Rio – Em seu primeiro dia à frente da seleção brasileira, Dunga esteve reunido com o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, decidindo os nomes que vão integrar a comissão técnica. Como primeira providência, iniciou as negociações para a contratação de seu auxiliar técnico e manteve todos os integrantes do departamento médico, chefiados por José Luís Runco, além do treinador de goleiros, Wendell Ramalho.

?O perfil será o de um jogador identificado com a seleção brasileira, que tem postura, que tenha atitude?, afirmou Dunga, ao se referir à contratação do novo auxiliar. Os ex-jogadores Jorginho, lateral-direito, e Zetti, goleiro, com os quais o técnico do Brasil participou da campanha do tetracampeonato nos Estados Unidos, são dois nomes sob análise na CBF.

Já o ex-lateral-esquerdo Branco será mantido no cargo de supervisor de seleções de base, mas passará a atuar ao lado de Dunga. ?Ele fará um trabalho integrado com a gente. Queremos os jogadores das divisões de base já incorporados ao clima da seleção principal?, ressaltou Dunga.

Zagallo e Faria

A permanência do coordenador-técnico Zagallo, assim como a do supervisor Américo Faria, ainda não está definida. Quanto a Zagallo é certo que não continuará no cargo, mas, por respeito a seu trabalho ao longo dos anos, deverá ganhar uma função executiva. A fragilidade de sua saúde será o principal argumento para afastá-lo do banco de reservas.

O supervisor da seleção tem a competência como aliada para continuar na estrutura da nova comissão técnica. É consenso na CBF que poucas pessoas possuem a experiência de Américo Faria no exercício de suas funções. Ele até já iniciou os preparativos para a viagem da seleção para Oslo, onde o Brasil atuará contra a Noruega, no dia 16. Mas o administrador do time, Guilherme Ribeiro, é um dos que ameaçam seu lugar.

Preparação e convocação

Na preparação física, a saída de Moracy Sant?Anna foi concretizada. Já a permanência de Paulo Paixão deverá ser confirmada. E a novidade pode ser um convite a Francisco González, atualmente no Fluminense e que participou da Copa da Alemanha, com a Arábia Saudita.

?Terça-feira anunciarei todos os nomes junto com a primeira convocação?, disse Dunga, que deu pistas da lista. ?A tendência é a de chamar maior número de jogadores em atividade no Brasil porque os ?europeus? estão voltando agora?, afirmou.

Teixeira não sabe se fez a melhor opção

Rio – Nem mesmo o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, tem a convicção de que fez o melhor com a escolha de Dunga para técnico da seleção. Ao iniciar as negociações com o ex-jogador, há uma semana, o dirigente tinha o desejo de fazer uma faxina completa no estilo de trabalho dominante nos últimos anos no comando da equipe.

?Já que o Scolari (Luiz Felipe Scolari, técnico de Portugal) recusou, o presidente partiu em busca de uma oxigenação total. E o Dunga foi a preferência dele. Não sofreu influência de ninguém?, disse uma pessoa próxima a Teixeira. ?Sem o Scolari, de que adiantava trazer o Luxemburgo (técnico do Santos) ou o Tite (do Palmeiras) ou o Autuori (do Kashima Antlers)? Seria tudo a mesma coisa.?

E a conversa com Dunga foi rápida. Num clube de golfe de São Conrado, no Rio, onde em 2002 Teixeira assegurou ao artilheiro Romário que pressionaria Felipão para a sua convocação à Copa da Coréia e Japão – o que não surtiu efeito -, o dirigente impôs as condições ao novo treinador. Explicou que não abriria mão de sua participação ativa no controle da seleção e assegurou-lhe apoio irrestrito.

A empolgação de Dunga com o convite foi tanta que o salário dele não havia sido acertado até ontem. Mas, por ser inexperiente, seus vencimentos serão fixados em aproximadamente R$ 180 mil, quantia inferior aos cerca de R$ 250 mil recebidos pelo técnico Parreira.

A contratação de Dunga só começou a ser desenhada por Ricardo Teixeira depois de alguns fatos e considerações. Com a recusa de Felipão, o presidente ficou dividido entre Luxemburgo e Autuori. Dividido, mas não convencido de que deveria optar por um deles. Durante alguns dias, conversou com outros dirigentes da CBF, notadamente seu tio, o secretário-geral Marco Antônio Teixeira. Queria um treinador disposto a promover uma grande reformulação no elenco.

Chegou a falar de Ronaldo com um de seus assessores mais próximos num tom de desapontamento e de irritação. ?O Ronaldo não pode tratar a seleção como uma obrigação. Se quiser, pode voltar ao grupo. Mas vai ter de mudar de atitude. Acabou esse negócio de jogador se recusar a disputar uma competição para descansar?, disse Teixeira, num de seus desabafos na sede da CBF.

Ele se referia ao pedido de dispensa de Ronaldo antes da Copa América de 2004 e da Copa das Confederações de 2005. Para a diretoria da CBF, Ronaldo não vinha demonstrando interesse suficiente em vestir a ?amarelinha.?

Parreira elogia escolha de seu sucessor

Rio – A contratação de Dunga para técnico da seleção brasileira tem a aprovação de Carlos Alberto Parreira, que deixou o cargo na semana passada. ?Ele sempre gostou de falar da parte tática, da filosofia de jogo dos clubes e seleções européias. É muito atento e bem-informado?, comentou Parreira. ?O Dunga é uma aposta da CBF e tem tudo para dar certo.?

De acordo com Parreira, a ausência de outras experiências como treinador no currículo de Dunga não deve ser considerada como um problema. ?Isso é relativo. Ninguém começa uma atividade na vida como experiente.?

O ex-técnico da seleção também disse que a história credencia Dunga à função. ?Ele tem na bagagem três Copas do Mundo (90/94/98). Jogou na Itália e na Alemanha e conhece muito os bastidores do futebol?, afirmou.

Sempre ligado

Parreira disse que tem ótima relação com seu sucessor na seleção. Trabalharam juntos na campanha do tetracampeonato mundial em 1994, período em que Dunga se destacou pelo espírito de liderança. ?Ele foi um exemplo para o grupo?, lembrou. Por várias vezes, mesmo depois da Copa dos Estados Unidos, Parreira consultou Dunga para obter dele alguma opinião sobre futebol europeu. ?Ele sempre está o tempo todo ligado.?

Feliz por estar desfrutando de um convívio mais próximo com a neta Letícia, de um ano e meio, Parreira contou que a CBF fez uma opção por um ex-jogador reconhecido no mundo todo. ?O Dunga é um nome de peso no futebol brasileiro e internacional. É um nome muito forte para iniciar uma renovação na seleção visando à Copa de 2010?, avisou.