Carlos Alberto Parreira:
o importante é classificar.

Em meio ao festival de frases-feitas de Carlos Alberto Parreira na entrevista coletiva após o empate com o Uruguai, ficou clara a decepção do treinador.

Ele sabia que o Brasil tinha chances de terminar o ano como melhor seleção das eliminatórias da Copa do Mundo, mas um inacreditável segundo tempo tirou a vitória que já estava certa para os torcedores que foram ao Pinheirão. E reacendeu várias dúvidas sobre a seleção.

E, com o 3×3 de quarta, o Brasil fechou a temporada como terceiro colocado, atrás de Paraguai e Argentina. Confrontado com a promessa de ser o líder das Eliminatórias após as quatro rodadas (feita quando assumiu a seleção), Parreira tentou contemporizar. “O meu interesse é classificar a seleção brasileira para a Copa. Se possível, em primeiro, mas o importante é estarmos na Alemanha em 2006”, afirmou.

Só que a campanha até agora (duas vitórias e dois empates) é a mesma das eliminatórias de 2002, quando o Brasil sofreu até o último jogo. “Isso é uma coincidência. Se os resultados são iguais, apenas se pode ver que essa disputa é bastante complicada”, refutou Parreira – logo ele, que viera para a coletiva armado de estatísticas para lembrar a todos que a seleção fizera um ótimo primeiro tempo.

Mas não adiantou. O técnico acabou reconhecendo que o time caiu de produção, mas atribuiu isso às dificuldades das eliminatórias. “Nós estávamos enfrentando um adversário de qualidade, que era o Uruguai. E essa competição será assim até o final, por isso temos que colher resultados. E pelo que aconteceu no jogo, temos que comemorar um ponto”, disse Parreira, sem convencer muito.

Tal declaração fez a ‘tropa’ gaúcha da imprensa questionar o treinador sobre a possibilidade de mudanças táticas no ano que vem – em resumo, a volta de Emerson, que foi sacado do jogo de ontem. “Não posso dizer que o time de hoje (quarta) será o time do final das eliminatórias. Nós temos jogadores de qualidade e cada partida tem sua história”, afirmou Carlos Alberto Parreira, usando mais um chavão.

Isso abre caminho para o retorno de Kléberson – uma das ausências mais reclamadas pela imprensa nacional – e para a possibilidade de maior renovação na seleção, promessa de Parreira. “Nós temos esse tempo para pensar. E podem ter certeza que ninguém mais que eu espera que a seleção sempre jogue bem”, avisou o técnico. É o que esperamos.

E os jogadores tentam explicar as falhas

Dois jogos na seqüência, a mesma lição a ser tirada. Essa é a conclusão que se tem após ouvir os jogadores da seleção brasileira. Após a partida contra o Uruguai, na qual o Brasil empatou em 3 a 3, no Pinheirão, era visível o olhar de decepção dos atletas. Assim como aconteceu contra o Peru, no dia 16, a seleção saiu na frente e permitiu o empate. Os resultados iguais podem não ter quebrado a invencibilidade do Brasil, mas deixaram a seleção em terceiro lugar na classificação das eliminatórias – o Paraguai é líder e a Argentina é vice.

Na partida contra o Uruguai, o Brasil deu show de bola no primeiro tempo, repetindo o bom futebol apresentado na conquista do pentacampeonato. Mas como aconteceu em Lima, a queda de produção na segunda etapa custou caro.

“Poderíamos ter decidido no primeiro tempo, mas perdemos muitas chances. No segundo tempo, deu um branco e pagamos caro”, diz Alex, que, apesar dos apelos da torcida brasileira, continua entrando apenas no decorrer dos jogos. Para o meia, é difícil detectar o que realmente aconteceu. “Nós não costumamos tomar gols desse jeito, mas cabe à comissão técnica avaliar o que houve de errado. Mas aconteceu e não adianta lamentar. No ano que vem, temos que nos recuperar contra o Paraguai e a Argentina”, disse.

O volante Zé Roberto acredita que a desatenção em momentos cruciais está sendo fatal para a seleção. “Mostramos um futebol de alta classe no primeiro tempo e faltou atenção para manter o ritmo e não deixar o adversário crescer.” Para o jogador, não há motivo para desespero. “As eliminatórias são longas e tem como recuperar, buscar a reabilitação nos próximos jogos, mesmo sabendo que os próximos adversários estão na liderança.”

Diferente da impressão que pode ter ficado, o volante Gilberto Silva garante que não houve menosprezo ao adversário. “Houve sim uma desconcentração. Respeitamos o Uruguai, sabemos da tradição do adversário e o jogo não estava ganho. Tanto que eles conseguiram arrancar um empate.”

