Daniel Derevecki
Empresário recruta garotos do Nordeste pra tentar a sorte no Amador em Curitiba.

Fama, muito dinheiro na conta bancária, mansões, carros de luxo e mulheres bonitas, aos montes. Este é o sonho da maioria dos jovens que querem fazer do futebol sua profissão. Em busca disso, fazem ?qualquer? negócio, até se sujeitar a passar certas necessidades. No último domingo, policiais militares do 20.º Batalhão registraram um boletim de ocorrência de maus-tratos e trabalho escravo, pelo qual cerca de 22 jovens estariam passando, no Uberaba. Eles foram trazidos a Curitiba por um empresário da categoria de base do futebol paranaense, com a promessa de treinamentos e possibilidade de ingressar em grandes times.

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Os 22 jovens, de 16 a 20 anos, entre eles quatro adolescentes, vieram quase todos do Nordeste, principalmente dos estados de Sergipe e Bahia. Em Curitiba, estão mal-alojados num sobrado da Rua Oswaldo Bond, no Uberaba, sob a responsabilidade do ?dono? do time do Vila Hauer, Edson Orizzi. Lá, a Tribuna constatou um sobrado apertado, com as paredes sujas e emboloradas; colchões velhos empilhados pelos três quartos, sala e cozinha do imóvel; falta de móveis; apenas um banheiro funcionando – e malcheiroso pela falta de produtos e material de limpeza -; alimentação pouco balanceada; ambientes escuros pela falta de lâmpadas, enfim, condições que até mesmo os policiais que foram constatar a ocorrência consideraram subhumanas.

Alguns dos garotos, revelou o soldado Muller, do 20.º Batalhão, pareciam ter sido pressionados para não falar nada. Outros se mostraram temerosos em perder o pouco que tinham, pois seus objetivos maiores eram continuar tentando a carreira de jogador.

Alimentação minguada compromete

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Conselho Tutelar foi chamado pra verificar o problema.
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A maior reclamação dos jovens era devido à comida, que não possui os nutrientes necessários para um atleta. ?Em geral, temos arroz, feijão e macarrão. Carne, nem sempre tem. Leite, quando queremos, nós é que compramos para tomar no café. Olha aqui o pão, quando tem é assim, seco e velho. Fruta e verdura, nem sinal. Já passamos semanas sem azeite e outras coisas. O energético que ele nos dá é leite misturado com sal. Nossa alimentação não é adequada para um atleta?, mostrou um dos jovens, de 18 anos. No último sábado, eles teriam perdido um jogo amistoso, e por isso tiveram boa parte da comida cortada.

A maioria dos rapazes de família pobre, que não tem condições de mandar dinheiro para o sustento deles. ?Quem tem dinheiro ainda compra coisas para melhorar a alimentação e produtos de higiene. Quem não tem passa necessidade?, contou outro jovem que também pediu para não ser identificado, temendo pressões.

Daniel Derevecki
Empresário leva jogadores também pra disputar a Copa São Paulo de Juniores.
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Os atletas também revelaram que chegam cansados dos treinos e são obrigados a cozinhar e fazer a limpeza do local onde estão morando. Quando não podem fazer a comida, contratam uma cozinheira e cada um desembolsa R$ 9 por dia para pagá-la. ?Os colchões são velhos e ruins e dão dor nas costas, prejudicando o treino?, afirmam os garotos.

Trabalho

Alguns rapazes revelaram que, toda semana, são levados à indústria de panificação de Edson, para trabalhar de graça. No horário de folga, dizem que querem estudar, mas o empresário não estaria lhes ajudando a arranjar uma escola. Alguns freqüentam igrejas próximas, e esse é o máximo que podem fazer fora do horário de treino.

Sul é vitrine pra quem veio de pau-de-arara

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Edi Castilho, do Conselho Tutelar, questiona a ação do empresário.

O Sul, dizem os garotos, é uma espécie de ?vitrine?. Jogando aqui, a possibilidade de serem vistos por times grandes é maior. Eles vieram porque treinadores de suas cidades, em contato com o empresário do Vila Hauer, souberam da oportunidade e contaram aos jovens. No entanto, não sabiam que a oportunidade seria nessas condições.

Os rapazes vieram com ajuda financeira de amigos e familiares, para pagar a passagem de cerca de R$ 800 a Curitiba. Alguns são recém-chegados ao sobrado no Uberaba. Outros estão lá há um ano e já chegaram a se apertar em até 25 pessoas no imóvel, que não possui mais que 120 metros quadrados. Todos vieram iludidos com promessas de salário, trabalho, alojamento e alimentação. Chegaram embalados pelo sonho de começar a jogar nos times do Sul, circular o País e terminarem a carreira ricos no futebol europeu.

