João de Noronha
No cargo há 22 anos, Onaireves Moura é réu em três processos
e a Justiça Desportiva
está determinada a derrubá-lo
de uma vez por todas.

A história do futebol paranaense pode sofrer uma importante guinada a partir de hoje. O controvertido dirigente, que desde 1985 comanda a federação local, corre o risco de ser condenado a mais de 10 anos de suspensão por uma série de irregularidades detectadas pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva, corte máxima do esporte no País.

continua após a publicidade

Nem mesmo nas duas vezes em que foi preso sob acusação de sonegação fiscal, em 2000, e falsidade ideológica, sonegação fiscal e formação de quadrilha, em 2006, Onaireves Moura viu-se tão frágil politicamente. O último grande trunfo que mantinha foi por água abaixo com a tentativa frustrada de emplacar o novo Pinheirão na Copa do Mundo de 2014 – Ricardo Teixeira, que rejeita vincular a figura de Moura ao Mundial, respirou aliviado com a escolha da Kyocera Arena. Desesperado, o presidente da FPF pediu licença e atirou pesado contra o principal dirigente do Atlético, Mário Celso Petraglia, e contra o articulador das denúncias no STJD, Paulo Schmitt.

Para piorar, o Campeonato Paranaense tem sido um fracasso, antigos aliados se afastaram, os salários dos funcionários da FPF atrasaram, clubes como o Rio Branco são prejudicados por extravio de documentos, dívidas se acumulam como IPTU e Previdência Social, e a Prefeitura de Curitiba pretende retomar na Justiça a área ?grilada? do Pinheirão. O STJD ainda avalia outro pesado dossiê com diversas acusações contra Moura, remetido pelo inimigo político e ex-diretor da FPF, Hélio Cury.

Assim, Moura se antecipa e promete abandonar a presidência da FPF em 60 dias, assim que for concluída uma auditoria encomendada por ele próprio. O resultado da auditoria e o pedido de licença não influem numa eventual punição. Desta vez os dias de Moura no futebol parecem, de fato, contados.

continua após a publicidade

Cerco se fecha pra Onaireves Moura

O reinado de Onaireves Moura na Federação Paranaense de Futebol (FPF) pode ruir hoje. Um arsenal de denúncias levantadas em um mês de investigações ameaçam destronar o cartola que há 22 anos comanda a entidade gerenciadora do futebol local. E o Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) parece mesmo disposto a derrubá-lo do posto.

continua após a publicidade

Moura é réu em três processos distintos, que serão julgados a partir das 18h de hoje pela 3.ª Comissão Disciplinar. Após a colheita de dados por parte do procurador Marcelo Jucá, responsável pelo inquérito, a procuradoria do STJD o denunciou pela infração de quatro artigos do Código Brasileiro de Justiça Desportiva. O total das penas pode chegar a 11 anos e meio de suspensão, implicando no impedimento de exercer qualquer cargo diretivo em entidade de administração do esporte.

Entre as acusações estão o desvio de 2,5% das rendas das partidas de competições nacionais para a empresa Comfiar, ligada a Moura, num total estimado em R$ 1,5 milhão, e a sonegação da taxa de 1% das rendas que por lei deve ser repassada à Associações de Atletas Profissionais (FAAP) – neste caso, o valor ?desaparecido? é de R$ 1 milhão. Sobre a Comfiar, Moura disse que a empresa é fiscalizada e presta conta mensalmente aos filiados da FPF.

O dirigente também será julgado por manifestação desrespeitosa, por causa de charge publicada no site da FPF em que o STJD dá uma ?tapetada? no leão simbolizando o Rio Branco de Paranaguá, e por prevaricação (omissão), no caso do contrato do jogador Paulo Massaro, do Rio Branco de Paranaguá, que jamais chegou à CBF.

Além de Moura, serão julgados cinco subordinados (Laércio Polanski, Cirus Itiberê da Cunha, Marco Aurélio Rodrigues, Carlos Roberto de Oliveira e Rui Ribeiro de Barros), todos sujeitos a penas que variam de 60 dias a quatro anos de suspensão.