Para o lateral-direito Cafu, o grande erro do Brasil pode ter sido desperdiçar as chances criadas na primeira etapa. “Poderíamos ter feito até seis, mas desperdiçamos as chances. O adversário não. Soube valorizar as chances criadas.” O mesmo pensamento é compartilhado pelo lateral-esquerdo Júnior, que substituiu Roberto Carlos. “É o tipo de jogo em que a gente vai, vai, mas não faz. Eles foram e fizeram.”

Defesa

O zagueiro Lúcio, que saiu de campo muito criticado pelas falhas da defesa, defendeu-se alegando que a entrada de Renato no lugar de Emerson, desguarneceu a defesa. “O time ficou mais ofensivo e consequentemente, ficamos mais suscetíveis aos contra-ataques.” Quando indagado sobre suas falhas individuais, ele foi enfático. “Se tivesse falhado tanto como dizem no primeiro tempo e o placar tivesse se mantido em 2 a 0, estava ótimo”, ironizou.

O beque Roque Júnior, que fez dupla com Lúcio, reclamou da perseguição à defesa e garante que o prejuízo deve ser dividido com o grupo. “A defesa só aparece quando falha. Mas esquecem que os gols podem resultar na qualidade das jogadas do adversário”, disse.

Passado o calor da partida, os jogadores garantem que vão usar os erros cometidos nas primeiras partidas das eliminatórias para evitar maiores transtornos no prosseguimento da competição – o primeiro jogo de 2004 pelas eliminatórias será em março. “Estamos conscientes de que não queremos passar o que passamos nas eliminatórias de 2002. Vamos garantir a classificação com antecedência”, garantiu o meia Alex.

Os problemas do Pinheirão

Além de sofrer com a inconstância da seleção brasileira, a torcida que foi ao Pinheirão na quarta teve que enfrentar vários problemas, típicos de um local preparado às pressas para o mais importante jogo do ano em Curitiba. E era inevitável que transtornos acontecessem, mas só não se esperava que fossem tantos.

Até quem estava nos lugares mais nobres do estádio penou. Alguns convidados da Tribuna de Honra (onde estava o governador Roberto Requião) foram destratados por seguranças – um chegou a exigir a saída de uma autoridade do local. Com lugares numerados, não haveria como obrigar ninguém a trocar de lugar, mas o segurança contratado pela Federação Paranaense (eram duzentos) tentou o máximo que pôde.

Outros convidados viram a cena e conseguiram evitar que a confusão aumentasse. Mesmo assim, houve reclamações, e a Polícia Militar abriu sindicância para apurar os responsáveis (o segurança teria afirmado que “recebera ordens” para tirar as pessoas que estavam nas pontas das filas). O resultado dessa sindicância deve ser conhecido ainda hoje.

Enquanto isso, os torcedores tentavam achar água no Pinheirão. Antes das 20h, os banheiros já estavam “secos”, dificultando a vida de todo mundo. A imprensa também sofreu, já que apenas um banheiro foi disponibilizado para os jornalistas que estavam no estádio. Para completar – e em uma terrível coincidência-, a cabine da TV Globo estava com o teto caindo. “Curitiba tem o melhor estádio do país, que é a Arena da Baixada, o Couto Pereira que também é um bom campo, e o jogo vem parar no Pinheirão”, disse o narrador Galvão Bueno, no início da transmissão para todo o Brasil.

O resultado dos problemas foram as reclamações que o Procon recebeu ontem. Alguns torcedores chegaram a ir à Federação Paranaense, e segundo o superintendente Johelson Pissaia a entidade vai atender a todos. “Nós pedimos desculpas pelos contratempos, e estamos à disposição para ouvir todos que querem fazer alguma reclamação”, afirmou.

Polícia prende 28 pessoas no jogo da seleção

A Polícia Militar considerou tranqüilo o comportamento dos torcedores antes, durante e depois do jogo da seleção brasileira diante do Uruguai, pelas eliminatórias da Copa do Mundo, na última quarta-feira, no Estádio do Pinheirão, em Curitiba. Nenhum incidente grave foi registrado. De acordo com o relatório da PM, 28 pessoas foram encaminhadas para a triagem, sendo que deste total oito acabaram sendo levadas para a Central de Polícia. O principal problema detectado foi a invasão do estádio, seguido pelo arremesso de objetos no campo e contra outros torcedores. Também foram efetuadas detenções de cambistas, de pessoas que estavam portando ingressos possivelmente falsos, de pessoas praticando atos obscenos e por desacato.

Segundo o comandante da operação, tenente coronel Mauro Pirolo, a Polícia Militar se preparou para garantir a segurança de todos e a operação saiu conforme o planejado. Foram utilizados 664 policiais, 74 viaturas, 6 cães e 65 cavalos. A operação, que começou na manhã de quarta, se estendeu até as 3h da manhã de ontem, com a saída dos torcedores do estádio.