Hugo Lloris, 31, estava de férias na Córsega, ilha italiana do mar Mediterrâneo, quando ouviu sobre o atentado terrorista em Nice reivindicado pelo Estado Islâmico, em julho de 2016. Um motorista com nacionalidades francesa e tunisiana havia matado 84 pessoas com um caminhão.

“Nice é a minha cidade. Eu tinha de voltar para casa”, disse Lloris.

No dia seguinte, ele estava no local do acidente, pagando respeito às vítimas.

Era um senso de dever do capitão da seleção francesa, o líder da equipe nos treinos em Istra e nos jogos na Copa do Mundo de 2018. O mesmo sentimento de obrigação que faz Lloris usar uma braçadeira que nunca quis. Na sexta-feira (6), será o primeiro do time a entrar em campo nas quartas de final do torneio, contra o Uruguai, em Nijni Novgorod.

Se esse papel de referência da seleção passar desapercebido, melhor para Lloris. Ele não faz o tipo de jogador chamativo. Ainda mais em um elenco que tem as velocidades e a ofensividade de Pogba, Griezmann e Mbappé, todos atletas que fazem gols e são bem mais extrovertidos e usuários de redes sociais do que o goleiro do Tottenham Hotspur (ING).

“Lloris é um goleiro que quase nunca falha”, observou Diego Maradona antes da partida em que os franceses mandaram os argentinos para casa.

É uma afirmação perigosa para qualquer jogador de posição em que a avaliação pode ser mudada em uma jogada a cada 90 minutos. Lloris viu pela televisão Caballero, que também era visto como uma calma influência na Argentina, ser crucificado por falhar em lance que deu à Croácia o primeiro gol. Mas é por motivos como esses que o treinador Didier Deschamps decidiu quem seria o capitão. Jogando bem ou mal (e quase sempre é bem) O francês é uma influência positiva sobre os mais jovens.

“Não foi uma escolha minha [usar a braçadeira]. O técnico decidiu. Para mim, é natural. Eu passei por várias coisas na seleção e várias delas não foram fáceis”, disse.

Lloris estava no elenco quando a seleção se desintegrou durante a Copa na África do Sul em 2010. Os jogadores fizeram um motim e se recusaram a treinar no meio da competição porque o técnico Raymond Domenech havia cortado o atacante Nicolas Anelka. Jornais do país chamaram o grupo de “a escória do futebol francês”. Finalista em 2006, a seleção foi eliminada na fase de grupos quatro anos depois sem ganhar nenhuma partida.

O goleiro tinha 23 anos e estava em sua primeira Copa. Hoje ele diz que o episódio foi uma “estupidez” e poderia ter sido evitado. A experiência o ensinou.

A partida contra o Peru, pela segunda rodada do Mundial deste ano, foi a 100ª de Lloris pela seleção francesa.

Deschamps já disse que o trabalho de liderança do goleiro sobre o elenco não se resume ao tempo em que a seleção está junta em Istra. É um trabalho permanente. Por isso que Lloris já insinuou publicamente que Pogba precisa crescer e ser pela seleção o protagonista que o seu talento permite. Também se queixou que as negociações de Griezmann para sair ou não do Atlético de Madri (ESP) —o atacante decidiu permanecer— tinham de ficar fora do ambiente da seleção. E que Mbappé não podia dar ouvidos aos que queriam colocá-lo precocemente como melhor do mundo. Ele deveria mostrar isso na Rússia.

“Paul [Pogba] tem o desejo de brilhar. Mas o que nós esperamos é que ele assuma a liderança na seleção dentro e fora de campo. Ele está maduro e precisa liderar pelo exemplo. Tem de estar focado em suas performances”, cobrou.

O capitão quer que Pogba, um dos jogadores mais caros do mundo, assuma um pouco do papel que hoje é Lloris. Mais um indício de que ele não faz tanta questão assim de estar sob os holofotes. Ele tem aversão ao que pensam sobre o seu trabalho e o papel que desempenha na França. A tragédia em Nice o ensinou que existem coisas muito mais importantes na vida do que um jogo, mesmo que seja de Copa do Mundo.

“Eu não me importo [com o que dizem]. Depois de um jogo, eu sei o que fiz bem e o que poderia melhorar. Não preciso que ninguém me diga. Sei que fiz.”