As apresentações eram capazes de esgotar ingressos das bilheterias, atraindo grandes públicos nas arquibancadas. Seus principais lutadores, com estilos até mesmo caricatos, desde esbeltos, gordos, barbudos ou fantasiados, um dia também foram cercados de glória e fama por todo Brasil, fazendo parte do gosto popular. Trata-se do Telecatch, luta que marcou época misturando esportes como Wrestling, Judô e outros golpes próprios com acrobacias dignas de espetáculo de circo.

Ainda no início das transmissões de televisão no Brasil, na década de 1960, a também chamada Luta-Livre começava a conquistar o gosto dos espectadores. Tanto na telinha quanto em arquibancadas de circos e ginásios de esporte, o público delirava com situações como a de um lutador correndo em direção às cordas do ringue. Era hora de buscar impulso para voltar e acertar um oponente. Este geralmente ia pra lona da forma mais dramática e teatral possível, mas logo estava em pé, tentando aplicar uma chave de braço ou outro golpe qualquer.

O espetáculo entusiasmou verdadeiras multidões entre as décadas de 1960 e 80, como conta o ex-lutador Mário Marino, o Ted Boy Marino, principal nome do Telecatch de todos os tempos no Brasil. “Era um fenômeno, parava a cidade inteira. Quando lutávamos nos ginásios e clubes de cidades, ficava até gente do lado de fora. Também era o maior programa da televisão brasileira”. A fama é reforçada pelo apresentador de televisão e deputado estadual Roberto Acioli, que praticou a modalidade entre os anos 80 e 90, atendendo pelo nome Big Boy. “Lutei duas vezes no Ibirapuera (em São Paulo) pra mais de 20 mil pessoas. A Luta-Livre também viajava todo Brasil, pois o público era muito grande”.

Outros personagens como Aquiles, Metralha, Brasão, Joia, Mister Argentina também cativavam – a favor ou contra -um público participativo. Adeptos contam que não foram poucas as vezes que populares dispostos a defender seus lutadores interferiam nas lutas aplicando desde sopapos a guarda-chuvadas nos adversários. Um relacionamento tão próximo que não eram raros os casos de lutadores de Telecatch que se tornaram celebridades fora dos ringues. “Era normal os lutadores serem convidados a atuar como atores, ou como garotos propaganda”, recorda Acioli.

Atuando como verdadeiros animadores de plateia, apresentadores e comentaristas de Telecatch também marcaram época. “Motivar o espetáculo era um trabalho fundamental”, conta o radialista José Domingos, que atuou nas funções entre os anos 70 e 90, tanto em circo como na televisão.

O mesmo vale para os mediadores, árbitros que vez ou outra acabam “inclusos” nas lutas. “Participam da luta quando vêem o público meio parado. Por exemplo: pisa em cima do pé do lutador, fingindo que não estava vendo nada”, cita o lutador Altair José Oliveira, conhecido como Benhur, ainda na ativa.

Apesar do formato aparentemente teatral, inclusive envolvendo “heróis” e “vilões”, praticantes do Telecacth fazem questão de tocar em um assunto específico ao falar das lutas. “Tem gente que fala que era marmelada, mas não era bem assim. Havia ocasiões em que nome e status do lutador estavam em jogo”, ressalta Big Boy. “Muitas vezes começava como espetáculo, mas nem sempre terminava assim”, completa.

Encaravam tudo
A fama levava lutadores de Telecatch a serem desafiados por caras ‘durões’. Mas Mister Argentina foi além: chegou a subir no ringue para lutar contra um urso.
Lembra dele?
O mais conhecido lutador de Telecatch do mundo é o norte-americano Hulk Hogan, que virou personagem de filmes, jogos de videogame e animações.
Máscaras
Conhecido no México como Lucha-Libre, boa parte dos lutadores atuam mascarados. As roupas podem ser compradas facilmente em lojas. Seu valor simbólico é comparado às de clubes de futebol.
Pioneiros no Paraná
Os Lutadores da Terra er,a formado por Cabeleira, Italiano, Irmãos Milton, Cacique, Espingarda, Turquinho e Tarzan. (Fonte: Benhur)