Os jogadores italianos não dançam com índios, não visitam favelas, não jogam capoeira nem chamam a atenção disputando partidas de frescobol na praia sob os olhares de dezenas de pessoas. Na verdade, os jogadores italianos não saem do hotel e não têm contato com ninguém de fora da delegação. A ordem da comissão técnica é evitar polêmicas que possam desconcentrar o elenco ou conturbar o ambiente de uma seleção que trabalha duro para sobreviver ao “grupo da morte” e não repetir o fiasco de 2010, quando a equipe nacional caiu na primeira fase.

A obsessão dos italianos por privacidade é tão grande que, a pedido deles, foram colocados tapumes nas grades de uma ponte em frente ao hotel para evitar que da estrada (a Rio-Santos) se possa ver os jogadores no campo. E atrás do gol que dá para a rodovia foram postas em toda a extensão do alambrado faixas com o símbolo da Federação Italiana de Futebol. Assim, nem os funcionários que ficam na portaria controlando a entrada de carros veem o gramado.

Os jornalistas também não conseguem ver grande coisa, porque apenas meio treino é aberto. Pode-se acompanhar a primeira hora da atividade da manhã, e depois todos têm de se retirar. Vê-se o aquecimento e a roda de bobinho, e o trabalho tático só começa quando a imprensa vai embora. E o treino da tarde é sempre fechado.

O fato de a equipe estar concentrada numa cidade isolada não é casual. Ano passado, durante a Copa das Confederações, os jogadores atraíam sempre muitos jornalistas quando iam a um shopping, ao Corcovado ou jogar futevôlei na praia. Em Mangaratiba não há para onde ir, e o máximo que eles fazem é frequentar o trecho de praia em frente ao hotel – cujo acesso é restrito aos hóspedes. Não há torcedores por perto, e no tempo livre os jogadores convivem com suas mulheres e filhos.

Uma preocupação da comissão técnica é com o estrago que um comentário inoportuno numa rede social pode provocar. Por isso, quando o grupo se reuniu no CT de Coverciano (perto de Florença) há quase 20 dias, o técnico Cesare Prandelli estabeleceu algumas normas para a utilização de Twitter, Instagram e Facebook: não falar dos adversários, não falar das suas decisões e não falar do dia a dia de treinos e conversas. Em resumo, só comentar amenidades.

O temor dos italianos é que Balotelli, que não para de postar mensagens e fotos nas redes sociais, crie algum embaraço para a delegação. Por enquanto ele está mantendo a linha, e o máximo que fez foi anunciar pelo Instagram, na madrugada de terça-feira, que havia pedido a namorada, Fanny Neguesha, em casamento e ela havia aceitado.

Quando a notícia explodiu, na terça-feira pela manhã, foi um alvoroço entre os jornalistas italianos. Diante da monotonia que cerca a seleção, um anúncio como esse feito pelo jogador mais carismático do elenco até parece importante.