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Com projeto social, Barrichello usa o kart para inspirar crianças carentes

  • Por Estadão Conteúdo

Desde pequeno, Rodrigo gostava de ver Fórmula 1. Essa era a parte boa de sua infância. A parte ruim era que seu pai bebia e ficava violento. Uma vez, avançou com uma faca para cima dele, do irmão e da mãe, dona Rosana. Depois de três boletins de ocorrência na Delegacia da Mulher, ela decidiu se separar. Hoje, ela é auxiliar de serviços gerais. Aos sábados, é diarista e completa a renda vendendo bolos no pote. Rodrigo encontrou no kart uma maneira de se reequilibrar após o divórcio dos pais.

Histórias como a de Rodrigo são comuns nas aulas oferecidas pelo Instituto Família Barrichello, no Kartódromo Granja Viana, em São Paulo. Famílias de baixa renda são o foco do programa IBKart, uma das inúmeras iniciativas da entidade, que aposta no esporte como uma oportunidade de mudança social. Os alunos são escolhidos por meio de parcerias com o Centro de Referência da Assistência Social de Cotia e o projeto Âncora, comunidade de aprendizagem da região. São atendidos 90 alunos por ano.

O diretor William Oliveira explica que as aulas vão além da pilotagem e ensinam lições éticas, como ajudar o companheiro e pensar mais na equipe do que no lado individual. Elas se apoiam em uma metáfora: guiar um carro numa pista é como pilotar a própria vida. Como numa corrida, é preciso conhecer as curvas, planejar seu percurso, frear e ser firme ao volante. A aluna Kaylane Kalyan ouve atenta, com os olhos arregalados. Entendeu o recado. “Quando estou no kart, eu consigo fazer coisas legais”, explica o colega Caíque Luna.

O Estado visitou a aula da última segunda-feira. Dezessete crianças contavam os minutos para o início. Capacete, macacão e equipamentos de proteção são colocados num zás-trás. Com só 9 anos, toda miudinha, Wandra Lima quase desaparece no capacete azul. Meninos e meninas pilotam de verdade máquinas que atingem 70 km/h. Nas primeiras aulas, só aceleram e freiam em uma pista restrita. Depois, pé em baixo. “Nossa função é controlar para que não acelerem muito”, conta o professor Giuliano Raucci.

Antes da pista, eles começam a sentir a adrenalina em aulas de skate. É o primeiro passo. O curso também tem oficinas de roda, em que fazem seus próprios brinquedos. “Quem vai bem no skate é chamado para o kart”, conta a coordenadora Cibele Barzaghi. “Observamos comprometimento, participação, responsabilidade, autonomia”, diz.

O foco não é descobrir talentos para o automobilismo. O objetivo é criar a chance para as crianças experimentarem a velocidade. “O carro de corrida mexe com o sonho das crianças. Pensamos em um projeto que envolvesse o kart, mas sempre como ferramenta de desenvolvimento”, diz Rubinho. “No kart, assim como em todas as outras atividades que fazemos no Instituto, o esporte é o meio, a ferramenta de educação e desenvolvimento humano que está presente em 14 núcleos de atendimento para crianças e idosos.”

Mesmo assim, três adolescentes que passaram pelo projeto recentemente começaram a pilotar no programa competitivo do kartódromo, como uma espécie de segundo degrau na modalidade. Participam de competições locais. Esse é o sonho de Rodrigo, aquele que está superando a separação dos pais.

O ESPORTE É CARO – Aulas como esta, oferecidas gratuitamente, custam R$ 200 no mercado. Um final de semana de competição fica em média R$ 10 mil. Hoje, o projeto de Rubinho conta com o apoio da Blau Farmacêutica e Ticket Log, via Lei de Incentivo ao Esporte. O kartódromo faz um preço camarada no aluguel para as aulas. O desafio do projeto é atrair patrocínio.

As aulas de kart são apenas uma parcela da atuação da entidade criada por Rubinho em 2005 e que hoje possui nove projetos voltados para o desenvolvimento humano e qualidade de vida. O público-alvo são crianças, adolescentes, jovens e idosos. Atualmente, são beneficiadas 1.900 pessoas em 18 comunidades em São Paulo. O projeto Viver Melhor, por exemplo, ajuda idosos a melhorar seu condicionamento físico.

Em outra vertente, crianças e adolescentes da região de Marsilac, Parelheiros e Barragem, região vulnerável no extremo sul da cidade, contam com o apoio de assistentes sociais e educadores para praticar esporte.

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