A Fifa vai ter de mudar a forma de escolher uma sede para a Copa do Mundo e mesmo a lista de exigências depois da experiência vivida no Brasil. O alerta é de Jérôme Champagne, candidato à presidência da Fifa nas eleições em 2015 e que por onze anos trabalhou ao lado do presidente Joseph Blatter na entidade. Diplomata de carreira, o francês, que foi um dos organizadores da Copa de 1998, insiste que a hora de falar dos culpados pelos atrasos no Brasil e pelo caos virá. Mas, agora, os esforços devem estar concentrados em salvar o evento. “O que está em jogo é a imagem do Brasil”, disse.

Falando português fluente, com um filho candango e tendo trabalhado na Embaixada da França em Brasília, ele diz que a Fifa cometeu erros no Brasil e não pode mais ir pelo mundo exigindo novos aeroportos ou infraestrutura fora dos campos. Mas ele acusa também políticos nacionais de fazer “demagogia” e culpar a Fifa por problemas que eram deles. A seguir, os principais trechos da entrevista:

Agência Estado – No Brasil, poucos são contra o futebol. Mas há uma grande rejeição em relação à Copa do Mundo. O que aconteceu?

Jérôme Champagne – O Brasil é uma democracia e entendo, por ter morado no Brasil, que parte do povo ache que é melhor ter hospital que ter estádio. Muitos brasileiros deixaram a classe C e quando as pessoas saem da angustia de não ter teto ou comida, pensam em como usar melhor seus impostos. Para mim, é uma evolução normal. A crítica dos protestos não era contra a Copa. Era contra a maneira como foi organizada a Copa. Hoje, não é a hora de buscar culpados por essa situação. Esse momento virá depois da Copa. Hoje, o tema é fazer todo o possível para que a Copa seja bem organizada. Temos de ter sucesso. O que está em jogo é a imagem do Brasil.

Agência Estado – Mas e depois?

Jérôme Champagne – Depois precisamos analisar porque tivemos os atrasos. Qual é a responsabilidade local, a responsabilidade da Fifa. Depois da Copa, a Fifa terá de repensar sobre como se organiza uma candidatura para a Copa do Mundo, terá de pensar a lista de exigências impostas a um país que queira se candidatar. A Fifa tem a responsabilidade de colocar critérios em estádios e campos de treinamento. Mas também tem de impor modificações em aeroportos? Se você viaja ao Senegal ou ao Japão com sua família, você precisa aceitar as condições…

Agência Estado – Não foi um exagero ter 12 estádios no Brasil para as competições da Copa?

Jérôme Champagne – Isso é um debate. Para organizar uma Copa, a Fifa precisa de oito ou nove estádios. Posso entender que se decidiu construir mais no Brasil. Mas hoje não temos equipe de primeira divisão no Distrito Federal. O que vamos fazer com o estádio em Natal? Temos quatro estádios sem clubes na Série A ou B. Nós precisamos pensar nisso.

Agência Estado – A Fifa errou no Brasil?

Jérôme Champagne – A Fifa poderia ter se comportado e ter se exprimido de maneira diferente com o povo de uma democracia como a do Brasil. É verdade que também existe demagogia, num sistema que respeita calendários eleitorais em nível estadual e de prefeituras. Às vezes, é mais fácil acusar a Fifa que assumir suas responsabilidades. Temos de analisar depois. A Fifa terá de repensar como organizar candidaturas, mas também seu estilo.

Agência Estado – A Copa do Mundo deixará algum legado?

Jérôme Champagne – O de mostrar o que é o Brasil. Todos sabem do samba. Mas o Brasil é muito mais. É um país industrializado e com uma intelectualidade fantástica. O legado é complicado de se calcular. Se calcula os custos em um ano, mas os benefícios serão calculados em 25 anos. Não se pode julgar em apenas seis meses.

Agência Estado – O senhor acredita que os cidadãos devem ser consultados por seus governantes antes que um país se lance como candidato a um mega evento?

Jérôme Champagne – Sou a favor de ter esses eventos em democracias. Em Munique, a população foi consultada sobre organizar Jogos de 2022 e disse não. Na Suíça, também votaram não. A consulta pode ser no Parlamento. O risco é de que não seja mais possível organizar esses eventos nas democracias. Isso é um desafio para a Fifa, Uefa (Union of European Football Associations) e COI (Comitê Olímpico Internacional).