Rio (AE) – A construção de dez estádios modernos e o investimento maciço em transportes, segurança e telecomunicações separam a pretensão da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) de trazer para o país a Copa do Mundo de 2014. No rastro do encontro no meio de semana, em Brasília, entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva, o da Fifa, Joseph Blatter, e o da CBF, Ricardo Teixeira, a reportagem ouviu sociólogos, economistas e esportistas sobre a viabilidade da realização de um novo mundial no Brasil – o primeiro foi em 1950.

O tema é polêmico e não existe consenso. Há quem defenda, por exemplo, a divisão da Copa entre Brasil e Argentina, reeditando assim a parceria de Coréia do Sul e Japão em 2002. ?Um mundial compartilhado reduziria os altos custos. Juntos, os dois países poderiam aproveitar o evento para ampliar no campo social a integração iniciada na área econômica, com a criação do Mercosul?, diz o sociólogo Marco Fonseca, radicado nos Estados Unidos e autor de um estudo sobre o impacto da Copa de 1994 naquele país.

?As cidades norte-americanas que receberam os jogos acumularam perdas de cinco a nove bilhões de dólares, contra cerca de quatro bilhões previstos como receita derivada da Copa?, afirma Fonseca. Segundo ele, uma previsão ?muito preliminar? dos investimentos no Brasil para ser sede do mundial giraria em torno de US$ 6 bilhões.

A idéia de ceder metade da festa para os argentinos é rechaçada pela CBF. Teixeira nem admite falar sobre a hipótese. Ele conta com um documento formal de apoio à candidatura do Brasil assinado pelos dirigentes de todas as federações sul-americanas. Nos últimos meses, porém, Colômbia, Chile e a própria Argentina deram sinais de que podem desconsiderar o compromisso.

O ex-craque Sócrates é a favor da Copa de 2014 no Brasil. Isso não significa que acredita no projeto. ?Um mundial implica em parcerias com empresas sérias e homens respeitados. Mas o futebol brasileiro está entregue aos espertos. Como conseguir captar recursos com as pessoas erradas, sem credibilidade? Eu, como empresário, não investiria.? Sócrates teme pela falta de transparência na discussão e na execução das obras. ?Muita coisa ia ser desviada.?

Algumas ressalvas também são feitas pelo sociológo Maurício Murad, professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) e da Universidade Salgado Oliveira (Universo). Ele cita a violência e ?a histórica lentidão institucional do país, a burocracia e a corrupção estrutural e crescente nos últimos anos? como fatores que podem dificultar a realização da Copa de 2014 no Brasil. No entanto, prevê uma mobilização coletiva, motivada pela forte relação cultural do país com o futebol, capaz de atrair os investidores.

Além disso, Murad associa o apoio da Fifa ao aporte financeiro sempre presente das marcas que bancam a Copa do Mundo. ?Considerando tudo, devemos aproveitar a oportunidade e realizar a Copa no Brasil, por que se o esforço é imenso, o retorno será ainda maior.?

Da Turquia, onde dirige o Fenerbahçe, Zico acompanha as notícias do futebol brasileiro pela internet e por contatos telefônicos. Soube da reunião de Lula com Blatter e Ricardo Teixeira e do convite da CBF para Pelé coordenar o comitê de apoio ao mundial de 2014 no Brasil. O ex-craque do Flamengo e da seleção defende, há anos, a adaptação do país ?a uma nova realidade, com estádios mais modernos para um público menor e que sejam capazes de proporcionar mais comodidade e segurança ao torcedor?. Ele diz que essa carência precisa ser solucionada o mais rápido possível sob o risco de comprometer os campeonatos internos. ?É uma situação séria e não deveria depender da candidatura do país a um mundial para ser resolvida.?