A Taça Dirceu Krüger, a segunda fase do Campeonato Paranaense, começa amanhã. O nome dado a esta fase da disputa é uma justa homenagem a um personagem icônico do futebol do Paraná. Com uma vida dedicada ao Coritiba, sempre com respeito aos adversários e o amor pelo futebol, o Flecha Loira conquistou a admiração não só dos torcedores do Coxa, mas de todos aqueles que são apaixonados pelo esporte.

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Desde menino batendo bola nos campos da Barreirinha, Krüger começou sua carreira profissional no Britânia, em 1963, depois de fazer bonito no futebol amador e ser descoberto pelo técnico do time, Jovenal Roppel. Chegou ao Coritiba em 1966 e desde então não saiu mais de lá. Ídolo do Alviverde, ele foi jogador, auxiliar técnico, treinador, responsável pelas categorias de base e, até hoje, funcionário, amigo e conselheiro dos atletas.

Em campo, somou 252 jogos pelo Coritiba, marcando 58 gols. Sempre muito calmo em suas palavras e seu jeito de agir, encerrou a trajetória como jogador como um exemplo aos colegas de profissão, sem nunca ter sido expulso de campo. Como jogador, Dirceu Krüger defendeu o clube de 1966 a 1975, conquistou sete campeonatos paranaenses e o Torneio do Povo, em 1973.

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Como técnico, esteve no comando do time em 185 jogos, o que o torna o segundo treinador com mais jogos pelo Alviverde, atrás apenas de Félix Magno, que somou 201 partidas em três passagens pelo time. Na maior conquista da história do Alviverde, ele também participou ativamente, já que na campanha do título brasileiro de 1985, ele foi auxiliar técnico de Ênio Andrade.

E mesmo depois de ter escrito um grande capítulo na história do futebol no Estado, Krüger se sentiu surpreso com a homenagem de ter seu nome batizando uma das taças. Humilde em relação a seus feitos, ele sequer esperava um dia ter uma estátua no Alto da Glória. “Jamais imaginei. Tanto a homenagem da Federação Paranaense de Futebol quanto a estátua. Geralmente fazem isso para que já morreu. Me encantou”, disse o ex-craque que não sabe como seria sua vida sem a bola nos pés.

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“O futebol representa minha vida. Sempre quis ser jogador. Desde criança queria jogar pelada, após a aula, à tarde, reunia a molecada e jogava. A coisa começou a evoluir e aconteceu tudo isso”, disse, com os olhos distantes como quem recorda de muitos momentos marcantes vividos.

Mesmo depois de 53 anos de trabalho dedicados ao Coritiba e, agora, com 78 anos de idade, ele não pensa em hipótese nenhuma em ficar longe do Couto Pereira. “Eu considero o Coritiba meu segundo lar. Quando eu não estou na minha casa, estou no Coritiba. Teve um domingo em que eu me levantei para ir trabalhar. Chegando no Couto Pereira lembrei que era domingo e que não precisava vir”, contou, rindo.
Para o Flecha Loira, apelido que recebeu por se mover com velocidade, cada oportunidade vivida no Coritiba foi alegre.

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“Todos os momentos foram felizes, mas lembro da emoção de fazer um gol de título. Eu tinha dentro de mim uma determinação para que o Coritiba sempre pudesse conquistar mais. Lembro que eu fiz o gol do bicampeonato paranaense (1972) e fiquei feliz porque já pensava que íamos conquistar o tri. E conseguimos”, recordou.

O ex-craque encerrou sua carreira precocemente, aos 31 anos, em 1976. Depois de ter se recuperado de várias lesões graves, incluindo uma que quase o matou, ele sentiu que não poderia dar mais seu melhor ao Coxa e, por isso, preferiu parar. “Por causa de contusões, infelizmente, não joguei tanto como gostaria, poderia ter feito mais. Tive fratura de perna, de clavícula e a joelhada no abdome que me arrebentou. Eu tinha jogar com uma cinta, mas como não conseguia ter uma grande evolução física tive que parar”, falou se referindo ao grave acidente que teve.

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Em 11 de abril de 1970, em um choque grave com o goleiro Leopoldo, do Água Verde, Krüger teve ruptura das alças intestinais. Precisou ficar internado por 70 dias no hospital e seu estado era considerado tão grave que o ex-atleta chegou a receber a Extrema Unção duas vezes.

Para Krüger, entre tantas vivências que teve no esporte há uma que ele faz questão de repassar a cada atleta que ele aconselha. “São tantos aprendizados. O futebol ensina a respeitar as pessoas. O seu torcedor e o adversário. Tem muitos torcedores que falam comigo, eu penso que é coxa-branca, mas aí no final falam: olha, não sou coxa. É uma coisa incrível. Eu nunca desrespeitei ninguém e sempre falo isso para os jogadores”, disse, em tom de ensinamento.

Alcunha

Um outro apelido de Krüger, conhecido apenas pelos jogadores os quais ele treinou, é bem incomum. Certa vez foi chamado por um desconhecido de ‘shoenlaine’. Sem ter ideia do quê ou de quem se tratava, ainda assim retribuiu o cumprimento e o nome ficou conhecido entre os boleiros que também passaram a falar ‘shoslaine’.

“Tentei achar a ligação, mas não tem, acho que a pessoa que me chamou assim me achou parecido com algum amigo e aí pegou o apelido”, riu.

Extraordinário

Com verdadeira adoração pelo time o qual vestiu a camisa, um dos legados que Krüger acredita ter deixado é o reconhecimento por parte de quem sequer o viu em campo.

“Pessoas que não me viram jogar me abordam falando que os pais viram e contaram sobre mim para eles, falando que eu era extraordinário. Todo esse reconhecimento me deixa muito feliz, mas às vezes me pergunto: será que realmente foi tudo isso?”, disse.

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E se Dirceu Krüger escreveu sua história no Alto da Glória e faz questão de estar todos os dias perto do Coritiba, ele mesmo já reservou um lugar para permanecer eternamente dentro do Couto Pereira.

“De vez em quando as pessoas vêm aqui para visitar o estádio e quando estou conversando, mostrando a estrutura eu falo: ‘Você está vendo o meio de campo? Aquele meio de campo não é grama. É um tapete!’. Sempre há um espanto: ‘É um tapete? Mas por quê, Krüger?’. E eu respondo: ‘É porque quando eu morrer, é só levantar o círculo central e eles têm um túmulo ali embaixo para que eu seja enterrado’. As pessoas se matam de rir quando eu falo isso”, finalizou.

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