O Tribunal de Justiça Desportiva está sendo alijado de analisar um dos casos mais rumorosos dos últimos tempos. Não foi divulgada, mas nos bastidores do TJD fala-se abertamente na decisão do procurador Adão Laslowski, que decidiu enviar para a Promotoria de Investigações Criminais (PIC) o inquérito do ?Caso Bruxo 2?, conjunto de denúncias de corrupção envolvendo árbitros, dirigentes de clubes e a cúpula da Federação Paranaense de Futebol. O fato impede que o mérito esportivo da questão seja discutido, e que possíveis culpados sejam punidos.

Após a divulgação pela Tribuna das declarações de um ex-jogador do Engenheiro Beltrão, que acusou o clube de ser beníficiado pela arbitragem para subir para a Série Ouro do Campeonato Paranaense, em 2004, o auditor Paulo César Gradella iniciou o inquérito reunindo provas e ouvindo depoimentos – inclusive do presidente da FPF, Onaireves Moura (que na ocasião confirmou a existência de ?bruxos? no futebol paranaense).

Ao final das investigações, foram indiciados Onaireves Moura, os ex-presidentes da Comissão de Arbitragem José Carlos Marcondes e Fernando Luiz Homann; e o diretor da escola de árbitros da FPF, Nelson Orlando Lehmkhul. Eles corriam riscos de punições severas – de quatro anos de suspensão à eliminação do futebol.

O relatório foi enviado então para a Procuradoria do TJD, responsável por analisar se existiam ou não indícios suficiente para denunciar os acusados. Para os entendidos em direito esportivo, havia no texto de Gradella fortes indícios de irregularidades, e era iminente o caminho até o julgamento. O documento chegou às mãos de Laslowski em dezembro do ano passado, e dali em diante não se ouviu mais falar do assunto.

No final de 2005, a Procuradoria foi cobrada sobre o andamento do ?Caso Bruxo 2?, mas nada foi informado. Em meados de janeiro, outra vez houve questionamentos a Laslowski. O procurador não remeteu o assunto ao Tribunal de Justiça Desportiva, mas sim preparou um documento sugerindo o envio dos documentos à PIC, que o anexaria à investigação sobre os problemas na arbitragem paranaense. Segundo fontes do TJD, a justificativa seria a não existência de ilícito esportivo no caso, e a melhor condição da Promotoria para investigar o caso.

O coordenador da PIC, Dartagnan Abilhôa, estáde férias e não soube informar se houve o envio dos documentos.

Mas a manobra acabaria impedindo que houvesse julgamento dos acusados -inevitável, pelo teor do texto produzido por Paulo César Gradella. O caso sai da esfera esportiva e evita que as possíveis manipulações de resultados sejam analisadas – e os acusados ficariam ?livres? para retomar suas atividades no futebol, caso queiram.

Para que o relatório seja mesmo enviado à PIC, é necessária a anuência de Bortolo Escorsin, que já teria recebido o documento de Laslowski. E até mesmo alguns auditores não têm certeza absoluta da decisão do presidente do Tribunal.

E caso esta decisão demore, o ?Caso Bruxo 2? pode acabar sendo arquivado, como informou a Tribuna de sábado. O tempo previsto pela legislação para o final do processo é de 60 dias e termina no dia 28 de fevereiro. A assessoria de imprensa da FPF informou em nota oficial que Laslowski e Escorsin darão uma entrevista coletiva para falar sobre o assunto amanhã, às 17h, na sede da Federação. Coincidência ou não, será quase no mesmo horário do julgamento do recurso do ?Caso Bruxo 1? no Superior Tribunal de Justiça Desportiva, no Rio de Janeiro.

Árbitros paranaenses estão sem comando

?Somos um navio sem comando?. A frase é do árbitro Bernélio Sérgio Lima, e foi proferida durante a Assembléia Geral da Associação Profissional de Árbitros de Futebol do Paraná (Apaf-PR), que aconteceu no salão nobre do Pinheirão. Após as renúncias sucessivas dos então dirigentes Francisco Carlos Vieira, Henrique França Triches e Héber Roberto Lopes, a entidade ficou ?acéfala?, e coube ao secretário Emerson José Tozo convocar a assembléia para dar início ao processo eleitoral – um dos mais importantes para a categoria.

Os árbitros sabem da necessidade de uma entidade de classe forte. ?Estamos em um momento complicado, precisamos de unidade e de pessoas capazes?, diz Tozo, que na segunda comandou a reunião que escolheu Bernélio Sérgio Lima, Edemar Paris e Cristiano Nunes para formar a comissão eleitoral – esta deve convocar o pleito para o final de março, com os vencedores assumindo até 2008, o restante do tempo de mandato da direção que renunciou. Os jovens árbitros lançados pela Comissão de Arbitragem (o vice-presidente José Carlos Meger estava presente na Assembléia Geral) estão sentindo na pele os efeitos do ?Caso Bruxo?, sendo constantemente criticados por suas atuações.

Por conta disso, os árbitros mais experientes querem um comando forte na Apaf-PR. ?Queremos um nome que tenha força para nos representar onde for necessário?, afirma o assistente Rogério Carlos Rolim. A intenção é formar uma chapa com um ex-juiz como candidato à presidência – para dar maior independência nas negociações com os clubes e com a FPF. A chapa precisa de um presidente, dois vices, dois secretários e dois tesoureiros, além de três titulares e três suplentes para o Conselho Fiscal.

A eleição na Apaf-PR foi assunto até da Associação Nacional de Árbitros de Futebol. O presidente da entidade, José de Assis Aragão, esteve no Paraná semana passada e pediu pressa na escolha da nova diretoria. ?Nós vimos que temos o respaldo da entidade nacional. Eles estão nos apoiando.

Agora é a nossa vez?, resume o assistente Altemar Roberto Domingues.