Prestes a completar 74 anos (no dia 23 de outubro), Pelé não mostra o seu característico vigor físico em aparições públicas, manca da perna direita e precisa se apoiar em quem estiver mais perto para manter-se ereto. Tudo por causa da cirurgia de fêmur realizada em novembro de 2012 e por um incômodo novo, e aparentemente solucionado, na coluna, mais precisamente nas vértebras L2 e L3.

Pelé abandonou lá atrás a fisioterapia, recomendada pela filha e especialista no assunto Flávia Christina Kurtz, que o acompanha desde a operação. Sua condição atual o deixa cada vez mais longe de uma velha companheira, a bola, com quem brinca desde os tempos de Bauru Atlético Clube, o Baquinho, quando ainda era um moleque como outro qualquer.

Apesar de tudo, Pelé continua cumprindo a sua agenda rigorosamente como faz desde 1977, quando parou de jogar (no New York Cosmos) para se transformar em garoto-propaganda de si mesmo e de seus feitos, eternizados em livros, filmes, vídeos e fama. Mas envelheceu como todo mundo de carne e osso.

Sua aparência está mais para a de um senhor beirando os 80 do que para aquele rapaz que infernizava defesas e que todos nós temos na lembrança. Pelé e a bola não se conversam mais, embora pareça inadmissível pensar em um sem fazer referência à outra. Ele ganhou a sua primeira bola aos cinco anos, dada por Souzinha, amigo do seu pai, Dondinho, e ex-ponta do Corinthians. Em 1999, a revista Placar fez uma reportagem com o Rei em que ele dizia não ter nenhuma pelota em casa.

Pelé parece frágil aos 73 anos. O que mais chama a atenção é o seu jeito de andar, mancando, com dificuldades. Ele não fez o que precisava fazer em seu tratamento para voltar a andar e deixar de sentir dor na região lombar. “Minha recuperação está mais lenta do que eu imaginava e queria”, disse com exclusividade na semana passada, quando esteve no Museu Pelé, em Santos, no centro histórico da cidade, em um casarão branco de janelas e portas verdes (100 ao todo), construído em 1867. Ele estava acompanhado do arquiteto Dado Castello Branco para discutir a composição de sua sala de trabalho. Os compromissos comerciais e a Copa do Mundo, além do problema na coluna, o afastaram do tratamento dos quadris.

“Estive no Rio de Janeiro recentemente, no Morro da Mineira, para inaugurar um piso sintético que gera energia própria ao ser tocado e a criançada lá até pediu para eu chutar uma bola, brincar com ela, mas o piso era duro e não deu”, contou Pelé, que não deixa de exaltar a sua paixão pela velha companheira, de quem está, na verdade, cada vez mais longe.

Pelé não está proibido de bater na bola, mas sua condição não lhe permite isso nesse momento por falta de confiança, como explica sua filha. “Ele não tem mais dores nos quadris e poderia chutar uma bola, desde que tivesse confiança, o que provavelmente lhe falta neste momento. Ele manca, mas não sente dores. Manca porque virou seu padrão de andar após a cirurgia do fêmur. Seu sistema nervoso precisa fazer com que se esqueça disso e volte a andar normalmente. Ele precisa apagar esse jeito de andar da memória. Precisa de fisioterapia”, explicou Flávia, que há dois meses retomou, com a ajuda de um colega de profissão, Marcelo, as sessões do tratamento em Santos – de duas a três vezes por semana.

Quando recebeu a reportagem em sua casa, em fevereiro de 2013, Pelé dava início a esse trabalho pós-cirúrgico. Estava mais magro e andava amparado por bengala, mas esbanjava disposição. Não via a hora de voltar a caminhar com as próprias pernas. De lá para cá, somente as dores nos quadris desapareceram. Seu processo de recuperação estacionou e o “viciou” em mancar. “Ele nem percebe que manca”, disse Flávia.

Mexer nos quadris provocou outro problema no “senhor” Pelé: em sua coluna, nas vértebras L2 e L3. Pelé precisou de infiltração, fazendo um pinçamento da raiz nervosa. A intervenção foi feita pelo médico Edson Desen. Com a coluna em dia e sem os compromissos da Copa, sua filha espera que ele retome a fisioterapia com mais responsabilidade. Se pudesse, puxaria sua orelha e o obrigava, feito criança, a cumprir rigorosamente seu compromisso com ela. “Ele perdeu a força na perna direita. Se sentir segurança novamente, poderá voltar a chutar uma bola. Não está proibido, mas não tem confiança. Ele manca por isso também”.

Seu novo tratamento prevê sessões semanais durante mais 10 meses. Portanto, com data para terminar próximo de Pelé completar 75 anos.