O gabinete do governo do Egito suspendeu indefinidamente a liga nacional de futebol depois de pelos menos 22 torcedores terem sido mortos durante confrontos com a polícia do lado de fora de um estádio no Cairo. O episódio aconteceu três anos depois de o país testemunhar um dos piores tumultos da história do futebol.

O gabinete anunciou a suspensão na noite de domingo, depois de a polícia antidistúrbio ter entrado em confronto com centenas de torcedores e lançado gás lacrimogêneo para abrir caminho por um estreito corredor que dá acesso ao Estádio da Defesa Aérea, o que deu início a um corre-corre.

Em 2012, o Egito havia suspendido a liga depois de 74 torcedores terem morrido durante um tumulto ocorrido na cidade de Port Said, no Canal de Suez. A violência provocou indignação contra a polícia e com o então conselho transitório militar, por não fazer o suficiente para conter as mortes.

Apenas recentemente os torcedores tiveram permissão para voltar aos estádios, mas autoridades continuam a limitar o número de pessoas que podem entrar nesses locais.

A promotoria pública do Egito ordenou a abertura de uma investigação. A força policial, fortemente militarizada, já é alvo de atenção após o assassinato, a tiros, de uma manifestante desarmada no centro do Cairo, em janeiro.

Nesta segunda-feira, os meios de comunicação pró-governo e o Ministério do Interior, responsável pela polícia, procuraram desviar a responsabilidade das forças de segurança. Mortada Mansour, presidente do Zamalek, time que disputou o jogo contra o ENPPI no domingo, disse a uma emissora privada de televisão que a polícia não abriu fogo contra os torcedores, como foi amplamente relatado nas redes sociais, e que a violência de domingo foi “orquestrada” para frustrar as eleições parlamentares, que acontecerão em breve.

Mansour é um fiel partidário do presidente Abdel-Fattah el-Sissi, ex-chefe do Exército que liderou o golpe de Estado em 2013 que derrubou Mohammed Morsi, o primeiro presidente livremente eleito pelos egípcios.

Autoridades dizem que a violência teve início quando centenas de integrantes de uma torcida organizada do Zamalek, os Cavaleiros Brancos, tentaram entrar no estádio para ver a partida, sem ter ingressos.

Em sua página no Facebook, os Cavaleiros Brancos disseram que a violência teve início por que as autoridades abriram apenas uma porta estreita, com arame farpado, por onde deveriam passar. Segundo eles, o fato deu início a um empurra-empurra e posteriormente a polícia começou a lançar gás lacrimogêneo e a disparar balas de chumbinho.

Um torcedor, que falou à Associated Press em condição de anonimato, por temer a polícia, disse que o tumulto foi causado pela polícia, que lançou gás lacrimogêneo contra uma multidão num espaço apertado. “Os que caíam não conseguiam se levantar”, afirmou ele.

A partida de domingo começou com mais de uma hora de atraso. O Zamalek é líder do Campeonato Egípcio, seguido pelo ENPPI, que está três pontos atrás. O jogo terminou empatado em 1 a 1.