A cerveja quente é a mesma. O sanfoneiro também. Mas os amigos não estão mais presentes, nem as grandes personalidades. Como acontece a cada ano desde 1998, o presidente da Fifa, Joseph Blatter, realizou neste sábado um torneio de futebol em sua cidade natal, Ulrichen. Era a oportunidade para mostrar ao mundo que, pelo menos longe da Justiça de Nova Iorque e nos vales dos Alpes, ele ainda é uma unanimidade. Desta vez, porém, o homem sob ataque e que foi obrigado a renunciar, era apenas a sombra de si mesmo.

A 1,3 mil metro de altitude, Ulrichen serve como a base dos Blatters. O cartola conta até hoje que ele não foi o único Joseph Blatter na região. Por isso, decidiu inventar para si um novo nome: Sepp. Agora, com 79 anos, ele insiste em provar que a região jamais produziu alguém com tal poder como ele.

“Essa é a 18ª edição do evento. Começou quando eu virei presidente da Fifa. Trata-se de um grande torneio e que marca os 200 anos da região do Valais. Essa é a região onde meu avô nasceu e tenho ligação com aqui. Aqui tem tudo para a vida. Água, tranquilidade”, filosofou Blatter.

Entre os convidados, porém, a lista deste ano era muito diferente de edições passadas. Em 2013, por exemplo, Michel Platini viajou até o interior da Suíça para prestigiar o torneio. Em 2014, foi a vez de Franz Beckenbauer. Ser convidado ao evento era um sinal de prestígio pessoal para aqueles que trabalham com Blatter.

Na edição de 2015, porém, havia mais jornalistas que convidados. Nem Jérôme Valcke, secretário-geral da Fifa, viajou até o local, argumentando que estava com sua família na Itália. Blatter rapidamente encontrou argumentos para as ausências, apontando que outros eventos estavam ocorrendo pelo país e por isso Platini, seu inimigo hoje, não pode comparecer. Nem Beckenbauer.

Ainda assim, seus funcionários e organizadores locais insistiam em criar um ambiente de idolatria ao dirigente. Um deles caminhava ao seu lado com dezenas de cartões postais e canetas de várias cores, esperando que crianças e fãs pedissem um autógrafo. Alguns pequenos empresários locais chegaram a aparecer, entregando presentes da região, pedindo fotos e arrancando risadas do cartola.

Tentando falar português, Blatter adotou um ar sorridente ao ver a reportagem do Estado de S. Paulo. “Como vai?”, disse, estendendo uma mão levemente trêmula. “O sol é bonito”, declarou, levantando as mãos para o céu. “Quase o Brasil. Mas um pouco mais elevado.”

Um dos momentos mais esperados da festa foi quando as autoridades locais presentearam Blatter com uma vaca da região, com um sino pendurado no pescoço e discurso homenageando o suíço por tudo o que ele representa para o mundo. O nome do animal não deixou de gerar certos comentários: Colombo, como o inspetor americano.