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Danilo, Antônio Lopes, Igor e Tuta comemoram o título paranaense.

Quando 2003 terminou, o Coritiba era o "time da moda" no Sul do Brasil. Era o melhor time da região, único classificado para a Copa Libertadores e, por conseqüência, o único com calendário recheado para o ano seguinte: além da competição continental, a Copa Sul-Americana, o Brasileiro e o Paranaense.

No Alto da Glória estavam o técnico (que como coordenador fora campeão do mundo) Antônio Lopes, o experiente meia Luís Carlos Capixaba, os atacantes Luís Mário e Tuta e, principalmente, Aristizábal, um dos melhores jogadores em atividade no País. Previa-se a temporada mais importante da história do clube, imaginava-se que chegara a hora, enfim, de o Coxa dar o salto qualitativo no futebol brasileiro.

Pois então termina 2004 com o Cori escondido no meio da classificação do Brasileiro, fracassando na Libertadores e na Sul-Americana e tendo apenas a conquista do título estadual em grandes condições, diga-se de passagem: levando o bicampeonato ao derrotar na final o rival Atlético e jogando a partida decisiva no Joaquim Américo. Além dos maus resultados em campo, o ano foi de problemas internos, envolvendo jogadores, comissão técnica, diretoria e torcida, e de fracassos nas contratações. No final das contas, nenhum dos reforços contratados vingou totalmente. Não fosse o bi paranaense e a formação de uma "fornada" de revelações, a temporada do Coritiba seria daqueles esquecíveis.

O ano do clube começou oito dias antes do réveillon, quando Antônio Lopes foi contratado. O Delegado chegou com o discurso de "dominar a América", colocando o Coxa entre os candidatos ao título da Libertadores, mesmo estando no grupo mais difícil para os brasileiros, com Sporting Cristal, Rosario Central e Olímpia. As contratações de Luís Mário e Aristizábal aumentaram a expectativa da torcida, que via sua equipe participando de um torneio internacional depois de 18 anos. Tudo ia bem.

Ia. Logo no primeiro jogo oficial, a estréia no campeonato paranaense, derrota para o Iraty, de Paulo Campos. Ali apareciam os primeiros erros estratégicos do Coxa: contratações apressadas, avaliações desastradas (o meia Eder e o lateral Tesser, que virou titular e fez com que a diretoria liberasse em definitivo Reginaldo Araújo) e a indecisão de Antônio Lopes. Esses problemas ficaram escancarados na goleada imposta pelo Sporting Cristal logo na primeira rodada da Libertadores. A derrota por 4×1 teve como "destaques" a escalação de Esmerode, jogador indicado pelo empresário Juan Figger, e de Adriano na lateral-direita. O desastre fez o Delegado mudar seus conceitos e se não salvou o ano, pelo menos salvou o Paranaense.

Dali em diante, o Coritiba não perdeu mais no campeonato estadual, e teve apenas mais uma derrota na competição continental, para o Rosario, na Argentina. A Libertadores estava perdida, apesar dos oito pontos conquistados em quatro partidas. Mas o Paranaense ainda não, e contando com a estréia de Aristizábal (apenas na metade de fevereiro) e a chegada de Tuta, o time cresceu e conseguiu chegar à final com o Atlético, invicto e considerado o grande favorito.

Na decisão, prevaleceu a excelência técnica do "trio de ouro" coxa e a malandragem de Antônio Lopes, que levou vantagem contra Mário Sérgio. O Cori venceu a primeira partida, no Couto Pereira, por 2×1, com um golaço de Luís Mário, e foi à Baixada precisando de um empate. No melhor jogo do futebol paranaense em 2004, o Rubro-Negro esteve duas vezes na frente do placar, mas Adriano – o melhor em campo -, Jucemar e Tuta, que marcou dois gols, foram os heróis da conquista alviverde, o primeiro bicampeonato desde 1978/79. Era o dia da glória, o grande dia do Coritiba na temporada.

Falhas e fracasso no Brasileiro

Estava tudo certo com Jucemar, o Cori descobrira um lateral que marcava, apoiava e chutava em gol com rara eficiência. Miranda e Reginaldo Nascimento se acertaram na defesa, e Adriano voltara a jogar o futebol que o levara (e levou de novo) à seleção brasileira. Ataliba, Márcio Egídio formavam uma dupla de cães de guarda (até mesmo a refrega entre o treinador e o volante Roberto Brum – ver matéria – foi esquecida) para que Capixaba pudesse criar jogadas para Tuta, Ari e Luís Mário. De criticado, Antônio Lopes passou a "estrategista".

