O Tigre já mostrou suas garras. Saulo de Freitas assumiu o comando técnico do Paraná Clube reformulando toda a grade de treinamentos, intensificando trabalhos técnicos e táticos e mexendo profundamente na equipe. Ao abolir o sistema com três zagueiros, deixou clara a sua intenção de armar um time mais ofensivo, atuando próximo da área adversária. ?Quero a equipe coesa, jogando numa faixa de 40 metros?, avisou o treinador.
Nesse processo de mutação, decidiu dar vez à garotada. Elvis e Giuliano – que recentemente disputou o Mundial Sub-17 pela seleção brasileira – foram escalados no primeiro treino tático desta nova era. O quinto técnico do Paraná nesta temporada – na contramão de tudo que o clube desenvolveu no ano passado, quando teve apenas dois comandantes, Luiz Carlos Barbieri e Caio Júnior – sabe que a missão é difícil, mas não impossível.
?Assumi o desafio porque acredito que é possível. Vamos focar um jogo de cada vez?, disse Saulo, com o pensamento voltado para o duelo de sábado, frente ao Flamengo. Arregaçando mangas, ao lado de Fernando Tonet e Fabiano Rosenau, iniciou uma série de treinamentos onde espera devolver a confiança ao grupo. O primeiro treino foi direcionado quase que exclusivamente às finalizações. Somente à tarde posicionou a equipe, no 4-4-2, como prometeu.
Na primeira etapa do trabalho, focou as ações ofensivas. Para buscar um maior volume de jogo, utilizou Elvis e Giuliano no meio-de-campo, ao lado de Batista e Adriano. Na única partida que disputou, três dias após sua chegada à Vila Capanema, Elvis foi ala (sua posição de origem) frente ao São Paulo. ?É a chance de mostrar que tenho potencial. Quero esquecer aquele jogo?, disse Elvis, numa referência à vexatória goleada sofrida no Morumbi (6×0). A opção de Saulo se justifica. O treinador trabalhou com Elvis – e nessa função – no Rio Branco.
Com um meio-de-campo teoricamente mais criativo, Josiel será melhor explorado, tendo ainda a companhia de Vinícius Pacheco, agora como atacante e não um meia-de-ligação. Pelo menos essa é a estratégia que está sendo armada por Saulo, na tentativa de ?virar o jogo? a favor do Tricolor.
Caso Maicosuel perto da solução
O imbróglio envolvendo Maicosuel, que caminhava para uma decisão judicial -havia audiência marcada para o início desta semana -, será decidido na base da conversa. Com o presidente José Carlos de Miranda ?fora da jogada?, a aproximação com o empresário Lê, que detém parte dos direitos econômicos do atleta, está em andamento.
O diretor de futebol, Durval Lara Ribeiro, teve uma rápida conversa com o procurador e com o próprio atleta, na manhã de segunda-feira. A audiência foi transferida para o início de dezembro e até lá espera-se um acordo entre as partes. Maicosuel está atuando no Cruzeiro sob liminar, com o fim da ação, o Paraná daria a liberação, com a devida compensação financeira. ?A idéia é economizar tempo e dinheiro?, disse Vavá.
O quadro só se complicou após um desentendimento pessoal entre Miranda e Lê, que culminou com a saída do atleta através de uma ação na Justiça do Trabalho. ?Queremos o entendimento. É melhor para todos, para empresários, jogador e para o clube?, finalizou Vavá Ribeiro. Quanto às questões envolvendo o meia Thiago Neves, o diretor evitou comentários. ?Não tive acesso a essa transação. Isso foi resolvido diretamente pelo presidente Miranda?, finalizou.
Miranda sai de cena no momento mais crítico do time
Carlos Simon
| Foto: Valquir Aureliano |
![]() |
| Quem dá as cartas agora é Aurival Correia, candidato à sucessão presidencial que, inclusive, definiu a contratação de Saulo. |
Onde está José Carlos de Miranda? Oficialmente, ele ainda é o presidente do Paraná Clube, mas uma espécie de golpe branco tirou o poder das mãos do dirigente.
