Se dependesse do desejo do presidente da CBF, o mineiro Ricardo Teixeira, 60 anos, o Brasil participaria dos Jogos Olímpicos de Pequim com atletas abaixo de 23 anos. Foi convencido por Dunga e mudou de idéia. Porém, não de espírito. Em entrevista, o dirigente revelou que os privilégios de outras Olimpíadas, como hotéis exclusivos e isolados, vôos charter e contas de milhões de dólares, não farão parte do programa de 2008. A seleção usará a estrutura determinada pelo Comitê Organizador. Se chegar a Pequim, ficará na Vila Olímpica. Na sede da CBF, o dirigente falou de Copa-2014, contrato com a Nike e de mudanças na Série C, entre outros assuntos.
O senhor tinha falado outras vezes em deixar a CBF, mas isso nunca se concretizou. Agora, marcou data para 2015, sete meses depois da Copa-2014…
Ricardo Teixeira – Um projeto de Copa do Mundo é algo tão importante para um país que, ao superar todos os desafios, você pára para pensar e se pergunta: ?agora, vou começar tudo de novo? O que poderei fazer daqui para frente??. Saio da CBF em janeiro de 2015.
Quais os ganhos enxerga para o país-sede da Copa?
Teixeira – Copa da Argentina (1978). Como a competição seria lá, os argentinos ganharam a TV colorida. No Brasil, teremos projetos antecipados: Brasília terá o metrô convencional, com trechos de superfície. Duvido que haveria grupos interessados em revitalizar o Mineirão, o Maracanã e o estádio de Brasília se o Brasil não sediasse a Copa.
O senhor acha mesmo factível para o Comitê Organizador operar sem dinheiro público?
Teixeira – Já tenho pronto e aprovado pela Fifa e pelo Comitê Executivo todo o balanço de despesas mês a mês. Seremos auditados. Os números orçados para o Comitê Organizador estão na faixa de US$ 400 milhões (R$ 688 milhões). Todo esse recurso será enviado pela Fifa. Nenhum pagamento caberá ao Estado. Vamos admitir que a empresa ?X? seja patrocinadora do Comitê local. O dinheiro não passa pelo caixa da CBF. Tudo é fechado com a Fifa. Mas saberemos quanto será gasto. Existem patrocinadores que serão aprovados pela Fifa.
Ainda assim, não se preocupa que qualquer tipo de escândalo possa ser associado com a candidatura do Brasi?
Teixeira – Não, porque não definiremos nada em termos de obras. Nossa missão é simplesmente acompanhar se os projetos estão sendo tocados. Faremos o seguinte: meu amigo, o projeto do estádio é esse. Quer fazer a Copa? Então, é isso aqui. Se sentirmos que as metas não estão sendo cumpridas, procuraremos outro local como sub-sede. E aí pergunto: que culpa você pode ter se por acaso o governador levou dinheiro, se houve superfaturamento? Aconteceu nos Estados Unidos, na Alemanha, é incontrolável. Por isso, nossa preocupação é cobrar as exigências dos encargos, sem ter nada com um tostão gasto pelo governo.
A desvalorização do dólar cria problema para a CBF? Com a Ambev, o senhor tem contrato até 2018, indexado ao dólar…
Teixeira – Claro que os problemas são enormes. Por exemplo, quando iniciei o contrato com a Ambev, o faturamento seria em torno de R$ 22 milhões. Com a queda do dólar, hoje o contrato gira em torno de R$ 17 milhões. Isso significa que a CBF deixou de ganhar US$ 5 milhões.
A Nike pagará 41 milhões de euros por ano à seleção francesa, mas renovou com o Brasil por apenas US$ 22 milhões. O Brasil cobrou pouco ou a França receberá muito?
Teixeira – Quando reajustaram para US$ 22 milhões, ficou acertado que, se aumentasse o patrocínio de outro país, discutiríamos novo contrato.
O que o senhor chama de proposta grande da Nike para outra seleção?
Teixeira – É claro que consigo me municiar de informações e, baseado nelas, marco a reunião com a Nike. O que ninguém fala é que essas renovações comentadas por aí só vão valer a partir de 2011. Vamos ser objetivos e analisar nosso poder de negociação: como se não bastasse a qualidade do nosso futebol, que é admirada no mundo inteiro, a Copa de 2014 será no Brasil. Portanto…
O item segurança é um risco para o Brasil sediar a Copa?
Teixeira – O nível de segurança tem que melhorar, claro. Mas nosso problema é diferente do da Alemanha. Aqui, a gente não se depara com grupos que pintavam a cabeça de vermelho. Eram nazistas brigando com turcos, enfim… Nosso problema são os assaltantes. E, se reforçarmos a estrutura com policiamento ostensivo, em um mês a gente resolve o problema.
Outro assunto importante é as Olimpíadas de Pequim. Como está o planejamento da seleção?
Teixeira – Na última semana, eu e Dunga discutimos vários assuntos. Como liberação de jogadores e o aumento de datas para jogos.
O Milan deve disputar as preliminares da Liga dos Campeões, quando a seleção olímpica estiver em Pequim. Como será?
Teixeira – Reparem: acabou esse negócio de fax, e-mail, Dunga falando, enfim… Na condição de presidente da Força-Tarefa da Fifa, presidi a reunião em que estavam (Adriano) Galliani, vice do Milan; (Franz) Beckenbauer, presidente de honra do Bayern; (Karl-Heinz) Rumennigge, presidente do Bayern; Juan Laporta, presidente do Barcelona. Acertamos uma série de detalhes e posso dizer que já existem caminhos.
Em termos de filosofia, como a CBF encara os Jogos?
Teixeira – Se é um time olímpico, ficará na Vila Olímpica ou em locais designados pelo Comitê dos Jogos, e viajará em avião de carreira. Os jogadores terão tratamento idêntico ao dispensado para os atletas de outras modalidades. Já tentei (dar privilégios) de toda maneira e não deu certo. Em Atlanta-96, levamos o melhor time, a delegação ficou nos melhores hotéis, gastamos US$ 5 milhões e não ganhamos. Agora, nosso plano tem a cara do Dunga.
E se o jogador convocado não aceitar essas condições?
Teixeira – Que mande uma carta, anunciando que não pode disputar as Olimpíadas.
A CBF vai revelar e divulgar a carta, com os argumentos?
Teixeira – Claro. Nada tem que ser escondido.
Como analisa o trabalho de Dunga até agora?
Teixeira – Bons resultados são importantes, mas não medimos o trabalho em termos de vitórias. O fundamental é a filosofia que ele está implantando e que queria que fosse implantada.
A CBF tirou apoio financeiros dos clubes da Série C. É o fim da 3.ª Divisão?
Teixeira – Quando dissemos que queríamos a Série A do Brasileiro disputada por 20 clubes, caindo 4 e sendo completado pelos da Série B, houve quem duvidasse. Nossa meta agora é que a Série C, com 64 clubes, tenha apenas 20 e seja auto-suficiente.
Como é possível?
Teixeira – Para este ano, não dá. A idéia é para 2009. Os quatro primeiros colocados da Série C (2008) se classificarão para a Série B do ano que vem. Os quatro da B que caírem para a Série C se juntam aos 16 mais bem classificados (a partir do quinto lugar) para formar a C de 2009, também com 20 equipes.
Que imagem a Fifa tem do Campeonato Brasileiro?
Teixeira – Nosso campeonato vai bem. Tanto que ninguém mais acredita em virada de mesa. Nenhum torcedor se mostrou incrédulo quanto à possibilidade de o Corinthians ser rebaixado para a Série B. Isso acabou, ainda bem.