Foi uma chegada triunfal. Ricardinho, convocado de última hora para substituir Emerson, levou um susto ao descer do carro que o levou ao Ulsan College, a fim de participar da parte final do treino da seleção brasileira. Dezenas de cinegrafistas, fotógrafos e seguranças cercaram o meia do Corinthians e retardaram sua passagem pelo corredor de acesso ao gramado.
Depois de mais de 50 horas de viagem, com conexão nos Estados Unidos e pernoite no Japão, Ricardinho enfim apresentava-se ao técnico Luiz Felipe Scolari, com pompa de quem não veio apenas para compor a equipe.
O treino foi interrompido. Scolari gritou o nome dos atletas mais afastados, pedindo que se aproximassem para receber Ricardinho. O jogador abraçou e cumprimentou todos os colegas. Agradeceu a Scolari, conversou rapidamente com o preparador físico Paulo Paixão e não teve tempo para descansar. Iniciou logo sua primeira atividade, com o auxiliar de Paixão, Darlan Schneider: correu 30 minutos em volta do campo. Aparentava desgaste, mas a vontade superou qualquer debilidade pela longa viagem.
Antes, ao passar no hotel que hospeda a seleção, deparou-se com Emerson, o único ausente do treino, na sala da Internet. A conversa foi rápida e constrangida. Ricardinho comentaria mais tarde sobre o encontro. “É o lado triste deste momento, de uma fatalidade que aconteceu na véspera da estréia com o Emerson”, disse, referindo-se à contusão que provocou o afastamento do jogador. “Desejei a ele boa recuperação.” Depois do jantar, os dois posariam juntos para fotos, no lobby do hotel.
O mais surpreendente no primeiro dia de Ricardinho na seleção foi o seu desprendimento. Estava solto, à vontade, como se fosse um veterano. Falava com segurança e alegria e parecia sentir a importância de sua inclusão na lista do mundial. Disse até que já estava superando o problema do fuso horário (em Ulsan são 12 horas a mais que em Brasília).
A todo instante, na entrevista concedida à noite, solicitado a falar sobre a disputa por uma vaga na seleção, respondia com simplicidade. “Estou à disposição do treinador.” Contra a China, no sábado, Ricardinho não começará jogando. Pode até entrar no decorrer da partida, uma decisão que será analisada com calma por Scolari e seus auxiliares. O meia vai ter de fazer atividades extras e passar por exames clínicos. Ele assegurou, porém, que suspendeu os exercícios físicos somente na quinta-feira. “Estou com o peso ideal e em ritmo de jogo”, declarou, lembrando que atuara pela última vez, domingo retrasado, pelo campeonato paulista.
Treinador mantém o mistério
Antero Greco
A questão foi levantada por Luiz Felipe Scolari. O técnico da seleção disse na terça-feira que “poderia” ocorrer uma mudança na equipe que inicia o jogo de sábado contra a China. A dúvida tende a desaparecer no treino marcado para hoje à tarde, no impecável gramado do centro de treinamento do Ulsan College, base do Brasil na primeira fase da Copa. O treinador cala a respeito de nomes ou setor em que haveria substituição. Mas o campo pouco fértil para especulações indica a zaga ou o meio como pontos que chamam a atenção. Por exclusão, Edmílson ou Juninho perderia a posição.
“Não disse nada”, desconversou Felipão, ontem, antes do treino tático em que ensaiou jogadas de ataque iniciadas com os zagueiros. “Se fizer alteração, será só uma”, afirmou, enfático, o que reforça a tese de que eventualmente não venha a repetir a formação que iniciou o jogo com a Turquia. “Estou analisando algumas situações e não decidi o que fazer.”
Felipão ficou mais sereno, depois de observar o comportamento dos chineses, na derrota por 2 a 0 diante da Costa Rica. A equipe dirigida por Bora Milutinovic mostrou disposição, boa vontade, empenho, que não chegaram a compensar a fragilidade técnica. A falta de habilidade dos próximos rivais cutucou o desejo de novas experiências. “Ou posso jogar com dois zagueiros, por exemplo”, acenou. “Ou posso manter o esquema com três e ver outra opção.”
Ou seja, Felipão tanto pode mudar algo como deixar tudo como antes. Se optar por esquema mais agressivo, Juninho Paulista permanece, para atuar ao lado de Rivaldo, Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho. Dessa forma, a tal “única” mexida recairia na defesa. Roque Júnior não sai, até porque foi o mais seguro dos três zagueiros. Lúcio seguiu mais à risca a recomendação de “dar chutões” quando necessário. Edmílson revelou mais nervosismo, pelo menos na etapa inicial. O campeão francês pelo Lyon poderia dar lugar a Anderson Polga. Há quem considere certa essa mudança. Felipão não confirma nem desmente, apenas limita-se a comentário adequado para a ocasião. “Ninguém sabe o que estou pensando”, garantiu. “Ou querem saber mais do que eu?”