O resultado ainda poderá ser contestado pela procuradoria ou pela defesa de Moura e dos envolvidos. O caso então seguirá ao pleno do STJD, última instância desportiva. ?Se a punição não for adequada, a procuradoria pretende recorrer. A intenção do tribunal é resgatar a moralidade no futebol paranaense. Mas não há sentimento de paixão sobre este caso, apesar dos ataques pessoais?, disse o procurador-geral do STJD, Paulo Schmitt, acusado na semana passada por Moura de ter sido exonerado da Paraná Esporte por corrupção. O procurador nega, afirmando que a própria autarquia negou oficialmente a informação.

Schmitt não descarta a possibilidade de uma ?intervenção branca? na FPF, com destituição de toda a diretoria.

Auditoria pra entregar FPF ?limpa?

Julio Tarnowski Jr.

Não foi uma reunião bombástica ou polêmica, mas o arbitral realizado ontem, na FPF apresentou situações distintas e curiosas. A primeira com respeito à fórmula e início do Campeonato Estadual de 2008, aprovada em quase sua maioria -matéria nesta página. A segunda referente ao pedido do Coritiba, já encaminhado no início de abril, para a cessão por 100 anos do local onde hoje se encontra o Estádio do Pinheirão.

Porém, foi a terceira posição, e talvez a mais enigmática, a que pode apontar novos rumos para o futebol paranaense. Após reassumir a função, delegada na última sexta-feira ao seu vice, Jorge Dib Sobrinho, Onaireves Moura por cinco horas presidiu o arbitral – antes aconteceu o arbitral da Taça Paraná, e depois novamente se licenciou da presidência da federação.

O dirigente, que hoje será julgado no STJD, no Rio de Janeiro, e poderá pegar um gancho de até 11 anos, mostrava-se tranqüilo com o seu futuro.

?Independente do que aconteça amanhã (hoje) no Rio de Janeiro, deixarei a federação daqui a 60 dias. Você não acredita em mim??, questionou o dirigente. Moura aproveitou para lembrar de uma entrevista recente dada à Rádio Banda B, ?quando até o Sicupira – comentarista esportivo, chegou a cair da cadeira?. ?Disse naquela ocasião que sairia quando quisesse. Pois chegou a hora, já tenho a minha decisão. Vou pescar e cuidar dos meus netos?. Moura tem mandato até abril de 2008. O prazo de 60 dias, segundo ele, seria para que a empresa de auditoria, que está sendo contratada pela FPF, faça o balanço de todas as contas e apresente numa assembléia-geral. Nesse período a federação será dirigida por Aluízio José Ferreira, vice-presidente ligado às ligas de Ponta Grossa e Região Metropolitana de Curitiba.

?Tenho que ser ético quanto a isso. Me licencio para deixar livre o trabalho da auditoria. Aliás, é o que deveriam fazer o senador Renan Calheiros – presidente do Senado que está sendo acusado de facilitar obras para uma empreiteira que pagava sua contas pessoais, e o Mário Celso (Petraglia) -presidente do Conselho Deliberativo do Atlético, novo alvo dos contra-ataques de Moura?.

Ele apresentou um rápido balanço de sua gestão, quando disse que ?seria julgado num só dia em três processos?. ?Não tive nem tempo de preparar a minha defesa. Fui notificado às 18h40 da sexta-feira. Mas estou tranqüilo naquilo que irei apresentar?. Moura garantiu, antes de iniciar o arbitral, que não havia procurado ninguém junto à CBF para ajudá-lo.

Após a apresentação da única proposta sobre o próximo Campeonato Estadual, Moura aproveitou para falar um pouco sobre a intenção de bancar o Pinheirão como uma das subsedes da Copa – descartada com a indicação oficial por parte do governo do Estado pelo Joaquim Américo, a Baixada, de propriedade do Atlético. O dirigente convidou o arquiteto Walney Fiúza para expor o ?trabalho feito nos últimos oito meses?, e depois apresentou um vídeo de 10 minutos sobre o que seria o novo local com vistas à Copa do Mundo de 2014, denominado de ?Estádio de Curitiba?.

?Eu tinha um sonho. Quando você sonha sozinho, é só um sonho. Quando esse sonho é conjunto, ele passa a se transformar em realidade. Se alguém quiser encampar tudo isso, pode pegar?, disse Moura colocando em discussão aos presidentes e representantes dos clubes da 1.ª Divisão outro problema: o que será feito do Pinheirão?

