Ter seu próprio DVD ou vídeo em páginas de internet se tornou necessidade entre jogadores de futebol. Em clubes menos estruturados, as imagens desses materiais chegam a competir com olheiros e peneiradas na hora de contratações. No entanto, esse cartão de visitas – que também tem seu lado honesto – está sendo utilizado para trapacear no mundo da bola.
No futebol paranaense, o assédio de empresários de atletas contra dirigentes é constante. Pessoas ligadas ao dia-a-dia de diversos clubes afirmam que são cada vez mais comuns as ofertas de propinas pela escalação de determinados jogadores. Basta a divulgação de televisionamento de partidas contra times de maior tradição para que os telefones comecem a tocar.
É a forma de criar grife em determinado atleta a partir da edição de um vídeo. “Já recebi e não aceitei proposta de R$ 5 mil para pedir ao treinador que colocasse determinado jogador em campo contra o Coritiba. Esse tipo de jogo agrega valor ao vídeo do jogador na hora de negociação”, confirma o presidente do Engenheiro Beltrão, Luiz Linhares.
Os técnicos também são assediados. “Isso (de empresário pedir escalação) ocorre mesmo”, disse um treinador de time paranaense, pedindo anonimato. Em alguns casos, porém, os treinadores são “sócios” de empresários e jogadores. Chegam a avaliar quem joga, pensando na edição de bons vídeos. “Infelizmente fica difícil monitorar, e principalmente comprovar, algum tipo de negociação por fora”, completa Linhares.
A marcação de jogos-treino também faz parte do esquema de valorização de determinado atleta em seu vídeo. Dirigentes afirmam que se faz uma espécie de acordo para utilização de uniformes oficiais, ao invés dos convencionais. “Então, o empresário coloca alguém pra filmar e pede que se feche o ângulo das imagens”, explica Linhares. “No vídeo editado, dá impressão de ser uma partida oficial. A diferença é que nesse tipo de partida tem menos pegada, o que facilita melhores jogadas para serem editadas nos melhores momentos”, acrescenta o presidente do Engenheiro Beltrão.
Dublês fazem parte do mercado
São inúmeras as empresas de filmagem e edição de vídeos de futebol espalhadas pelo Brasil. Basta uma procura rápida na internet para descobrir diversos tipos de ofertas que oferecem o serviço de um vídeo em DVD ou página pessoal.
As edições geralmente são feitas a partir dos melhores momentos gravados por clubes ou transmitidos pela TV. Porém, quem não tiver contra quem jogar pode receber o auxílio de “dublês”. Algumas empresas chegam a organizar “amistosos” mesclando um futuro craque de DVD com jogadores próprios. E, mesmo que vá mal, a pessoa tem a promessa de que não será substituída enquanto a bola estiver rolando.
Depois do teste, mesmo que não aprovado pela comissão técnica para atuar com empresários ligados à “peneirada”, o pretendente a atleta tem um consolo: vai voltar para casa com carteira de jogador feita pela empresa, além de DVD em mãos. Outro tipo de oferta aos jogadores é a distribuição das filmagens para empresários e clubes parceiros. Inclusive o Londrina, que no passado já chegou a ser campeão paranaense, aparece em uma das listas de equipes que aceitam contratar “jogador de DVD”. (FL)

Trio de Ferro precavido contra golpes
Atlético, Coritiba e Paraná são clubes com departamentos de futebol estruturados. No entanto, também recebem e acompanham diariamente vídeos de jogadores de variadas partes do Brasil.
Apenas nas categorias de base do Furacão são enviados em média sete DVDs por mês. O mesmo número de e-mails com vídeos de jogadores chegam at&eac,ute; o CT do Caju diariamente. Coritiba e Paraná não se manifestaram até o fechamento da edição.
Para evitar esse tipo de problemas, conforme explica o coordenador do Núcleo Futebol & Sociedade da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Luiz Carlos Ribeiro, os clubes da capital são obrigados a tomar algumas precauções. “Isso (veiculação de vídeos e DVDs como forma de exposição e futura contratação) até existe como ponto de partida. Mas quando algum o clube manifesta interesse, o contato se dá a partir de um olheiro ou agente FIFA local”, ressalta.