Desde a segunda-feira da semana passada, data do anúncio da composição da chapa encabeçada por Aurival Correia, Miranda sequer aparece na Vila Capanema, como fazia quase diariamente. Ativo, o presidente sempre fez questão de acompanhar a delegação nos confrontos fora de Curitiba. Mas não foi a Natal para a partida de quinta-feira com o América, justificando que perderia a reunião do Conselho Normativo da véspera. Também não esteve em Florianópolis para o jogo de domingo contra o Figueirense, alegando problemas de saúde.
Em ambas as viagens, a chefia da delegação ficou com o próprio Aurival, 1.º vice-presidente tricolor. A ausência de Miranda chegou a provocar revolta de torcedores que foram à capital catarinense e exigiram a presença do cartola para explicar a má fase do time.
Ainda mais reveladora foi a definição do novo técnico paranista. Desde que assumiu o Tricolor, no início de 2004, Miranda centralizava a contratação e demissão dos treinadores – tornou-se até notório por mantê-los no comando, mesmo quando os resultados não eram bons. Mas ficou afastado da demissão de Lori Sandri e da vinda de Saulo. O vice-presidente de futebol, José Domingos, confirmou que a última palavra na recente troca do comando foi de Aurival Correia.
Há duas semanas, o principal dirigente tricolor nos últimos quatro anos anunciou que não participaria da sucessão – justo ele, que tanto se empenhou para poder candidatar-se à segunda reeleição.
O presidente do Conselho Deliberativo, Luiz Carlos de Souza, opositor do atual presidente, confirma que Miranda sente-se desgastado e por isso delegou as principais atribuições ao vice e candidato à sucessão. ?Miranda abateu-se bastante quando a reeleição foi vetada e ficou prejudicado politicamente. Também teve problemas de saúde que exigiam menos dedicação ao clube. Preferiu então passar algumas questões mais complicadas ao Aurival, que já coordenava vários assuntos internos?, afirmou.
Ontem, Miranda participou da reunião extraordinária convocada pelo Conselho Deliberativo para definir o processo sucessório. O encontro definiu a data da eleição: 7 de novembro. O Paraná-Online tentou contato com o presidente Miranda, mas os telefonemas não foram atendidos.
Thiago Neves ainda gera contestações
Por trás do isolamento do presidente Miranda, também estão questionamentos de oposicionistas em relação a algumas negociações. Entre os principais pontos está a venda de Thiago Neves.
Um dos grandes destaques do Brasileirão, o meia foi vendido para o Vegalta Sendai, do Japão, em 2005. O Tricolor ainda ficou com 20% dos direitos econômicos do jogador – o que atualmente significaria um enorme lucro pela valorização repentina de Thiago, em ótima fase no Fluminense. Mas antes de o meia ?explodir? esta fatia foi negociada por Miranda ao empresário Léo Rabelo e à LA Sports, parceira do Tricolor, que hoje dividem a totalidade dos direitos econômicos do atleta (68% de Rabelo e 32% da LA). Por estes 20%, o Tricolor recebeu R$ 231 mil.
Outro tema de divergência é a cláusula da negociação assinada por Miranda. Mesmo sem qualquer vantagem financeira, o Tricolor comprometeu-se com Rabelo a pagar multa de R$ 6 milhões se o contrato do jogador for rompido. Hoje, apenas os direitos federativos (contrato na CBF) pelo jogador permanecem vinculados ao Paraná. ?Houve quem contestasse o valor da venda e de fato questionamos a assinatura dessa multa, que é muito elevada. Mas Miranda tem explicado que o clube não irá arcar com ônus se a cláusula for respeitada?, disse Luiz Carlos de Souza, chefe do Conselho Deliberativo.
Souza afirma ainda ter ouvido contestações internas sobre outras vendas de atletas intermediadas por Miranda. ?Falam do Miranda, como falam de presidentes anteriores e dirigentes de outros clubes. Mas ninguém aparece com provas ou papel na mão?, afirmou.



