Willians marcou bem Renaldo,
num clássico quase prejudicado
por Mário Rezende no apito.

A dupla artilheira Edu Sales e Marcel, que brilhou no campeonato paranaense, decidiu o clássico de ontem à tarde, no Couto Pereira, a favor do Coritiba. O Paraná Clube chegou a sair na frente, mas o Alviverde deu a volta por cima na segunda etapa, virando a partida para 2 a 1 e galgando importantes degraus na tabela. Agora, o Coxa está a apenas um ponto do Tricolor. Com o resultado, o Coritiba mantém a invencibilidade diante do time da Vila em jogos disputados no Alto da Glória há sete anos. Desde julho de 96, o Paraná não vence o Alviverde no Couto Pereira.

A disputa do clássico começou antes mesmo de o árbitro Márcio Rezende de Freitas acionar o cronômetro. Estrategicamente, o técnico Paulo Afonso Bonamigo esperou até a divulgação oficial do time do Paraná – que entrou com Fernandinho – para anunciar seu time com Willians.

No entanto, tanta precaução não foi suficiente para o Alviverde envolver o adversário que, com apurado toque de bola, protagonizava as principais ações na primeira etapa e não deixava o Coritiba ditar o ritmo do jogo. Mas em uma análise geral, as chances eram equilibradas, pesando ao Tricolor as jogadas mais objetivas. E foi em uma delas que o Paraná abriu o marcador, aos 31 minutos. Em um contra-ataque rápido, Caio encontrou o zagueiro Cristiano Ávalos pela esquerda, sem marcação. Bastou ao beque ajeitar a bola e chutar cruzado, na saída de Fernando.

O gol foi um balde de água fria para o Coritiba. Visivelmente ansioso, o time de Bonamigo errava passes e dava espaço ao Paraná, que por pouco não aumentou a diferença. No final da primeira etapa, o Coxa começou a esboçar uma reação e Flávio salvou na risca um chute preciso de Willians.

Salvador

Preocupado com o comportamento acuado de seu time, o técnico Bonamigo decidiu dar passagem a Edu Sales, que durante a semana treinou no time titular como opção ofensiva. A mudança não poderia ser mais adequada. Na frente no marcador, o Paraná teve um recuo natural e o Coritiba começou a forçar as jogadas pela direita, através do lépido Edu. A insistência da jogada acabou frutificando. As 20 minutos, depois de tabelar com Lima, Adriano cruzou redondo para Edu Sales chutar firme, empatando a partida.

Com o gol, a volúpia do Coritiba aumentou e o Paraná se limitou a jogar nos contra-ataques, numa inversão de postura em relação à etapa inicial. Ciente do melhor momento na partida, Bonamigo decidiu arriscar mais e lançou Marcel no lugar Marco Brito. Mais uma vez, o treinador coxa se deu bem. Aos 35 minutos, em um preciso lançamento de Nascimento, Edu Sales recebeu na linha de fundo e cruzou na cabeça de Marcel, que virou o jogo. No entanto, a partida não estava ganha ainda. Aos 39 minutos, Danilo fez falta no meio-de-campo e como já tinha cartão amarelo, foi expulso. Com um homem a menos, o Tricolor esboçou uma reação, mas os esforços foram em vão. O placar estava sacramentado.

Bona acerta no banco e garante gols da virada

O técnico Paulo Afonso Bonamigo cumpriu a promessa, feita em tom de brincadeira nos anos 80, quando defendia o Grêmio ao lado do técnico Cuca. No clássico de ontem à tarde, o time de Bonamigo passou por cima do Paraná, comandado por seu amigo de longa data.

A previsão de um jogo aguerrido, disputado, também se fez presente, na avaliação de Bonamigo. “Foi um jogo equilibrado no primeiro tempo, mas eles souberam aproveitar a chance criada. Bobeamos na marcação e eles fizeram por merecer”, reconhece. Mas para o segundo tempo, com muita conversa e uma mudança na equipe, o treinador conseguiu reverter a situação. “Escalando o Edu, puxamos a marcação. Valeu também a sacudida no vestiário, que reanimou o time e ajudou a mudar a história do jogo.” A última cartada – escalar Marcel – também deu resultado e cria um doce problema para Bonamigo, que terá que escolher entre manter a dupla Lima e Marco Brito, que vinha jogando, ou reeditar a dupla que conquistou a artilharia do estadual e decidiu o jogo ontem. “Posso entrar com um dos dois, os dois ou nenhum. O jogo é fora e a história é outra. Mas temos a semana para trabalhar”, diz Bonamigo, referindo-se ao compromisso do próximo final de semana, contra o Grêmio, em Porto Alegre. Para este jogo, o treinador poderá contar com o retorno de Roberto Brum e Pepo. Em contrapartida, não terá Danilo, expulso ontem à tarde.