Treino para melhorar arremates
O técnico Luiz Felipe Scolari admitira que as falhas seguidas de finalização da seleção brasileira deviam-se também à falta de treinos específicos na fase de preparação da equipe para o mundial. Por isso, comandou ontem um trabalho inédito desde que assumiu o cargo de treinador do Brasil: ocupou um período inteiro de atividades, quase duas horas ininterruptas, para aperfeiçoar os chutes a gol do time. O resultado foi ruim. Muitas vezes, a bola passou bem distante das traves.
Duas semanas atrás, o Brasil errou em demasia nas conclusões, no primeiro tempo da vitória por 4 a 0 sobre a Malásia, tanto que o time titular, em 45 minutos, não marcou nenhum gol. Contra a Turquia, o problema se repetiu. Várias oportunidades desperdiçadas diante apenas do goleiro.
Scolari exercitou a capacidade de improviso da equipe nos arremates. Quem é destro tinha de chutar a gol com a esquerda e vice-versa. Não deu para contar quantas vezes os seguranças do Ulsan College, local do treino, tiveram de abandonar seus postos para devolver a bola a campo. Alguns chutes atravessavam o morro que divide parte do colégio. Outros subiam demais e tocavam o cume de enormes árvores atrás dos gols.
Da esquerda, cruzavam Roberto Carlos, Júnior e Denílson, para o complemento de quem surgisse na área. No lado direito, ficavam Cafu, Belletti e Juninho para levantar a bola. Ninguém teve bom aproveitamento nas conclu-sões. Rivaldo e Ronaldo estiveram regulares, com altos e baixos, assim como Ronaldinho Gaúcho e Edílson. Kaká acertou bonitos chutes, mas errou outros mais fáceis.
Os zagueiros, pouco habituados a esse tipo de treinamento, tiveram mais dificuldades. A todo instante, Scolari cobrava capricho e atenção. Deu suas costumeiras broncas para que o grupo não se acomodasse e tentasse a todo custo superar o goleiro – Marcos, Dida e Rogério Ceni revezavam-se no gol, com pouco trabalho. “Agora temos mais tempo para o trabalho técnico e tático”, comentou Ronaldinho Gaúcho. (SB e WV)
Polga diz que está pronto para entrar
Anderson Polga não é veterano de seleção e só ganhou espaço este ano, com bom desempenho em amistosos. A regularidade e o estilo combativo, que tanto agradam a Felipão, foram decisivos para a convocação para a Copa. Essas características podem, agora, colaborar para que estréie no torneio no sábado, contra a China. Desde que o treinador confirme a tendência de alterar o time, como insinuou depois do duelo com os turcos.
A expectativa de jogar uma partida de Mundial mexe com o gaúcho Polga, destaque do Grêmio no ano passado e um dos pontos de referência do esquema do técnico Tite. “Claro que a gente fica pensando na possibilidade de jogar”, admitiu ontem, ao ser assediado, após alguns dias de ostracismo. “Para isso, estou me preparando desde que fui chamado pela primeira vez.”
Polga não tem medo de que o nervosismo do noviciado o incomode, se tiver de enfrentar os chineses. Embora não seja um falastrão, garante que o tempo de convivência com jogadores como Roberto Carlos, Ronaldo, Rivaldo o ajudou a assimilar o que significa a responsabilidade de defender a seleção. “Estamos juntos há quase um mês e há bom ambiente, entrosamento e compreensão”, recordou. Se for chamado, adianta, entra sem acanhamento.
As tarefas também já foram decoradas. Polga diz que, se for preciso, dá chutão para o alto, conforme recomenda Felipão. Mas prefere sair jogando e usar de sua experiência como volante, a posição de origem. “Zagueiro bom é aquele que não deixa o atacante passar”, informa, para resumir seu método de ação.
Edmílson concorda em parte com o colega do Sul. O ex-são-paulino não se considera fã dos chutes sem direção, com a ressalva de que pode usar desse expediente eventualmente. “Prefiro também sair tocando”, revela. O titular do Lyon não se sente ameaçado de ir para a reserva, mas com franqueza reconheceu ter ficado nervoso no começo do jogo de estréia.
“Mas isso causa preocupação e fica difícil recuperar a confiança. No entanto, conseguimos e viramos o resultado.” Em sua avaliação, os erros foram de passes e não de jogadas em que os atacantes tentaram entrar na área. “Essas falhas podem ser corrigidas.”