De acordo com o coordenador de captação do Furacão, Erasmo Damiani, são diversas a tentativas de enganar os clubes no conto do DVD. “Tem jogador ou empresário que chega e fala que passou, por exemplo, pelo Palmeiras. Mas na verdade esse atleta estava em período de avaliação”, explica.
“Ainda assim, não deixamos de analisar nenhum DVD ou vídeo postado na internet. Se acharmos que um jogador pode realmente se destacar, entramos em contato por telefone e pré-agendamos um período de testes”, finaliza o coordenador atleticano. (FL)
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Rafinha
O paranaense Rafhael Domingues e o paulista Vítor Flora têm algo em comum. Além de atacantes, ambos utilizaram vídeos publicados na internet para chegar à Europa. Rafinha, revelado pelo Toledo, é descendente de europeus e conseguiu convocação para a seleção da Áustria sub-18, depois de montar um perfil em uma rede social da internet. Já Vítor jogava no Botafogo de Ribeirão Preto, quando em 2007 seu perfil no youtube despertou interesse no Liverpool, que o contratou no ano seguinte. Recentemente, Rafinha chegou a balançar as redes em amistosos da seleção austríaca pela Europa, enquanto Vítor Flora foi emprestado ao Goiás.
Jean Chera
Um dos primeiros talentos “descobertos” depois da postagem de vídeos na internet surgiu em Campo Mourão, no interior do Paraná. Trata-se do garoto Jean Chera, hoje uma das grandes promessas no Santos, indicado como provável sucessor de Neymar e Paulo Henrique Ganso. O menino teve seu bom manejo com a bola reconhecido em 2004. Ele tinha apenas 9 anos e seu pai enviou diversas fitas de vídeo com seus dribles e jogadas para clubes de todo Brasil. Uma dessas fitas caiu na mão de Adílson Batista, então proprietário da Adap de Campo Mourão. Rapidamente os vídeos foram colocados pelo empresário na internet, despertando interesse de times europeus e de todo Brasil.
Gente séria
| Allan Costa Pinto |
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| Douglas Macedo de Pádua trabalha há um ano com edição de vídeos de jogadores. |
Douglas Macedo de Pádua, 23 anos, há cerca de um ano trabalha na edição de vídeos e gravação de DVDs para jogadores de futebol. Percebeu que a prática também pode ser realizada de forma honesta e viu nela um mercado em ascensão, chegando a investir pouco mais de R$ 7 mil em equipamentos. Em um bate-papo com a Tribuna, ele explica quais são os procedimentos mais usados para o exercício do ofício.
Como começou?
Eu trabalhava com análise tática e tinha conhecimento em edição. Uma agência de atletas me procurou para saber se eu tinha interesse em montar um DVD para eles. Depois disso, passei a atender outras pessoas e clientes.
Como funciona a edição do vídeo?
Geralmente, os jogadores trazem os vídeos de jogos ou então eu vou atrás do material em empresas de clipping ou a partir de uma rede de contatos.
Você posta os vídeos na internet?
Coloco quando pedem. Se o empresário ou o jogador tem página no youtube, eu acrescento.
Quais os requisitos para um bom DVD?
No mínimo 10 jogos completos, para editar um material de qualidade e separar os lances. Coisa curta e objetiva, que mostre o verdadeiro perfil do jogador sem cansar quem está assistindo.
Como montar um bom DVD?
Como um currículo bem feito, ,com títulos, carreira, informações pessoais. No mercado europeu, por exemplo, se leva muito em consideração dados corretos de peso, altura e idade. Também não se pode esquecer de acrescentar algumas fotos, para mostrar quem é o jogador que deve ser identificado por quem assistir o vídeo.
Qual o perfil de quem te procura?
Quem mais tem me procurado são os empresários. Mas já fiz de jogadores profissionais, de base e até de futebol amador.




