O orgulho nacional do futebol brasileiro estava materializado em um símbolo que há exatos 30 anos deixou de estar sob o domínio da nação mais vitoriosa no esporte. O sumiço da taça Jules Rimet, roubada da sede da CBF, no Rio de Janeiro, e derretida de forma tão fácil quanto fazer um gol sem goleiro, ainda não é totalmente explicado.

Se a lei não puniu e nem buscou os culpados, pelo menos serve o consolo de que nenhum dos envolvidos conseguiu colher os frutos do crime. O destino foi irônico e cruel com quem ousou roubar a taça criada para ser entregue de possa definitiva ao primeiro país a vencer três vezes a Copa do Mundo, feito alcançado pelo Brasil em 1970. Fora o significado simbólico da peça, havia o valor material. Criada em 1928 pelo francês Abel Lafleur, a Jules Rimet ganhou o nome do presidente da Fifa na época. A estatueta de 30 cm e 3,8 kg de ouro puro tinha uma base de mármore.

A história do roubo é cheia de mistérios. O primeiro deles é a incoerência de guardar no cofre a réplica da taça enquanto a original estava exposta na sala de troféus, protegida por um vidro blindado, mas presa na parede por uma moldura de madeira que foi retirada com uma picareta pelos ladrões. A taça foi levada para ser derretida depois.

“Não sei de quem é a culpa. Nós cumprimos nosso papel e eu tive a honra de erguê-la”, contou o capitão do Brasil na Copa de 1970, Carlos Alberto Torres. “Senti um grande impacto quando soube do roubo. É como se cada um daquela seleção perdesse uma parte do corpo. Foi uma ofensa ao povo brasileiro, um furto nacional”, afirmou o ex-zagueiro Piazza.

A polícia chegou aos criminosos após a denúncia de Antônio Setta, que participaria do roubo, mas desistiu. Em 1985, ele morreu de ataque cardíaco. Nenhum dos demais envolvidos no crime passou muito tempo na cadeia. Em 1988, três foram condenados a nove anos de prisão e outro, a três anos de pena. Este último, o argentino Juan Carlos Hernandez, é o acusado de ter derretido a taça.

Enquanto recorria em liberdade, Francisco Rivera, o Chico Barbudo, foi assassinado em 1989. Tempos depois, em 1994, Sérgio Ayres, o Peralta, foi preso após anos como foragido. Ficou dois anos na cadeia, saiu e em 2003 morreu de infarto. O terceiro, José Luiz da Silva, o Bigode, foi encontrado após denúncia anônima em 1995. Cumpriu pena por três anos até ganhar liberdade condicional.

Já o argentino, que vivia ilegalmente no Brasil, nunca esteve preso por ter derretido a taça, mas só foi capturado em 1998 por tráfico de drogas. Depois de sete anos foi libertado.

Para piorar a sensação de impunidade, as polícias civil e federal se atrapalharam na investigação. O ouro resultado do derretimento e o cheque que os bandidos tinham pela venda do material não foram encontrados.

CONSOLO – No ano seguinte ao roubo, restou à CBF acolher uma réplica, feita na Alemanha. “Eu viajei para buscá-la. É idêntica. Se alguém não sabe que a Jules Rimet foi roubada, vai dizer que é a original. Acho até que é mais bonita porque é novinha”, disse Carlos Alberto Torres.

A frustração foi minimizada, mas nem assim é possível para os campeões mundiais se conformarem. “Por mais que um ladrão, um psicopata possa ter coragem de fazer algo, nunca passa pela minha cabeça um pensamento tão simplista de roubar e derreter uma taça”, afirmou o ex-goleiro Leão.