Cuca culpa juiz pela derrota

O técnico Cuca, do Paraná Clube, deixou claro nas suas declarações após a derrota por 2 a 1 para o Coritiba, ontem, no Couto Pereira, que um erro do árbitro foi decisivo no resultado da partida. “O primeiro gol do Coritiba foi, na sua origem, ilegal”, declarou. “O Lima quase quebrou a perna do Fernando Miguel e o Márcio Rezende não deu nem falta. Na seqüência do lance eles empataram”, completou.

Independente disso, Cuca também fez questão de ressaltar que houve um equilíbrio muito grande durante os noventa minutos do clássico. “O jogo foi decidido nos detalhes. Ambas as equipes tiveram as mesmas chances de gol e acabamos perdendo o jogo em dois lances capitais”, resumiu.

Questionado sobre a queda de produtividade da sua equipe na segunda etapa, o técnico garantiu que houve uma queda tão acentuada assim. “As equipes estavam equilibradas e o Coritiba só levou vantagem porque soube aproveitar as chances que teve.”

Apesar da derrota no clássico contra o Coxa, o Paraná contou com a sorte na rodada de ontem. Mesmo com o resultado negativo, a equipe paranaense continuou na mesma colocação na tabela, ou melhor, num cômodo sexto lugar. Mas o certo é que o Paraná continua sem vencer nos jogos fora de casa. Cuca terá novamente que trabalhar a equipe para, ao menos, manter o excelente aproveitamento de 100% nos jogos dentro dos seus domínios. O próximo adversário do Tricolor é a Ponte Preta, sábado, no Estádio Pinheirão.

Tabu amarga mais a derrota

O Paraná Clube pode levar vantagem sobre o Coritiba quando o assunto são os confrontos gerais entre ambas as equipes (25 vitórias, 21 empates e 20 vitórias do Cori). Mas quando se trata de Campeonato Brasileiro, a superioridade alviverde é gigantesca. A bela vitória de virada no clássico de ontem só fez aumentar ainda mais essa diferença a favor dos coxas. Agora, em nove confrontos no Brasileirão, são quatro vitórias alviverdes contra apenas uma do rival e quatro empates. O Cori marcou 11 gols e sofreu nove.

Se não bastasse isso, os tabus a favor do Coritiba no Brasileirão se mantiveram intactos. Há quase dez anos o Tricolor não vence o rival em partida válida pelo Campeonato Brasileiro – a última vitória foi por 3 a 0, em outubro de 1993. Isso sem falar nos sete anos que o Paraná Clube não consegue superar o Cori no Alto da Glória (a última vitória foi em 1996).

Em compensação, alguns dados continuam os mesmos. Um deles, por sinal, é bastante curioso. Nos confrontos entre ambas as equipes no Brasileirão, nenhum jogador conseguiu a façanha de marcar dois gols contra a equipe adversária. A chance ontem era do jogador Tcheco – além, é claro, dos que marcaram gols durante o jogo deste domingo -mas o meia acabou passando em branco.

O recorde de público também deve ter permanecido o mesmo. Este número não pôde ser comprovado devido à falta de informação proveniente do Coritiba, que inexplicavelmente não divulgou o público do clássico de ontem – assim como os demais clubes paranaenses no Brasileirão.

Tcheco e Marcel terminam de alma lavada

A vitória do Coritiba ontem à tarde teve um sabor de vingança para o meia Tcheco e para o centroavante Marcel. O primeiro não esconde a mágoa que sente em relação à torcida tricolor. O problema do último era com a torcida alviverde, decisiva para a sua saída da equipe.

O problema de Tcheco com os paranistas já dura algum tempo. Revelado pelo time da Vila, o jogador acabou sendo dispensado e foi para o Malutrom. Desde a época em que defendia o time de São José dos Pinhais o meia já sentia na pele o rancor da torcida, que o chamava de refugo. Mas quando ele passou a vestir a camisa alviverde, a situação se complicou. “Não tem um jogo que a torcida do Paraná deixe passar em branco. São palavras agressivas e xingamentos. Por toda a minha história no clube, merecia mais respeito”, diz incomodado. Principal cobrador de escanteio do time, o jogador não consegue sair ileso da ira paranista. “Não dá para ignorar”, garante o jogador. Em uma das oportunidades em que enfrentou o Paraná, no brasileiro do ano passado, Tcheco deixou o seu e pôde extravasar. “Eles tiveram que me engolir. Hoje (ontem) não deu, mas valeu essa vitória maravilhosa, muito importante na nossa campanha”.

A história de Marcel é mais recente. Artilheiro absoluto do paranaense, com 10 gols marcados, o prata-da-casa foi considerado um dos grandes responsáveis pelo título estadual invicto. Mas o amor entre o jogador e a torcida foi se esvaindo com a falta de gols no Brasileiro. Como o grande problema apontado pelo treinador para os insucessos no início da competição eram as falhas de finalização e a torcida pedia insistentemente a cabeça do centroavante, a corda arrebentou para o artilheiro. “Achava que tinha mais crédito. Não era só eu quem não estava bem, era o time todo”, desabafou quando deixou a equipe titular. “Era uma questão de oportunidade. Vou continuar brigando pelo meu espaço”, resumiu Marcel.