Implosão do Pinheirão

Se depender do Coritiba, o Pinheirão já tem destino. Será implodido pra construção de uma nova praça esportiva, ?a mais moderna do Sul do País?. Quem garante essa intenção é o presidente do Coritiba, Giovani Gionédis que reafirmou no arbitral de ontem a posição do clube em ter a ?cessão do local por 100 anos?. ?Já tinha encaminhado o pedido para a Federação no início de abril. Deixamos passar essas notícias de Copa do Mundo para voltar a insistir com a federação?, afirmou Gionédis solicitando que a entidade convoque uma assembléia-geral dos clubes nos próximos 30 dias para aprovar o pedido do Alviverde.

?Futebol se faz com dinheiro. Os senhores aqui sabem bem disso, e principalmente quem tem estádios para cuidar e administrar. Hoje a federação tem prejuízo com o Pinheirão, e nós que pagamos isso também, com as taxas cobradas?, disse Gionédis lembrando que a proposta de pedir a cessão do estádio foi aprovada nas reuniões do Conselho Deliberativo e da diretoria do Coritiba.

O presidente do Coxa disse que já estava buscando um local pra um novo e moderno estádio. ?Temos um investidor de nível nacional e internacional para nos ajudar nisso. E esse parceiro só irá investir nisso com um clube?, contou Gionédis explicando que após a aprovação da assembléia da FPF, firmaria um protocolo de intenções com a entidade, onde seria estipulado um percentual de ganhos para a federação e seus filiados. Além da praça esportiva, o novo local teria ainda lojas e outros tipos de serviços não especificados pelo dirigente.

A proposta foi rapidamente discutida pelos clubes presentes.

O presidente do Paraná Clube, José Carlos de Miranda disse ?que aprovava a idéia, desde que o Coritiba aceitasse em ceder o novo estádio para clássicos e jogos finais do seu clube?. Gionédis retrucou dizendo que ?o Coxa sempre atendeu aos pedidos do Paraná, e que se fosse novamente pedido com jeitinho…?

O representante do Atlético, o advogado Gil Justen Santana, perguntou qual seria o destino do Couto Pereira. Gionédis disse que isso ?dizia respeito somente à diretoria do Coritiba, e não ao Atlético?. Mas se a pergunta fosse do cidadão Gil Justen Filho, a resposta seria: ?isso é coisa para o futuro?. ?Vamos ter presidente competente para saber o que fazer com o Couto?.

Pontos corridos em 2008

Um campeonato com 22 datas, 16 clubes e pontos corridos. Na 1.ª fase – todos jogam contra todos em turno único. Passam à próxima etapa da competição os oito primeiros colocados.

Os quatro últimos caem para a Segunda Divisão. Na 2.ª fase, o octogonal será disputado sem a paralisação da contagem de pontos da 1.ª fase. Esta etapa final terá sete rodadas, sendo que todos jogam contra todos em turno único. Quem chegar na frente será o campeão.

O início da competição será dia 13 de janeiro.

Essa foi a fórmula apresentada e aprovada ontem no arbitral da Série Ouro para o Campeonato Estadual de 2008. A fórmula só não ganhou aceitação do Engenheiro Beltrão e J. Malucelli, que queriam a manutenção de16 clubes para a próxima temporada, e do Atlético que se absteve na votação. Participam do próximo Estadual o Iguaçu, Adap Galo, Atlético, Cascavel, Cianorte, Coritiba, Engenheiro Beltrão, Iraty, J. Malucelli, Londrina, Paranavaí, Paraná Clube, Portuguesa Londrinense, Rio Branco, além do campeão e o vice da Divisão de Acesso 2007.

Moura também apresentou os dois pedidos feitos para a transmissão pela televisão do Estadual, encaminhados pela RPC, filiada à Globo, e da RIC, filiada à Record. No dia

11 de junho será discutida a oferta da RPC. No dia 18 será a vez da RIC.

Neste ano, a transmissão foi da RPC, que pagou R$ 300 mil, e não R$ 1 milhão como foi publicado ontem pela Tribuna.

O Atlético foi o único clube que não aceitou a proposta e não deixou seus jogos serem televisionados.