As famílias, disseram alguns, sabem da situação que estão passando, mas não têm dinheiro para as despesas extras ou pagar a passagem de volta. Outros não querem que as famílias saibam, por medo que os mandem voltar e percam a chance da carreira de jogador. Um dos jovens, de 18 anos, diz que já foi chamado para treinos no Atlético Paranaense e no Grêmio, mas o empresário do Vila Hauer teria dificultado tanto a negociação, que os times desistiram de levá-lo.

Responsável em trazer os atletas pro Vila Hauer diz que faz ação social

Daniel Derevecki
Jogadores dormem em colchões amontoados no chão.

Edson Orizzi, do time do Vila Hauer e responsável pelos garotos, rebateu as acusações. Ele diz que boa parte da má conservação do sobrado é responsabilidade dos próprios jovens, que sujaram e quebraram algumas regalias que tinham, como computador e televisão. Também negou que os jovens estivessem com má alimentação. Ele considera a comida boa, suficiente e com nutrientes. ?Não é verdade que eles passam com pão seco e velho. Tenho uma indústria de panificação e todos os dias pela manhã mando 50 pães a eles?, revelou.

Em alguns dias, revelou Edson, o sobrado, que já está sendo pintado, ganhará beliches. Ele disse que os jovens não pagam por cozinheira, porque ele colocou uma mulher à disposição dos jovens para cozinhar. Também negou acusações de trabalho escravo em sua indústria. ?Quando eles vão lá é porque querem comer salgadinhos?, afirmou. Edival Rodrigues, treinador dos garotos, concordou com as afirmações do empresário. No entanto, deixou escapar que, daqui por diante, frutas e verduras serão incluídas à vontade no cardápio dos jovens.

Futuro

Edival contou que nesta leva de garotos há muitos talentosos. Eles sempre são levados a amistosos com times grandes, para que possam ser vistos. Há até um empresário de Portugal interessado num dos jovens. Edson contou que leva o Vila Hauer a vários testes. ?Alguns clubes, por exemplo, cobram R$ 300 pelo teste. Não cobro nada dos garotos. Ano passado, por exemplo, fomos o único time do Paraná a disputar a Taça São Paulo. Desembolsei R$ 18 mil para que eles participassem do campeonato e não cobrei nem um tostão de volta, dinheiro que vem todo da minha fábrica. É um trabalho social que fazemos com os jovens, e que vem dando resultados. Já mandamos uns 12 atletas para times de fora, até outros países. O último que ?emplacou? foi para o São Caetano. Eles não possuem contrato conosco, são livres para subir na carreira?, finalizou Edson.

Conselho Tutelar procura familiares dos atletas

Daniel Derevecki
Condições de higiene são ruins.

Enquanto a Tribuna estava no sobrado, conversando com os atletas, o Conselho Tutelar esteve no local. Edi Castilho, conselheira do Cajuru, explicou que os quatro adolescentes foram levados ao Conselho, para que suas famílias fossem localizadas em Aracaju, no Sergipe. Apesar de estarem em Curitiba com a ciência dos pais, todos estavam irregulares, sem autorizações formais do Juizado de Menores do estado. ?Veja a irresponsabilidade dos pais, de mandar seus filhos para se aventurar dessa forma, num local que não conhecem e não sabem as condições que terão para viver?, mostrou a conselheira.

Edi explicou que os pais já estão providenciando a documentação e todos preferem que os filhos permaneçam aqui. Alguns estariam em situações de risco em sua cidade natal, e aqui, correndo atrás de um sonho, tinham a esperança de largar o vício. O Conselho, que continuará acompanhando os adolescentes, está concluindo um relatório sobre o caso para encaminhá-lo à apreciação do Ministério Público.

Vila Hauer desconhece o empresário

Julio Tarnowski Jr.

O presidente do Vila Hauer Esporte Clube, Vilson Luiz Dias, desconhece o nome Edson Orizzi sendo dirigente do time, como tem se intitulado o empresário que traz atletas do Nordeste para disputar competições amadoras em Curitiba. ?Temos somente três categorias: juniores, adulto e o ?quarentinha/ cinquentinha?. Ninguém está autorizado a falar em nome do Vila Hauer sem conhecimento da diretoria?, afirmou por telefone à Tribuna o president  do Vila Hauer.

Sobre a confusão envolvendo jovens atletas que estariam passando necessidades, Vilson Luiz disse que ?ouviu falar sobre o assunto depois do último domingo?, e se mostrava preocupado com a situação. Ele porém confirmou que Edival Rodrigues, mais conhecido no clube como Val, é treinador dos juniores do Vila Hauer. ?Sei que ele trouxe alguns garotos para treinar e jogar no time. Mas a grande maioria dos garotos é do próprio bairro?, assegurou Vilson Luiz, lembrando que após os treinos – às 3.ª e 5.ª-feiras – e jogos, aos sábados, todos são atendidos pelo clube. ?Mas fora das portas do Vila Hauer não podemos nos responsabilizar pelo que acontece. Somos um clube amador?, justificou o presidente do clube.