São Paulo – O futuro de Jade Barbosa, de 14 anos, é incerto. Para ainda ter chance de ganhar destaque na ginástica olímpica competitiva, terá de deixar a escola, a família, o Rio, o Flamengo e se mudar para Curitiba, onde está o Centro de Treinamento da Confederação Brasileira de Ginástica (CBG). O Flamengo já tem agora aparelhos novos – comprados e doados ao clube pela Prefeitura do Rio. Mas não tem a infra-estrutura e a mão-de-obra necessárias (nutricionista, professora de balé, treinadores, psicólogo, plano de saúde, etc.) para formar uma campeã. A CBG fará uma seletiva, em Curitiba, com meninas de todo o País, para selecionar atletas para a seleção.

A técnica de Jade, Viviane Cardoso, está grávida e terá de se afastar por algum tempo este ano, e o Flamengo ainda não se reestruturou desde que demitiu Georgette Vidor e desmontou a equipe de ginástica olímpica, situação que preocupa César Barbosa, pai de Jade. A ginasta também faz o duplo twist, o famoso salto de Daiane dos Santos, e é considerada um talento a ser trabalhado.

"O próprio coordenador do clube me disse que o lugar dela é em Curitiba. Mas fiz matrícula na escola no Rio, gastei em livros… A Jade não tem mãe, eu e o irmão dela, o Pedro, de 7 anos, está na ginástica desde os cinco anos e queríamos que ela ficasse aqui pelo menos mais um ano, mas a Vivi engravidou, não poderá mais dar treino e o Flamengo não tem técnico", resumiu César. O pai chega a ficar revoltado, achando que o Centro de Treinamento de Curitiba está, inclusive, desestimulando a formação de atletas em clubes.

A deputada Georgette Vidor, técnica de Danielle Hypólito que foi demitida do Flamengo no ano passado, contratou agora Ana Paula Luck, que também foi dispensada pelo clube. Juntamente com a ex-ginasta Luiza Parente, Ana Paula trabalhará com Georgette em uma academia do empresário Alexandre Acioli, que será inaugurada na Barra da Tijuca. "Uma das professoras que o Flamengo trouxe agora queria reduzir de seis para duas horas a carga de treino. Se ela tem esse método tem de ensinar para o mundo. Os pais percebem que algo está errado e não gostam", afirmou Georgette.

O clube tem dificuldade para contratar técnicos por causa dos constantes atrasos de salários. Treinadores competentes, como Roger Medina, passaram por lá e não permaneceram. "A Georgette pagava o salário dele e quando ele recebia do clube devolvia", contou César. Mesmo para trazer um estrangeiro o clube pode ter dificuldades, segundo avalia Georgette, porque os técnicos não confiam que receberão seus salários em dia.

"Lutei como uma louca para ter os aparelhos no clube porque a ginástica olímpica é minha vida. Mas o pilar para se ter uma modalidade competitiva é ter equipamentos, bons técnicos e bons ginastas", afirmou Georgette. Hoje, uma ginasta que se destaca no Rio tem de ir para Curitiba? "Infelizmente sim, a Jade tem de pegar a malinha, se mandar e treinar como nunca treinou na vida dela. Ela tem talento, mas isso pode não ser suficiente se não suportar treinamento forte e não controlar a alimentação", completou Georgette.

O diretor do Flamengo, Roberto Santos, explicou que o clube fez mudanças na ginástica por uma questão orçamentária e planeja contratar um técnico estrangeiro, possivelmente europeu, mas não no primeiro semestre deste ano. "Temos o projeto de ter um segundo Centro de Excelência em Ginástica no Flamengo, com toda a infra-estrutura, agora que os equipamentos estão no clube", ressaltou. Mas admitiu que, no momento, se ficar, "a Jade será prejudicada" e que orientou César, o pai da atleta, a mandá-la para Curitiba. "É um erro da parte dele querer que ela fique porque a seleção permanente está lá. Se fosse no masculino eu poderia orientar diferente porque tenho o melhor técnico do País."

Disse que o clube tem novos técnicos – citou Alexandre Arruda e Patrícia Arruda -, mas ainda está em fase de reestruturação da ginástica depois de receber os equipamentos.