Depois das vaias na abertura da Copa das Confederações, no ano passado, em Brasília, a cerimônia que acontecerá antes do primeiro jogo da Copa do Mundo, entre Brasil e Croácia, nesta quinta-feira, no Itaquerão, em São Paulo, não deverá ter discursos de Joseph Blatter, mandatário da Fifa, e da presidente Dilma Rousseff. Se realmente não discursar, Dilma quebrará uma tradição recente do evento, que contou com declarações de presidentes e primeiros-ministros nas últimas duas décadas.

De acordo com a Fifa, não estão programados discursos de Blatter ou da presidente do Brasil. Nem mesmo o pronunciamento protocolar, que oficializa o início da competição, está garantido. Segundo a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, existe apenas um “indicativo” de que Dilma faça uma “abertura protocolar”.

A decisão de vetar os pronunciamentos deve poupar tanto Blatter quanto a presidente na cerimônia. No ano passado, ambos foram alvos de forte vaia dos torcedores presentes no Estádio Mané Garrincha, em Brasília, durante a abertura da Copa das Confederações, na esteira das manifestações que estouraram pelas ruas do Brasil em junho – na ocasião, eles foram alvo fácil por simbolizarem os criticados gastos públicos para a realização do Mundial no País.

Sem esconder o constrangimento, o presidente da Fifa tentou dar um puxão de orelha na torcida presente no estádio naquela ocasião. “Amigos do futebol brasileiro, onde está o respeito e o fair play, por favor?”, chegou a dizer o dirigente suíço. Para não prolongar a situação incômoda, Dilma emendou rapidamente: “Declaro oficialmente aberta a Copa das Confederações Fifa 2013”.

Para evitar novo desconforto público, Dilma antecipou suas palavras em pronunciamento em cadeia nacional de rádio e televisão na noite de terça-feira, quando tratou de valorizar as obras realizadas para a Copa e criticar os “pessimistas”. Ela também destacou os benefícios gerados pelo evento e prometeu punição aos eventuais casos de irregularidade durante a execução das obras.

A declaração de abertura formal da competição organizada pela Fifa geralmente é precedida de um discurso simbólico, exaltando as qualidades do país-sede e pregando valores como paz, união e esportividade. Foi o que aconteceu nas últimas cinco edições da Copa do Mundo, desde 1994, nos Estados Unidos.

Em Chicago, o então presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, elogiou a habilidade dos jogadores que pisariam nos gramados norte-americanos e exaltou o papel do futebol na união das nações antes da partida entre Alemanha e Bolívia, diante do empolgado público que lotou o estádio naquele dia 17 de junho de 1994.

Quatro anos depois, o então presidente francês Jacques Chirac fez um breve anúncio da abertura do Mundial, depois de um monótono discurso de João Havelange, que era presidente da Fifa na época. Em sua última Copa como mandatário da entidade, o cartola brasileiro teve sua participação abafada por forte vaia no Stade de France, nos arredores de Paris, apesar das palavras pronunciadas somente em francês.

Em 2002, no primeiro e único Mundial dividido em duas sedes, ambos os chefes de Estado se manifestaram na cerimônia de abertura. O então primeiro-ministro do Japão, Junichiro Koizumi, evitou se estender, mas fez discurso de importância histórica por exaltar a união com a Coreia do Sul, superando conflitos do passado – os japoneses ocuparam o país vizinho durante 35 anos, até o fim da Segunda Guerra Mundial.

Já o presidente da Coreia do Sul, Kim Dae-jung, se alongou nas palavras que destacavam a “harmonia” e a “nova era de paz” no Oriente. O simbolismo dos discursos, no Estádio Sang-am, em Seul, acalmou a torcida, que não havia poupado Joseph Blatter, vaiado um pouco antes em sua primeira Copa como presidente da Fifa.

Escaldado pela reação negativa das arquibancadas quatro anos antes, o cartola suíço vetou seu próprio discurso e o do antigo craque Franz Beckenbauer, presidente do Comitê Organizador da Copa na Alemanha, em 2006, com a justificativa de que queria uma cerimônia mais rápida daquela vez.

Somente o então presidente da Alemanha, Horst Köhler, se manifestou naquela cerimônia de abertura. Ele deu as boas-vindas a torcedores e jogadores e fez os agradecimentos de praxe. “Desejamos a todos jogos apaixonantes, muitos gols e fair play. Que o futebol una os povos”, discursou, antes do tradicional “declaro aberto a Copa do Mundo”.

Na Copa de 2010, as vaias deram lugar ao coro das vuvuzelas, barulhentas cornetas que viraram febre nas arquibancadas dos estádios sul-africanos. Na cerimônia, foi necessário pedir à torcida que interrompesse o zunido para o discurso do presidente do país, Jacob Zuma. Em pronunciamento inflamado, ele exaltou a África do Sul e a oportunidade de receber a Copa no continente africano. Na ocasião, Blatter apenas apresentou o presidente Zuma, porque já havia discursado no dia anterior, em evento festivo, com shows e apresentações locais no bairro de Soweto, em Johannesburgo.

Dessa vez, Dilma poderá quebrar esta tradição recente em Copa do Mundo se realmente evitar o discurso de abertura. Depois de acompanhar Brasil x Croácia nesta quinta-feira no Itaquerão, a previsão é de que ela esteja presente apenas em mais um partida da competição: justamente a final no dia 13 de julho, no Maracanã, quando “passará o bastão” para Vladimir Putin, presidente da Rússia, sede da futura Copa de 2018.