Valquir Aureliano
Borot, do Renovicente, o atleta Deividson e o venezuelano Dickson.

A Venezuela pode ser o próximo destino de jogadores do futebol amador de Curitiba. O Renovicente, clube que disputa torneios das categorias infantil, juvenil e juniores, está fechando uma parceria com o Minerven, da 2.ª divisão venezuelana.

O intercâmbio com o Minerven pode abrir uma nova porta para os jovens do Renovicente iniciarem a carreira profissional. Os atletas que chamarem a atenção do clube venezuelano podem ganhar um contrato de cinco meses, com um salário que pode superar os 2 mil dólares por mês (R$ 3,8 mil). ?A idéia é abrir um campo de ação junto ao Renovicente. Nós queremos crescer, ganhar experiência. Até para aproveitar toda a infra-estrutura que o futebol venezuelano ganhou com a Copa América?, diz Carlos Dickson Perez, dirigente do Minerven que está em Curitiba para selar o acordo.

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O Minerven joga no moderno Estádio Cachamay, em Puerto Ordaz.

Além de ceder atletas, o Renovicente também pode receber jogadores daquele país e até disputar títulos na terra do presidente Hugo Chávez. ?Alguns atletas venezuelanos também podem vir para cá, para algum trabalho de intercâmbio técnico. E o Renovicente pode ser convidado para jogar torneios nas categorias infantil e juvenil?, explica Dickson.

Os jogadores do time curitibano podem agora seguir os passos do atacante Deividson, 20 anos. Ele já passou por Guarani (SP), Mauaense (SP) e estava no Matsubara (PR). Em dezembro, embarca rumo à Venezuela, onde defenderá o Minerven pelo menos até junho de 2008.

Internacional

Ampliar seus negócios fora do País é a principal meta do Renovicente com a parceria. ?Queremos ganhar experiência internacional e buscar novos mercados. Só no plano regional e amador, as possibilidades são poucas. Não existe potencial para parcerias e patrocínios?, afirma Roberto Bonet, diretor do clube curitibano.

O Renovicente já possui uma parceria semelhante com o Cruz Azul, do México. Recentemente, o atacante Felipe foi negociado com os mexicanos.

Já o Minerven busca marcar presença no Brasil, o maior celeiro de craques do futebol mundial. ?Estamos na mesma busca: colocar os clubes no plano internacional. O Renovicente está abrindo para nós a porta do Paraná e de Curitiba. É uma ponte para nos aproximarmos de outros clubes. Ele serão uma embaixada do Minerven no Brasil?, acredita o diretor do time da Venezuela.

Mas o que levou os venezuelanos a apostar no Renovicente? ?No ano passado, tive uma convivência com o Atlético-PR. É um clube modelo na administração e no marketing. Mas para nós é muito difícil alcançar esse nível. Preferimos uma parceria com uma equipe mais modesta. É a possibilidade de ter uma relação de proveito mútuo, entre iguais. Queremos seguir crescendo juntos?, conclui Dickson.

Histórias quase parecidas

Fundado em 1985, o Minerven se firmou nos anos 90s como uma das principais forças do futebol venezuelano. Campeão nacional em 94, chegou às quartas-de-final da Libertadores. No mesmo ano, eliminou o Botafogo-RJ na Conmebol, feito marcante para um clube da Venezuela.

Uma grave crise financeira e administrativa fez o clube fechar as portas em 2001. Retomou as atividades apenas este ano, após uma fusão com o Clube Iberoamericano. Atualmente, disputa a 2.ª Divisão.

O Minerven é da cidade de Puerto Ordaz, no Estado de Bolívar. Localizado na fronteira com o Brasil, o estado é o berço do futebol venezuelano. Foi lá que o pioneiro Stalin Rivas introduziu o esporte no país, em 1847. Atualmente, o clube manda seus jogos no moderno Estádio Cachamay. Construído para a Copa América, realizada em julho último, tem capacidade para 41 mil pessoas e foi o palco da derrota do Brasil para o México, por 2 a 0, na 1.ª fase.

Renovicente

Surgiu em 2001, como resultado da fusão entre Renove e São Vicente. O clube tem um estádio com capacidade para 3 mil pessoas, no bairro Santa Cândida. Campeão da divisão de amadores da Federação Paranaense de Futebol (FPF) em 2002, atualmente disputa apenas os torneios das categorias de base.

?Só enche ser for com a Shakira?

Aproveitar o legado da Copa América é o maior desafio do futebol venezuelano. Com nove modernos estádios, construídos ou totalmente reformados para a Copa América, o país tenta agora encontrar público suficiente para lotar as arquibancadas.

O torneio sul-americano de seleções foi um marco para o futebol na Venezuela. ?Hoje, temos a melhor infra-estrutura da América. Mas os clubes ainda são muito fracos. Falta aprimoramento gerencial e técnico?, avalia Carlos Dickson.

Os clubes vivem atualmente o desafio de aumentar drasticamente a média de público em seu campeonato nacional. Se não conseguirem, os modernos estádios correm o risco de tornarem-se imensos elefantes brancos. ?São todos muito grandes, com capacidade para 30 mil ou 40 mil pessoas. Para atrair um público desses na Venezuela, só os evangélicos ou a Shakira?, diz Dickson, brincando com a imensa popularidade da cantora colombiana no país.

O Estado de Bolívar, terra do Minerven, é uma exceção, pelo menos em potencial. Ao contrário do restante do país, que prefere o beisebol, a região é um reduto dos fãs de futebol. ?Com um time de primeira linha, podemos conseguir públicos de até 20 mil pessoas?, acredita Dickson.