A seleção brasileira de judô começa nesta quinta-feira (13) a disputar o Campeonato Mundial, no Rio, marcada pela miscigenação. O único campeão mundial brasileiro não é descendente de japonês, treina com uma filosofia européia, e a técnica da equipe feminina do Brasil tem um comportamento de fazer vexar um japonês. É uma nova era para esse esporte no País.

O campeão mundial é João Derly, porto-alegrense que treina na Sogipa, um clube fundado em sua cidade natal pela comunidade alemã. Não tem nada de japonês e treina sob métodos europeus de preparação em um País onde comumente se ouve dizer existir dois estilos muito definidos nesse esporte: o técnico, do Japão, e o de força, da Europa.

Com 66 kg, Derly realmente é muito forte e comumente busca as pernas do adversário, como os europeus, técnica que o ajudou a vencer a final do Mundial do Cairo, em 2005, contra o japonês Masato Uchishiba, campeão olímpico em 2004 e que provavelmente nunca tentou agarrar as pernas de um adversário para derrubá-lo, já que não é hábito entre japoneses, que preferem projetar o adversário lançando-o sobre o seu próprio corpo.

Inteligência

Além de buscar o bicampeonato, Derly poderá ter ao menos um companheiro na lista de brasileiros campeões mundiais, Tiago Camilo, um dos grandes talentos da história do judô brasileiro, que treinou por muito tempo de acordo com a filosofia japonesa e há um ano e meio, foi convidado para treinar na Sogipa.

"Na Sogipa nosso treino é mais parecido com a competição. Em São Paulo treinamos muito "handori" (treino de entrada de golpes), no Sul os treinos são em cima de objetivos, de pontos específicos que cada atleta precisa aperfeiçoar", disse Tiago Camilo.

Melhor? "O treino hoje é mais inteligente. Em São Paulo sempre treinamos muito. Hoje, começo a descansar duas semanas antes da competição." Para um japonês, se 15 dias antes da competição não estiver dando seu máximo em treinos, sentiria um profundo sentimento de culpa.

Trata-se de algo inimaginável para muitos, mas foi trabalhando assim que Derly trouxe para o Brasil o primeiro título mundial e que, agora, Camilo buscará o seu.

"Machuquei pouco nesse período na Sogipa e por isso consegui manter o ritmo de treino desde o último Mundial, em 2005. Conheço quase todos na minha categoria, mas se vou conseguir medalha vai depender de como me sentir.

Tiago Camilo luta amanhã, na categoria até 81 kg, e João Derly, no sábado.

Liberdades

Ao conquistar a medalha de ouro dos Jogos Pan-Americanos de Winnipeg, a brasileira Vânia Ishii acabou expondo o choque cultural que envolve o judô no País: eufórica com sua conquista, comemorou saltando no tatame, para vergonha de seu pai, Chiaki Ishii, o japonês que se naturalizou brasileiro para trazer para cá a primeira medalha de um Mundial, o bronze, em 1972

Para ele, o desrespeito à adversária demonstrado com a efusiva comemoração apagou o brilho da vitória. É uma questão cultural. Hoje, a técnica da seleção brasileira feminina, Rosicléia Campos faz o mesmo a cada luta de suas atletas, para desespero das comissões organizadoras. No Pan a ameaçaram de expulsão se não se mantivesse sentada na cadeira. E ela começou a pular agarrada à cadeira e olhando para os lados para certificar-se de que ninguém estava caminhando em sua direção para repreendê-la.

"É para motivar a atleta. Não critico a arbitragem, respeito sempre a adversária, mas há atletas que até pedem para eu gritar porque há lapsos concentração. Mas no Pan não tinha consciência de que eu estava pulando daquele jeito. Depois vi e achei ridículo", disse ela.

"Minha escola técnica é a japonesa. Sempre fui tímida, contida. Até (a Olimpíada de) Barcelona (como atleta), ninguém ouvia a minha voz, eu não trocava de roupa na frente dos outros. Meu relacionamento com o (bicampeão olímpico e tricampeão mundial no atletismo) Robson Caetano me deixou mais alegre. Eu me transformei, sou outra pessoa.

Atualmente, eles não estão mais juntos, mas a mudança é irreversível e está mudando também a seleção feminina. Semana passada, em São Paulo, após mais um treino realmente duro, três atletas cercaram a treinadora e começaram a puxá-la para os lados. "Estão querendo me derrubar? Não é fácil me derrubar, não", provocou ela ao invés de repreendê-las. Evidentemente, após oferecer o desafio, foi derrubada pelas três em segundos. Inimaginável isso acontecer dentro da escola japonesa.

"Não vejo isso como falta de respeito, mas como brincadeira. Eu treinava com elas antes de ser técnica. Mas nos damos o direito de treinar com liberdade. Não sou a sensei (professora), sou a companheira.

Contam a história que o japonês Jigoro Kano criou o judô ao observar neve caindo sobre galhos de árvores. Os mais rígidos quebravam com o peso, enquanto os mais flexíveis se curvavam e permaneciam inteiros, enquanto a neve escorregava por ele para o chão. Para a equipe feminina, que teve no Pan do Rio melhor desempenho do que a masculina, a flexibilidade de Rosicléia parece estar funcionando bem. O Mundial que começa hoje vai mostrar o que a miscigenação está fazendo pela eficiência do judô do Brasil.