Valquir Aureliano
Presidente do sindicato repete a "ladainha" de que Moura o persegue por sua entidade ser mais séria que a associação.

Nada de surpresas. Quem esperava um depoimento bombástico do atual presidente do Sindicato dos Árbitros do Paraná, Amoreti Carlos da Cruz, ontem no Tribunal de Justiça Desportiva (TJD), ficou decepcionado.

O ex-árbitro foi acusado pelo presidente da Federação Paranaense de Futebol (FPF), Onaireves Moura, de ser o verdadeiro "bruxo" do futebol do Paraná. Como resposta, Amoreti havia prometido revelar "fatos estarrecedores" sobre a corrupção nos campos do Estado. Porém, diante do TJD, Amoreti negou as acusações feitas por Moura, se disse perseguido pela FPF, mas não apresentou provas.

Acompanhado por dois advogados e um segurança, Amoreti iniciou seu depoimento dizendo que sofre perseguição de Moura por sua atuação frente ao sindicato. "Ele não aceita a homologação do sindicato, por que sabe que uma entidade forte iria cobrar os direitos dos árbitros, principalmente as taxas de arbitragem", afirmou.

Na última terça-feira, Moura disse ao TJD que Amoreti comandava o esquema de corrupção através da manipulação das escalas de arbitragem, quando Fernando Luiz Homann dirigia o departamento de árbitros da FPF. "É mentira. Se ele sabia disso, porque só demitiu Homann em 2004? O sindicato existe desde 2002", rebateu Amoreti, que afirma que Moura combate o sindicato para continuar tendo influência direta sobre a arbitragem, através da Associação Profissional dos Árbitros de Futebol do Paraná. "A associação tem que comer na mão dele. Ele ofereceu R$ 2,5 mil por mês para pagar as contas e sustentar a associação", acusou Amoreti.

Ele afirmou que o atual tesoureiro do sindicato, Airton Nardelli, que foi contador da associação, tem documentos que provam irregularidades nas contas da entidade presidida pelo árbitro Henrique França Triches. "Ajudei a fundar o sindicato quando Nardelli me chamou e disse que precisávamos acabar com as maracutaias de Nelson Orlando Lehmkuhl (ex-presidente da associação) e Moura. Ele me mostrou os documentos que comprovam as irregularidades", disse Amoreti ao auditor Paulo César Gradela Filho, que comanda a comissão de inquérito que investiga o caso. Gradela diz que vai intimar Nardelli para depor na próxima semana.

Segundo Amoreti, as contas da gestão de Lehmkuhl foram aprovadas por pressão de Moura. "O Rogério Carlos Rolim (árbitro), que é conselheiro fiscal da associação, disse que as contas de Lehmkuhl foram reprovadas em uma assembléia com 209 árbitros, no Pinheirão. Mas o Moura disse que se elas não fossem aprovadas, ele (Rolim) estaria fora do quadro nacional e da FPF. Duas semanas depois, as contas foram aprovadas, em um documento assinado por Rolim, Triches e Magno (Carlos Jack Rodrigues, árbitro)."

Na versão do TJD, Moura estaria fazendo ?armação?

Durante seu depoimento, Amoreti afirmou que foi avisado de que Moura estaria conspirando com outros acusados no caso para incriminá-lo. "Fui avisado por uma pessoa de dentro da federação que estavam fazendo uma confusão aqui para me incriminar. O Sílvio Gubert (ex-presidente do conselho deliberativo do Operário) viria até aqui e diria que era para mim que ele pagaria aqueles R$ 2 mil", disse Amoreti, se referindo à entrevista de Gubert que foi o estopim do "Caso Bruxo".

Questionado sobre quem seria essa pessoa, Amoreti disse que não poderia revelar o nome sem autorização. A sessão chegou a ser suspensa para que Amoreti ligasse para o seu informante, mas ele retornou ao tribunal dizendo que não conseguiu o contato. "Prometo que quando ele autorizar, eu falo quem é. Mas se eu for chamado na PIC, eu falo. Com ou sem autorização." A Promotoria de Investigação Criminal (PIC) está investigando o caso na esfera da Justiça comum.

O presidente do sindicato também disse que coloca à disposição do TJD e da PIC os seus sigilos bancário e telefônico.

Emoção

Parte do depoimento de Amoreti foi feito em tom bastante emotivo. O ex-árbitro disse que recebeu ameaças por telefone. "Recebi uma ligação na quarta-feira, de uma pessoa perguntando qual era meu preço para assumir essa bronca. Eu disse que não tinha preço nenhum. Depois, a mesma pessoa ligou de novo, dizendo que se eu não tinha preço, era para eu tomar cuidado com o que ia dizer e fazer daqui para frente."

Amoreti afirmou também que sua família está sofrendo com as acusações. "Meu filho mais velho não consegue emprego em Guarapuava. Outro, coincidentemente, foi demitido logo depois das denúncias. Meu guri mais novo, de 11 anos, me falou que um colega disse que eu poderia ser preso", afirmou, com a voz embargada. "Não agüento mais. Quero que vocês me ajudem. Se eu for culpado, podem me algemar e me levar preso. Mas quero que parem com isso."