Um dos vários pavilhões do VDNKh, sigla pela qual é conhecido o enorme conjunto de monumentos e museus inaugurado às vésperas da Segunda Guerra para celebrar as realizações da URSS, abriga uma bela exposição sobre um universo em que ela jamais atingiu o nível de superpotência: o futebol.

O complexo reúne dezenas de prédios, parques recreativos e, na melhor estética do realismo socialista, enormes esculturas de operários, soldados, camponesas e cosmonautas, mais tratores, naves espaciais e uma impressionante fonte que lança jatos d’água a 24 metros de altura.

Algumas dessas construções parecem mausoléus. Em uma delas foi montada a mostra “Por que a Bola é Redonda e o Campo é Plano”, frase que russos usam para dizer que as regras do jogo são, em tese, iguais para os dois lados.

Nem sempre foi bem assim. Eles ainda se queixam que árbitros prejudicaram seleções da URSS e da Rússia em suas dez participações em Copas. Haveria motivos. Como a Fifa não é a ONU, faltava ao time da foice e martelo o poderio do Kremlin na política.

Ao lado de exageros e teorias conspiratórias, houve ao menos três erros comprovados.

Em 1970, no México, contra o Uruguai, pelas quartas, a três minutos do final da prorrogação, Cubillas puxou uma bola que tinha saído pela linha de fundo e cruzou para Espárrago marcar o gol da vitória. Antes, o árbitro holandês havia anulado um gol dos soviéticos.

Em 1982, na Espanha, com a URSS ganhando do Brasil por 1 a 0, Luizinho cometeu dois pênaltis, não assinalados pelo árbitro espanhol. A seleção brasileira viraria o placar.

Em 1986, outra vez no México, a URSS perdeu para a Bélgica por 4 a 3, na prorrogação, depois de sofrer dois gols irregulares em que o árbitro sueco não deu impedimento.

Para o historiador russo Sergey Bondarenko, nunca houve uma articulação anticomunista premeditada para prejudicar seu país.

“Os árbitros ocidentais eram influenciados pela Guerra Fria, mas erros mesmo só aconteceram contra o Uruguai e a Bélgica”, disse.

A exposição vai até 7 de outubro. Ao percorrer o pavilhão, encontra-se um rico conjunto que reúne cartazes, livros, fotografias, filmes e objetos de colecionadores desde que o futebol foi jogado pela primeira vez na Rússia, em 1897.

O acervo concentra-se no período comunista, em especial nos anos 1940 e 1950, quando grandes imagens de Lênin e Stálin dividiam espaço com o público nas arquibancadas e a propaganda do regime exaltava os feitos dos atletas.