Falta de ingresso cria confusão

Lucas Duarte

Mais uma vez o Couto Pereira foi palco de confusão num clássico entre equipes paranaenses. E desta vez sobrou para todo mundo. Nem a imprensa escapou. Três carros – um do Grupo Paulo Pimentel, um da TV Bandeirantes e outro da Rede Record – foram parcialmente destruídos por torcedores furiosos que não conseguiam obter ingressos para entrar no estádio.

Mas para entender melhor o ocorrido vale a pena relatar os acontecimentos de acordo com sua ordem cronológica. Durante toda a semana que antecedeu o clássico, foi divulgado que não haveria ingressos para o torcedor tricolor no Alto da Glória no dia do jogo. Isso foi decidido através de uma reunião entre representantes dos dois clubes, torcidas organizadas e da Polícia Militar, na última quarta-feira. Só que muitos ingressos do Paraná não foram vendidos e grande parte dos torcedores do clube foi ao Couto Pereira na esperança de encontrá-los. Resultado: confusão geral.

Nos momentos que antecederam a partida, o portão de entrada destinado à torcida paranista estava parcialmente fechado. Os policiais só deixavam entrar poucos torcedores por vez e um grande tumulto se formou. Além disso, a imprensa, que precisava entrar no estacionamento do estádio, se encontrava nesse tumulto e ninguém tomava providência para que os veículos pudessem passar.

A fim de conter os ânimos, acabaram sendo disponibilizados para o torcedor paranista um total de 500 ingressos. Mas tão logo estes começaram a ser vendidos veio outra ordem suspendendo a ação. A situação ficava cada vez pior e para que não saísse de controle, o comandante-geral da policiamento no jogo de ontem, major Mello, decidiu colocar mais ingressos na bilheterias do estádio para conter o ânimo da torcida tricolor.

Mas aí já era tarde. Algumas pessoas já haviam se machucado na confusão, carros tinham sido danificados e o mal-estar era geral. A reportagem da Tribuna, uma das principais prejudicadas pela confusão, foi atrás de informações. Explicações não faltaram, mas o que ficou claro foi a falta de coerência encontrada nas declarações.

O lado do torcedor

Segundo alguns torcedores paranistas, como é o caso do aposentado Valdir Pereira, o próprio Paraná Clube informou que haveria ingressos nas bilheterias do Couto. “Eu liguei na sede da Kennedy e me avisaram que teria ingressos. Se não tivesse eu nem viria”, comentou.

Já para o analista de sistemas Adriano Cristóforo, também torcedor paranista, o que ocorreu foi uma vergonha. “Isso é grande desrespeito ao torcedor do Paraná. Ingresso tem que existir no local do espetáculo. Quem trabalha não tem tempo para comprar com antecipação”, disse, revoltado.

O lado da polícia

A Tribuna conversou pessoalmente com o major Mello (comandante-geral da Polícia Militar no clássico) para saber qual era a versão da polícia no triste episódio. Segundo ele, houve um desrespeito ao que havia sido combinado antes do clássico. “Não era para ter nenhum ingresso no dia da partida, mas alguém resolveu colocar e a confusão começou”, disse.

Para que o tumulto não ficasse ainda pior, ele resolveu colocar mais ingressos à venda. Além disso, confirmou que houve falhas mas não disse por parte de quem. “Houve falhas na distribuição do ingressos, só não sei dizer de quem. O que eu posso garantir é que consertei essa falha, pois poderia ser bem pior”, garantiu.

O major Mello também comentou que conversou com as diretorias das equipes, mas ressaltou que ambas não fizeram nada além de empurrar a culpa uma para a outra. “Eles fizeram o que sempre fazem quando ocorrem esses episódios lamentáveis.”

A voz das diretorias

Para o presidente do Coritiba, Giovani Gionédis, o problema nos ingressos do Paraná Clube foi culpa exclusivamente dos diretores do clube tricolor. “Todos sabemos que não existem ingressos para vender nos dias dos clássicos e isso já faz um bom tempo”, disse. “Então, eles deveriam ter se organizado melhor na venda dos seus ingressos. O Coritiba não tem nada a ver com isso”, completou.

Logicamente não é a mesma opinião da diretoria tricolor. Segundo o superintendente de futebol do Paraná, Ricardo Machado Lima, a responsabilidade dos ingressos é sempre do mandante. “O Paraná não tem culpa nenhuma. Responsabilidade de ingressos é sempre do dono da casa.”

Para variar, o jogo de empurra-empurra, comum nessas ocasiões, continua. Pior para o torcedor e a imprensa, que mais uma vez acabaram pagando o pato.