Numa cidade que espanta pelos engarrafamentos infinitos entupindo suas ruas e avenidas, a beleza às vezes se esconde debaixo da terra.

O metrô de Moscou, um dos maiores e mais antigos do planeta, não é só o meio mais rápido de atravessar o caos moscovita. É também o mais deslumbrante deles sem dúvida.

Essa rede subterrânea que transporta 9 milhões de pessoas num dia qualquer e, nas próximas semanas, deve se tornar a salvação dos torcedores rumo aos estádios da Copa do Mundo na capital russa ganhou o -propício- apelido de palácio do povo quando abriu as primeiras estações, em 1935.

Seus lustres de cristal, colunas e pisos de mármore, mosaicos de cerâmica, esculturas de bronze e detalhes de aço e ouro dão respaldo à fama.

O delírio de construir esses templos de luxo, glamour e riqueza escondidos debaixo da terra partiu da cabeça de Josef Stálin, o mais sanguinário dos líderes soviéticos, que comandou o país por mais de três décadas, dos anos 1920 aos 1950.

“Foi absurdo construir isso tudo nos subsolos da cidade”, diz o historiador Nikolai Molok, um estudioso da arquitetura de Moscou. “O paraíso ali foi parar no lugar do inferno.”

Stálin, uma das maiores forças políticas por trás das formas que dominam o skyline e o subsolo da metrópole russa, impôs mesmo o inferno aos que discordavam de sua noção do paraíso, mandando milhões à morte nos campos soviéticos de trabalho forçado.

Mas o avesso de seus gulags estava bem debaixo dos pés do povo. As estações do metrô de Moscou, que celebram coisas mais abstratas, como o futurismo e a eletricidade, e versões heroicas de gente de carne e osso, como os camponeses, músicos e operários, resumem a sua filosofia política.

“O metrô foi um dos maiores acontecimentos da União Soviética”, diz Molok. “Foi uma questão política. Stálin queria mostrar o poder do comunismo e do modo de vida socialista, por isso mandou retomar o estilo triunfante dos romanos, da era imperial russa e das conquistas napoleônicas.”

Nesse ponto, toda essa arquitetura subterrânea stalinista trouxe de volta os excessos barrocos dos palácios dos czares, numa improvável manobra estética para celebrar as glórias de seu proletariado.

Também improvável é a outra inspiração por trás de seus arroubos de grandeza. Stálin via os arranha-céus que então pareciam brotar da terra em Nova York, a meca do capitalismo, como sinal da pujança que ele pensava poder atingir com o socialismo soviético.

Enquanto o metrô remete aos interiores da aristocracia, as Sete Irmãs, como são chamadas as sete grandes torres que espetam os céus de Moscou erguidas na era do ditador, têm como matriz o Empire State Building nova-iorquino.

Foi a grande antítese da austeridade estética do construtivismo surgido na Revolução Russa de 1917, anos antes de Stálin assumir o poder. A visão de mundo do ditador soterrou, em nome do luxo desmedido, a vanguarda de formas geométricas e poucas cores pensada como a primeira bandeira visual do socialismo.

“O metrô se tornou um verdadeiro palácio”, diz Tatiana Ponka, historiadora da Universidade Russa da Amizade dos Povos, em Moscou. “Era para que milhões de soviéticos que passassem por ali ganhassem conhecimento da cultura e sentissem orgulho do país.”

Mas esses sentimentos mudaram com o tempo. Mesmo não morrendo de amores pelo passado soviético, as novas gerações de russos sentem nostalgia por uma época em que o futuro ainda parecia glorioso.

E o melhor exemplo desse sonho futurista é a Maiakovskaia. Quando foi inaugurada em 1938, essa estação moscovita 33 metros abaixo da rua era a mais profunda de todas as redes de metrô do planeta.

Seus arcos de aço inoxidável em estilo art déco também são um aceno ao fato de sua estrutura ser toda metálica, outra inovação para aquela época.

Quem olha para cima ainda vê 34 mosaicos de cerâmica celebrando os feitos tecnológicos dos soviéticos, com dirigíveis, aviões de guerra e seus paraquedistas em pleno voo.

O tema bélico depois faria mais sentido do que nunca. Durante a Segunda Guerra, Stálin usou a estação de bunker e fez um famoso discurso ali enquanto os nazistas bombardeavam Moscou de cima.

No fim do conflito, o ditador celebrou a vitória dos soviéticos sobre os alemães no desenho da Komsomolskaia, a mais movimentada das estações da cidade, toda em estilo barroco com lustres gigantes.

“Foi a apoteose do estilo imperial de Stálin”, diz Ponka, a historiadora. “Ela tem toda a pompa e a grandiosidade do classicismo, juntando elementos que glorificariam a vitória.”

O mesmo arquiteto, Alexei Dushkin, um dos heróis da estética soviética, desenhou todas essas estações e fez ainda a parada Novoslobodskaia, outra das mais impressionantes do metrô moscovita, com vitrais coloridos que lembram janelas de uma catedral gótica.

Juntas no centro de Moscou, essas estações ilustram a grandiosidade de um projeto ferroviário que atravessou décadas. Mas o metrô moscovita, hoje o sétimo maior do mundo em extensão, com 365 km de trilhos e 212 paradas, ainda não cobre toda a crescente malha urbana da capital da Rússia.

Nos últimos anos, também em preparação para a Copa, a rede vem passando por um ambicioso processo de expansão, prevendo abrir uma centena de estações até 2020, um aumento de 200 km de trilhos que deve fazer o metrô moscovita ultrapassar o tamanho dos de Londres e Nova York.

Os números impressionariam Stálin, mas a estética das novas paradas deixaria a desejar. Sem lustres, mosaicos e colunas de mármore, elas têm pisos de concreto e elementos metálicos, mais próximas da estética corporativa do que do luxo dos palácios, embora também sejam para o povo.