“No Brasil as pessoas gostam de terminar as coisas em cima da hora”. O que deveria ser uma crítica, feita pelo presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI), Thomas Bach, foi aceita com naturalidade. Hoje, dia histórico para o esporte mundial, início da Olimpíada do Rio de Janeiro, ainda se vê muita coisa a ser feita tanto na cidade quanto nos aparelhos esportivos. Um defeito tipicamente brasileiro que mancha a organização do evento (como foi na Copa do Mundo em 2014), mas que talvez fique em segundo plano diante da grandiosidade dos Jogos, que terão sua abertura às 20h, no Maracanã, em festa dirigida pelo cineasta Fernando Meirelles e pelo carnavalesco Paulo Barros – nada mais Brasil.

A festa e a Olimpíada estão cercadas de muita expectativa. Primeiro, pela possibilidade de dar errado. O revezamento da tocha olímpica foi repleto de tentativas de apagar a chama. Por conta da crise política e econômica, os Jogos Olímpicos foram transformados em possibilidade de ações políticas – contra o governo eleito e contra o governo interino. Todos os ex-presidentes convidados para a cerimônia se recusaram, e por isso apenas o presidente Michel Temer estará lá. E a organização dos Jogos está tentando criar formas de ele não ser vaiado quando for discursar. Há o medo do vírus da zika, há o medo do terrorismo, há o medo de problemas de segurança pública, há o medo do poder do tráfico, há o medo do colapso financeiro do Rio de Janeiro travar a logística dos jogos, há o medo do trânsito atrapalhar as provas. Há muito medo.

Mas há muita expectativa. Aos poucos, Rio de Janeiro e Brasil foram entrando no clima dos Jogos. Em algumas cidades, realmente o passeio da tocha olímpica empolgou a população. A chegada das delegações e dos turistas deu à cidade-sede um ambiente bem mais animado. Gustavo Kuerten deve entrar no Maracanã com a tocha, devendo ser ovacionado. A quase certa escolha de Pelé como o responsável por acender a pira na cerimônia faz jus ao Atleta do Século. E megaestrelas do esporte estão presentes para lutar por medalhas – Novak Djokovic, Kevin Durant, Teddy Riner, Neymar, Rafael Nadal, Kerri Walsh, Robert Scheidt e principalmente Usain Bolt e Michael Phelps. Os aparelhos olímpicos ficaram muito bonitos, especialmente as arenas de basquete e handebol, o estádio de tênis e o parque radical.

Sim, esses Jogos são os jogos dos estádios superfaturados, das obras atrasadas, das intervenções desastradas (para que outro estádio de natação? Qual a razão de destruir o autódromo de Jacarepaguá?), da luta para aparecer (Lula, Dilma, Sérgio Cabral, Eduardo Paes, Temer, Carlos Arthur Nuzman), das críticas generalizadas, da ausência de ídolos (LeBron James, Rory McIlroy, Roger Federer, César Cielo) e do gasto desenfreado do dinheiro público.

Mas os Jogos são uma chance de darmos uma atenção especial a comunidades cariocas que estavam esquecidas, da implantação de equipamentos públicos que eram muito necessários, de uma entrada de recursos muito grande em momento de crise e, claro, a oportunidade de ver mais um evento planetário no País. É a esperança de que seja uma Olimpíada incrível contrastando com o medo do fracasso. E, como disseram um dia, que a esperança vença o medo.