Melbourne – Exatamente no país em que seu tio venceu pela última vez na Fórmula 1, em 1993, a Austrália, Bruno Senna estabeleceu ontem, no circuito Albert Park, em Melbourne, o retorno da família às vitórias no automobilismo. E ainda foi sob a condição que tanto caracterizou a habilidade extrema de Ayrton: chuva em parte da corrida.

Aos 22 anos, Bruno venceu pela primeira vez desde que decidiu seguir o caminho do tio famoso e tornar-se piloto, há menos de dois anos. Foi na segunda etapa do campeonato australiano de Fórmula 3. ?Já estava na hora?, afirmou o piloto, em festa.

Nunca o pódio de uma corrida de Fórmula 3 reuniu tantos fotógrafos quanto ontem. Parecia que o GP da Austrália de Fórmula 1 já havia sido disputado e esses profissionais estavam lá para registrar a alegria de Michael Schumacher ou Fernando Alonso.

?Depois que você ganha a primeira corrida, você não quer chegar em nenhuma outra colocação, deseja apenas vencer?, admitiu Bruno. ?Aproveitei bem a vantagem técnica de competir na Fórmula 3 na Inglaterra, vi aqui como isso faz diferença.?

Ayrton Senna foi campeão britânico de Fórmula 3, em 1983, com 13 vitórias no campeonato. Bruno disputará este ano sua segunda temporada na competição. Em 2005, praticamente a sua estréia como piloto, obteve duas segundas colocações, além de ter conquistado uma pole position.

O sobrenome Senna pesa. ?Foi um alívio, para ser sincero. Todo mundo espera que você ganhe, mas a pressão maior não é nem essa e sim, a que eu mesmo me coloco. Desde que eu sentei num carro, dizia a mim mesmo ?Eu preciso ser primeiro, preciso saber o que é isso?. Chegou!?

Ganhar a primeira corrida, no entanto, não tira um peso das costas. ?Vou tirar esse peso quando for campeão do mundo, meu objetivo de verdade, quando provar para mim mesmo que sou capaz?, revelou Bruno.

A primeira vitória de Bruno ocorreu no melhor cenário possível, diante de todos os chefes de equipe da Fórmula 1. ?De fato fez uma diferença grande. Avisei o pessoal da McLaren, falei com o Gerhard Berger, que é um gozador, pedi que assistissem porque eu iria ganhar?, contou. E deu certo: ?Era para ter sido primeiro já ontem (quinta-feira)?.

Na prova de quinta-feira, Bruno liderava quando o então segundo colocado, Michael Trimble, errou a freada e bateu no seu Dallara-Opel da equipe GFM. Acabou em quarto lugar.

No domingo, Bruno disputará a quarta etapa do campeonato e, na madrugada de hoje, participou da terceira.

Poucos pilotos e times da Fórmula 3 australiana têm nível técnico para competir contra os que se formam na Inglaterra, que tem o mais conceituado campeonato de Fórmula 3, reconhece Bruno. ?A experiência aqui não deixa de ser um aprendizado, em especial por se tratar de circuito tão escorregadio como este. A direção de prova decidiu interromper a prova uma volta antes do previsto. Nas voltas finais, com a chuva, era impressionante?, contou. ?Minha vantagem era tão grande que pude administrar a corrida, sem correr maiores riscos.?

Fórmula 1: Bruno só corre em 2008

A sua mãe, Viviane, irmã de Ayrton, e hoje a maior responsável por levar adiante o projeto do Instituto Ayrton Senna, dedicado à formação educacional de crianças carentes, telefonou para Bruno ontem, antes da prova. ?Agora vou ligar para ela e contar a novidade?, disse o piloto.

Bianca, sua irmã, o acompanha por toda parte, como empresária e assessora de imprensa. Os dois moram em Londres. Em Melbourne, como em outros locais onde vão, precisam criar uma agenda para atender a todas as solicitações de entrevistas.

?Meus planos, agora? Disputar um bom campeonato na Fórmula 3 britânica, uma grande escola, terminar entre os três primeiros, o que é uma meta realista, e aí correr na GP2 por uns dois anos?, disse Bruno. ?Acho que aí estaria pronto, bem formado, para a Fórmula 1. O pessoal da Williams até já conversou comigo sobre um teste, mas penso que é mais por causa do patrocínio da Petrobras na equipe. Ainda não é a hora.?

Amigo da família, o ex-piloto Gerhard Berger agora é dono de equipe, a Toro Rosso. Portanto, oportunidades para saber o que é um carro de Fórmula 1 e verificar seu talento não vão faltar para Bruno Senna.

Para muita gente da Fórmula 1, ouvir o hino brasileiro, ontem, enquanto a bandeira verde e amarela era içada pela vitória de um piloto de sobrenome Senna, gerou emoções fortes. Parecia que o dia 7 de novembro de 1993 não havia acabado e no pódio da pista de Adelaide estavam Ayrton Senna (McLaren), o vencedor, Alain Prost (Williams), o segundo colocado, e Damon Hill (Williams), o terceiro. A família Senna estava, ontem, de volta ao degrau mais alto do pódio. Não importa a proporção.