Este foi o início do campeonato brasileiro para o Coritiba. Da maneira mais comum no futebol, tudo que se contestara anteriormente agora era valorizado. E o clube acabou esquecendo dos problemas estruturais a falta de reservas à altura (e às vezes até de titulares), a crise física que seguiu até o final do ano, a escassez de qualidade técnica, o imobilismo tático, a falta de unidade no comando. Com tantas dificuldades internas, era natural que o Coxa fosse uma equipe irregular, e esta irregularidade foi decisiva para a 12.ª posição no final da competição.

Por várias vezes parecia que o Cori conseguiria embalar no Brasileiro. O início invicto teve como seqüência uma série de sete jogos sem vitória jejum só quebrado com a vitória de 1×0 sobre o São Caetano. Poucos imaginavam que aquela seria a última partida em que o "trio de ouro" jogaria junto. Luís Mário, dias depois, aceitou uma proposta do Vitória de Guimarães e foi para Portugal. Na mesma época, foram embora Igor, Rodrigo Batatinha e Danilo. E o elenco, que já era restrito, ficava ainda mais.

Mas apareceram dois novos jogadores no CT da Graciosa. Com moral no Rio Grande do Sul, Cléber seria a solução no meio-de-campo. E Alemão chegou para se transformar no mais imprevisível jogador do futebol paranaense. Com eles no time titular, o Coxa cresceu de novo, vencendo Cruzeiro e Vasco fora de casa. Em doze partidas, apenas uma derrota, para o então líder Santos e vitórias consistentes sobre Criciúma, Goiás e Flamengo. E, para animar ainda mais, Alemão virava ídolo, marcando até gol de bicicleta contra o Botafogo.

Recuperado e já entre os dez primeiros, o Coritiba chegou ao Atletiba (o Atlético já era o vice-líder) com a chance de entrar de vez na disputa por uma vaga na Libertadores e muitos ainda falavam em lutar pelo título. Aí entrou Washington, marcando o gol da virada atleticana e destroçando os planos alviverdes. Daquele jogo em diante, por mais que o time conseguisse bons resultados, como as vitórias sobre São Paulo e Ponte Preta, o time não conseguiria mais passar da 10.ª posição. E, pior, em uma queda gradual até a estabilização no meio da tabela.

A torcida abandonara o Cori e não aceitava mais Antônio Lopes no comando técnico. Por causa dele, e também para tentar "evitar" o título do Atlético, muitos torceram contra o time na partida contra o Santos, jogo que marcou a melancólica despedida de Aristizábal, que começou entre os reservas, jogou onze minutos e foi expulso. Faixas eram estendidas contra o Delegado, que aceitava os golpes e mandava os contragolpes, com vitórias e boas atuações no final do Brasileiro. Estes bons jogos, e principalmente a recuperação de Reginaldo Vital (que "reapareceu" para o futebol paranaense), revelação de Miranda, Márcio Egídio e Rafinha e a afirmação de Ricardo todos destaques do time júnior, quarto colocado na Copa São Paulo – servem como estímulos para o novo Coritiba, que terá Marquinhos como estrela e o mesmo Antônio Lopes como treinador. E com a expectativa de um 2005 bem melhor que 2004.

Várias crises rondaram o Alto da Glória

Há muito o Coritiba não sofria com problemas de bastidores como em 2004. Dirigentes, comissão técnica, jogadores e torcedores tiveram várias "batalhas", pontilhadas por momentos em que o clube teve que se mobilizar para não ter problemas graves com a Justiça Desportiva. Por conta disso, o Coxa termina a temporada com uma cara diferente do início.

Na metade do Brasileiro, a queda de braço entre o presidente Giovani Gionédis e o então vice, Domingos Moro chegou ao ápice. Após manifestações contestatórias de ambos os lados, Moro renunciou e se "asilou" no Rio de Janeiro, tornando-se consultor jurídico da Federação Paranaense. Ao contrário do que prometera, ele saiu sem fazer declarações, preferindo manter-se distante do dia-a-dia coxa. A saída fez com que Gionédis assumisse o comando pleno do Coritiba.

