Há dois anos, Maya Gabeira quase morreu ao cair da prancha em uma onda gigante na praia do Norte em Nazaré (Portugal). Agora ela está de volta ao local para encarar de frente seus medos e traumas. “Durante todo este tempo, desde 2013, tenho me preparado para estar aqui, pronta, para surfar uma onda, que pode ser a onda da minha vida. Eu acredito que estou bastante preparada”, diz a garota.

As imagens do acidente rodaram o mundo naquele 28 de outubro de 2013. Maya pegou aquela que seria a maior onda de sua vida, mas, ao cair da prancha, começou a tomar uma série de ondas na cabeça. Carlos Burle, também surfista de ondas grandes, pegou o jet ski para fazer o resgate, mas tinha dificuldade em se aproximar da amiga. Então ele saltou da moto aquática e carregou Maya, já desacordada, até a areia da praia

As cenas foram chocantes. A surfista foi levada de ambulância para o hospital e teve apenas um tornozelo quebrado. A partir daí, passou a ver aquele local de outra forma e entender suas limitações. “Acho que aprendi a me conhecer um pouco mais. Tenho conseguido compreender melhor o meu corpo e os meus limites, coisa que há dois anos era bem diferente. E, consequentemente, tenho cuidado mais de mim mesma, tanto física, quanto emocionalmente.”

Desde que chegou a Nazaré, junto com Burle e Pedro Scooby, Maya tem aproveitado para pegar ondas na praia do Norte. De outubro até fevereiro são os meses que costumam ter grandes ondas na região, sendo que este mês é o mais indicado, mas até agora a previsão ainda não se confirmou.

“Não tenho criado muitas expectativas e, por enquanto, está sendo como eu pensava. Em 2013, gostei muito de vir a Portugal, que é um país que eu ainda não conhecia, e fiquei encantada pela receptividade de todos. Nesta volta a Nazaré não tem sido diferente. Claro que quando aparecer uma ondulação grande, tudo vai mudar, mas, agora, estou tranquila.”

Quando ela fala em ondulação grande, significa ondas maiores que 20 metros. Em 2011, Garrett McNamara pegou uma onda de 24 metros, homologada como recorde mundial. No mesmo dia do acidente de Maya, Burle pegou uma onda que tinha entre 32m e 35m, segundo estudo científico de Miguel Moreira, professor da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa, mas o recorde não foi oficializado e isso causou polêmica.

Os surfistas sabem que julgar o tamanho de uma onda é subjetivo, e os próprios critérios para medir não são muito claros. Mas uma certeza eles têm: grandes ondas se formam em Nazaré por causa do relevo submarino único. Um cânion submerso termina a 500 metros da costa e proporciona grandes ondas no local. Isso tem atraído centenas de corajosos atletas e milhares de turistas todos os anos.

Para os próximos dias, a previsão não é tão animadora, mas Maya sabe que as grandes ondas vão aparecer em breve. “Ainda não temos nada em vista. Eu e o Burle temos acompanhado as previsões pela internet, mas ainda não apareceu nenhuma possibilidade de ondas grandes, com cerca de 15 metros. Por um lado, está sendo bom, pois temos conseguido treinar bastante nesta onda, que é uma das mais complexas e difíceis do mundo”, explica Maya.

Para superar o trauma do acidente, a surfista pensou em todos os detalhes para não ser surpreendida novamente em Nazaré. Ela explica que o tow-in é um esporte de equipe. Nele, o atleta é rebocado por um jet ski, para ganhar velocidade para entrar nas ondas grandes. “Eu não surfo sem depender do Burle e vice-versa. Mas não é só ele. Existe toda uma estrutura que foi fundamental para me ajudar a conseguir estar de volta aqui na Praia do Norte”, diz.

Maya aponta fisioterapeutas, psicólogo, treinador de natação, personal trainer e diz que todos foram importantes nesse processo. “Além disso, estamos com uma estrutura de segurança melhor que há dois anos. Além do Burle, teremos um jet ski focado só no resgate, que será pilotado pelo Alemão, de Maresias, que é um dos big riders mais experientes do Brasil e, com certeza, vai ajudar muito.”