Londres (AG) – Semana sim, semana não, torcedores europeus e do resto do mundo param para assistir aos jogos da Liga dos Campeões da Europa, o torneio de clubes mais importante do planeta. O que muita gente pode não estar percebendo é que os confrontos continentais entre clubes do porte de Real Madrid, Barcelona, Milan e Manchester United, ao mesmo tempo que promovem o esporte, também ajudam a aprofundar suas desigualdades econômicas, com um preço muito alto para os campeonatos nacionais.

A tese, se não é nova, voltou a ganhar força nas últimas semanas com um estudo da Sports Nexus e a admissão da própria Uefa de que sua menina dos olhos está privilegiando uma minoria e transformando uma maioria em mera figurante.

O argumento é simples: por recompensar seus participantes com prêmios mínimos de mais de US$ 1 milhão por uma simples aparição na primeira fase do torneio (o total pode chegar a cerca de US$ 40 milhões para o campeão), a Liga dos Campeões contribui para um desequilíbrio econômico que impede a entrada de novos clubes e facilita a vida de quem já se sobressai financeiramente sobre a concorrência nos torneios domésticos.

Um dos principais exemplos é a Liga Inglesa. Desde a temporada 1992/93, quando os 22 clubes mais importantes do país criaram um campeonato à parte, financiado por um contrato milionário com um canal de TV por assinatura, apenas três times diferentes levantaram o troféu de campeão, sendo que em oito delas o Manchester United.

O mais alarmante ocorreu na temporada passada. Apesar de o Arsenal ter conquistado o título sem perder uma única partida, o que mais chamou a atenção foi a distância que o separou dos rivais. O time dos brasileiros Edu e Gilberto Silva terminou a temporada 2003/04 com 90 pontos, 30 a mais do que o Liverpool, quarto colocado e último clube classificado para a Liga dos Campeões. Para a Uefa, a generosidade dos prêmios está tornando o campeonato inglês e outras ligas européias em competições previsíveis, que desestimulam os torcedores de vários países.

Não por acaso, as médias de público da Liga Inglesa caíram em pelo menos 6% em comparação à temporada passada. E a Uefa alerta que o mesmo problema poderá em breve estar se espalhando pela Europa. A Itália é outro país em que a corrida pela hegemonia nacional tem cada vez mais se concentrado entre poucos times ? vale lembrar que apenas Juventus, Milan, Roma e Lazio conquistaram o scudetto desde a temporada 1992/93, a inaugural da Liga dos Campeões. A Alemanha é outro exemplo. No mesmo período, apenas cinco times levantaram o troféu da Bundesliga, com o Bayern de Munique levando a melhor seis vezes.

Ainda que entre a elite européia as desigualdades econômicas não sejam tão explícitas em termos de títulos, sobretudo depois da surpreendente conquista do Porto na última temporada, o perigo é que a Liga dos Campeões está se transformando num clube cada vez mais seleto, cujos participantes agora ameaçam simplesmente deixar os campeonatos regionais de lado para se dedicar somente à disputa pela coroa continental.

? O que mais me impressiona é ver que os clubes têm atitudes egoístas num momento em que o futebol está gerando mais dinheiro do que nunca – afirma o escritor e jornalista inglês David Conn, que tem sido um defensor enérgico da redistribuição de renda no futebol.

Os defensores da tal justiça econômica apontam para as ligas americanas como a NBA (basquete) e NFL (futebol americano), em que receitas de TV e merchandising são repartidas igualmente entre as equipes envolvidas, no que muitos acreditam ser a chave para a sobrevivência dos mais fracos e manutenção do balanço competitivo.