De caráter atirado, sem medir palavras, o presidente entrou em duas crises no ano. A primeira foi o bafafá envolvendo o Coxa e o Rio Branco, em uma briga que envolveu até o prefeito de Paranaguá Mário Roque. Os alviverdes foram agredidos nas cadeiras e na entrada do vestiário a confusão começou após a expulsão de Aristizábal. Gionédis e Roque trocaram farpas, e o mandatário coxa entrou com um processo por calúnia, injúria e difamação contra o prefeito.

Próximo ao final do Brasileiro, Giovani Gionédis acabou criticando o centroavante Tuta com veemência. "Não é o Antônio Lopes que perde gols. Se alguém tem que sair, que saia o Tuta, que errou um pênalti", atirou, logo após a derrota para o Vasco. Depois, o presidente coxa refez o pensamento, mas o estrago estava feito o jogador nem quis saber de conversas sobre renovação. "Eu queria fazer uma defesa do Antônio Lopes", ressalvou.

E este foi o grande trabalho de Gionédis no ano. Ele tornou-se o fiador do Delegado até mesmo dentro da diretoria (este foi um dos pontos de atrito com Domingos Moro). Depois, foi a vez de segurar o rojão de Lopes em sua briga com a torcida, que pediu a demissão do treinador. "O técnico do Coritiba até o final do meu mandato é o Antônio Lopes", garantiu o presidente, que desdenhou as reclamações dos torcedores.

Entretanto, na briga entre Antônio Lopes e Roberto Brum, Gionédis não se meteu a não ser para respaldar o treinador. Brum, insatisfeito com a reserva, entrou em rota de colisão com o Delegado, que acabou afastando-o. "Não vou manter um desequilibrado no elenco", atirou Lopes. "Eu segurei um complô que estava sendo montado para derrubar ele", retrucou o Senador. O volante ficou de fora da reta final do paranaense e de dez rodadas do Brasileiro. O retorno se deu após situações constrangedoras, como a pressão de Domingos Moro para que Brum pedisse desculpas publicamente, em pleno jantar alusivo ao bicampeonato estadual. O pedido aconteceu internamente, foi aceito e ele passou a ser um dos "queridinhos" do técnico.

Domingos Moro foi mais eficiente nos tribunais. Ele "salvou" Aristizábal de uma punição pesada em Curitiba, e depois recuperou seis pontos para o Coxa, que tinha sido punido por causa de irregularidades no contrato de Ataliba. Utilizando atalhos jurídicos e a pressão da imprensa brasileira (principalmente a carioca, insuflada por Antônio Lopes), o então vice-presidente do Cori acabou fazendo com que a temporada da equipe fosse menos frustrante.

Atacantes decepcionam torcida coxa

Se pudesse repensar a temporada 2004 com frieza, e refazê-la por completo, o torcedor do Coritiba iria fazer um único pedido à diretoria: que não trouxesse de novo os "medalhões" Tuta, Luís Mário e Aristizábal. Não que eles não sejam grandes jogadores, ou que não tivessem ajudado na conquista do Paranaense ajudaram muito, por sinal. Só que a esperança depositada na dupla acabou sendo proporcional ao desencanto que eles trouxeram. Após terem chegado como craques, os três tiveram saídas apagadas, cada um por seu motivo. E acabaram se tornando as grandes decepções do Coxa.

Aristizábal foi a maior frustração do Coritiba desde o comando até o mais simples dos torcedores. Contratado a peso de ouro (teria feito um contrato de R$ 1 milhão), Ari chegou como herói, vindo do campeão brasileiro e com moral para ser o líder do time na Copa Libertadores. Só que ele ainda estava se recuperando de uma lesão no joelho que, segundo a diretoria do Cruzeiro, tinha sido o motivo da não renovação com o colombiano.

Ele estreou contra a Adap, e logo no primeiro toque um passe de letra. No segundo, o chute para o gol que definiu a partida. No jogo seguinte, a primeira confusão: uma troca de sopapos com o zagueiro Tiago Soler e a expulsão contra o Rio Branco. Dias depois, foi protagonista de uma histórica sessão no TJD, na qual a atuação do então vice-presidente coxa Domingos Moro foi decisiva para a absolvição do colombiano, que corria o risco de pegar 540 dias de suspensão.

Entre estes problemas, a presença dele não conseguiu salvar o Coxa da eliminação na Libertadores. Seu grande momento foi o mesmo do Coxa o gol e as boas atuações na final do Paranaense contra o Atlético. Só que Aristizábal não conseguia manter uma seqüência de jogos, e não era o craque decisivo que o time esperava. E precisava.