é conjuntural. Estamos carentes de jogadores pensadores. Hoje faltam atletas com a capacidade técnica de Zico e Falcão, que armam e ditam o ritmo do jogo. Muita coisa precisa ser levada em consideração”, disse.

Campeão do mundo e da Copa Libertadores, Tite admite que esperava assumir a seleção após a saída de Luiz Felipe Scolari. De acordo com o coordenador de seleções da CBF, Gilmar Rinaldi, porém, o técnico do Corinthians não se enquadrava no perfil desejado por ele, Marin e Del Nero. A opção foi por Dunga, que comandou a seleção na Copa de 2010 e foi eliminado nas quartas de final. Nos quatro anos entre sua demissão e a recontratação, ele treinou apenas o Internacional e conquistou o Campeonato Gaúcho de 2013.

A troca de Felipão por Dunga representou poucos mudanças na seleção e o time continuou dependente de Neymar. O Brasil enfileirou 11 vitórias em amistosos, mas na primeira competição oficial decepcionou. Muitos jogadores que participaram do vexame no Mineirão continuaram sendo convocados como David Luiz, Fernandinho, Willian, Thiago Silva e Luiz Gustavo.

Os clubes ameaçaram criar uma liga para administrar o Campeonato Brasileiro, deixando a CBF responsável apenas pela seleção, mas depois recuaram. A única mudança efetiva é que daqui para a frente a entidade não tem mais o poder de veto a sugestões apresentadas pelos dirigentes sobre o regulamentos das competições.

FUTURO – Nas categorias de base, o Brasil também não avançou. O projeto de reformulação estava nas mãos de Alexandre Gallo, que ganhou plenos poderes com Marin e passou a acumular os cargos de coordenador das seleções de base e técnico dos times sub-20 e sub-23. O plano montado por ele de integrar as categorias foi descartado com a sua demissão em maio, às vésperas do Mundial Sub-20.

A base também continua sem um lugar específico para trabalhar. Os garotos costumam treinar na Granja Comary, em Teresópolis (RJ), mas quando a seleção principal está no local têm de usar outros CTs.