Documento no valor de R$ 3 mil é prova do esquema

A denúncia feita pelo árbitro Evandro Rogério Roman no Tribunal de Justiça Desportiva da Federação Paranaense de Futebol, apoiado por 12 colegas de profissão, iniciou uma caça a provas que possam reforçar o julgamento no órgão, marcado para hoje. Neste quesito, um ?troféu? está sendo disputado como maior prova de atuação da máfia do apito, comprovando que o esquema não é recente.

Segundo o ex-árbitro Nelson de Souza, que mora em Campo Mourão, está em mãos de Oclécio Menezes, ex-presidente do Mamborê, um cheque de R$ 3 mil, que deveria ter sido descontado por Carlos Jack Rodrigues Magno, no jogo entre Mamborê x Colombo, pela final da Taça Paraná de 2001. O jogo de ida, em Mamborê, foi apitado por Evandro Roman, que teria sido ?vendido? por alguém, sem ser comunicado. Com poucos minutos de jogo, o árbitro expulsou um jogador local, desmontando todo o esquema preparado.

A armação ficou para o jogo de volta, em Curitiba. Oclécio Menezes pagou, segundo Nelson de Souza, R$ 3 mil a Carlos Magno, para ?operar? o Colombo, na capital.

O cheque do Banco Itaú foi expedido e deixado nas mãos do árbitro Dirceu Oscar de Mattos, que reside em Maringá. Mas não pôde ser representado. A presença de toda a diretoria da federação e do departamento de árbitros levou Magno a pedir a Dirceu que segurasse o cheque. Explicou ao presidente do Mamborê que era impossível fazer esquema ?na frente dos homens? (Onaireves Moura, Nelson Lemkhuln), que assistiam à decisão.

Cheque x gravação

Na semana passada, o cheque quase esteve na mão de Nelson de Souza. Em troca, Souza entregaria a Oclécio Menezes a gravação em que este aparece tentando subornar seu filho (Nelson de Souza Jr.). O jogo também fazia parte da Taça Paraná de 2004 e reunia Araruna x Fênix (além do Mamborê, Oclécio Menezes tinha negócios no Ubiratan, Araruna e JAC -Janiópolis Atlético Clube). Às vésperas do jogo, que classificaria o Araruna para a final, contra o Engenheiro, Oclécio ligou para Souza Jr. ?Preciso falar com você. Tenho dois mil e quinhentos reais da Prefeitura?.

O encontro ocorreu na frente da residência deste, dentro do carro. Souza Jr. propôs a Oclécio uma negociação: em vez de dinheiro, queria uma cópia do cheque, ou o seu original. E gravou toda a conversa. O representante do Araruna chegou a propor que a troca seria feita ?depois do jogo?, mas Nelson de Souza Jr. não concordou. O Araruna venceu o jogo por 4 x 1 e o cheque continuou em poder de seu emitente, segundo o árbitro contou à Tribuna.

Ontem, Nelson pai voltou a fazer um contato com Oclécio Menezes, que aceitou entregar o cheque. O ex-presidente do Mamborê explicou que não quer mais ficar com o ?documento?, pois isto poderia ser explorado no futuro (seu irmão será lançado candidato a deputado). Além do mais, Oclécio teria dito que se o cheque vier a público pelo futebol, não há problema nenhum. ?Precisamos fazer uma limpeza naquela turma de Curitiba (a federação)?.

É preciso explicar como pai e filho viram este cheque: há dois anos, eles foram fazer um trabalho de instalação hidráulica na casa do ex-presidente do Mamborê. Por isso tinham tanta certeza do documento.

Já naquela oportunidade tinham feito uma tentativa de ficar com o cheque, mas Oclécio se negou. ?Não posso, isso aqui é um trunfo na minha mão?. Tanto trunfo que a família Souza, junto com Evandro Rogério Roman, chegou a oferecer R$ 1mil, há duas semanas, para incluí-lo como prova do julgamento de hoje.

Quem não participa do esquema paga caro

?Filho, não espere nada dessa turma?. Foi assim que o ex-árbitro Nelson de Souza consolou o filho Nelson Jr., quando este perguntou por que não era escalado pela atual Comissão de Arbitragem, dirigida por Valdir de Souza e Antônio Carvalho (que se afastaram assim que explodiu o escândalo do ?bruxo?). O caso ilustra o tratamento com alguns apitadores que não concordam em ?fazer o jogo?.

Nelsinho já paga porque seu pai havia denunciado o então árbitro e presidente da liga de Francisco Beltrão, Valdir de Souza, por tentativa de suborno, há mais de oito anos. O jogo reunia Dois Vizinhos x Vila Fanny (veja matéria). Por azar deles, no ano passado, Valdir foi indicado diretor da Comissão de Árbitros da Federação.

Além de sua conduta atual, Nelson Jr. se diz vítima de perseguição política na região. O pai derrotou seu concorrente, Reinaldo dos Santos, na eleição da associação de árbitros da liga de Campo Mourão, que era apoiado por Valdir de Souza, vice-presidente da FPF e presidente da microrregião.

Nos últimos 20 dias, Nelson de Souza Júnior foi estranhamente retirado de duas escalas, tanto do quadro da federação quanto da associação local. O pai do apitador confirma que, quanto mais denúncias são divulgadas, menos chance o filho tem de apitar. A única escala em que o filho apareceu foi por ingerência política, através do IAP – Instituto Ambiental do Paraná que fez um lobby em favor de seu funcionário. Os deputados Darci Deitos e Rubens Bueno foram acionados, através da Suderhsa – Superintendência de Recursos Hídricos e Saneamento. Segundo Nelson de Souza confirmou à Tribuna, foram os dois parlamentares que ligaram para o presidente Moura intervir junto a Valdir de Souza.

Pai e filho afirmam que a associação de árbitros local sabe que eles presenciaram a ?cirurgia? feita por Carlos Magno, no Combate Barreirinha, na final da Taça Paraná do ano passado, que tornou o Engenheiro Beltrão campeão, depois da morte súbita. Ao criticar a atuação de Carlos Magno na decisão, Nelson Souza ouviu do ex-prefeito, Euclides Saquetti, o seguinte: ?Você não pode ver essas coisas. Eles (Combate Barreirinha) podem fazer dez gols que nunca vão ser campeões?.

O Engenheiro perdia por 2 a 1 e chegou ao empate com um gol ilegal, confirmado por Aparecido José da Silva, o Baiano. A bola bateu no travessão e no chão, faltando 60 centímetros para entrar. ?Esse Baiano é do esquema?, disse ontem Nelson de Souza à Tribuna.

Hoje, pai e filho relembram que naquela semana Carlos Jack Rodrigues Magno passou três dias numa estância hidromineral da região, além de ter voltado a Curitiba num vôo da Gol, por conta do Engenheiro. ?Soube que o Magno levou oito mil pra isso?, acrescentou Nelson. Na semana passada, um ex-jogador do Engenheiro disse que Magno havia passado uma semana na fazenda do presidente Luiz Linhares, do Beltrão.

Ontem, após ouvir todas as histórias, Nelson de Souza Júnior concordou com o conselho do pai: ?Pelo jeito, vou ter que arrumar um padrinho político forte pra poder apitar?.

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