| Foto: Valquir Aureliano |
| Cacá Bueno recebe a bandeirada na chegada da corrida. |
Um carro equilibrado, um piloto consciente. Este pode ser o resumo da corrida de ontem, a sétima etapa da Copa Nextel Stock Car, realizada no anel externo do Autódromo Internacional de Curitiba, em Pinhais.
Cacá Bueno largou em terceiro, subiu para segundo na primeira volta e apenas esperou um erro de Pedro Gomes para tomar a liderança e levá-la até o final, vencendo e chegando aos 107 pontos na classificação, garantindo matematicamente sua classificação ao playoff.
Cacá despontou em uma corrida que foi menos tensa do que o esperado. Os pilotos, talvez percebendo que havia risco nas tentativas de ultrapassagem, diminuíram o ímpeto e não houve tantas confusões. Mesmo assim, sobraram toques, derrapagens e batidas – umas mais leves, outras mais sérias, como a de Thiago Marques. O paranaense saiu na entrada da reta dos boxes e bateu de frente na proteção de pneus. ?Estou bem, mas o braço está doendo?, disse, em entrevista à rádio Transamérica, logo depois do acidente.
No pelotão da frente, poucas brigas. Pedro Gomes largou na ponta e manteve a posição nas primeiras voltas, tendo Cacá Bueno e Ricardo Maurício como segundo e terceiro colocados. Os três dominaram a prova, e teriam maior vantagem no final não fossem as bandeiras amarelas, por causa dos acidentes. A cada entrada do safety car, os carros se reaproximavam e a vantagem que Pedro Gomes tinha desaparecia.
E, ao tentar manter-se na frente, Pedrão acabou tendo problemas com o pneu dianteiro esquerdo, que perdeu pressão. Ele saiu da pista e abriu caminho para Cacá, que a partir dali só administrou a vantagem que tinha para Ricardo Maurício. Marcos Gomes se fixou como terceiro colocado, trazendo com ele Valdeno Brito, que terminou a corrida na quarta colocação.
No segundo pelotão, apareceu o melhor paranaense da prova. Alceu Feldmann, que largou em nono, perdeu tempo nas primeiras voltas, mas partiu para uma tática agressiva – talvez tenha sido o único piloto que conseguiu se dar bem no ataque aos adversários. Foi ultrapassando vários concorrentes e conseguiu chegar na quinta posição, perto de Valdeno Brito. ?Só não ataquei mais para não perder o que eu tinha conquistado?, disse o paranaense.
Além dele, ficaram entre os dez primeiros os locais David Muffato (em sétimo) e os irmãos Rodrigo (nono) e Ricardo Sperafico (décimo). Thiago Marques, Enrique Bernoldi, Ricardo Zonta e Tarso Marques abandonaram a prova.
Playoff
Cacá Bueno, líder, com 107 pontos; Ricardo Maurício, segundo colocado, com 93; Thiago Camilo, terceiro, com 77, e Marcos Gomes, quarto com 57, estão garantidos no playoff. Seis vagas estão abertas, e vinte pilotos ainda continuam na disputa. A próxima etapa da Stock V8 acontece no dia 23, no anel externo do Autódromo Nelson Piquet, em Brasília.
Um novo perfil para o vencedor
Cacá Bueno não é mais aquele. O piloto impetuoso de duas ou três temporadas atrás deu lugar a um piloto sereno, que sabe o momento de atacar ou de ficar na sua. Ele celebrou a vitória de ontem como um triunfo do equilíbrio e da calma – justo na etapa da Copa Nextel Stock Car em que se previam mais acidentes. E pensa agora em confirmar na prova de Brasília a primeira colocação na fase inicial da temporada.
O líder do campeonato admite que fez uma corrida pensada. ?A minha disputa não era com o Pedro (Gomes). A minha preocupação era com o Thiago Camilo e com o Ricardo Maurício, que estavam perto na classificação?, diz. Por isso, ele tomou uma atitude inusitada – durante a prova, fez gestos ?permitindo? que Pedrão abrisse vantagem. ?Não sei se ele viu, mas eu não iria atacá-lo. O meu interesse era manter a posição e conquistar os pontos?, garante.
Isto porque Cacá percebeu que era arriscado demais partir para o ataque. ?Se eu fosse para cima, não teríamos espaço. Não iria tentar uma ultrapassagem e acabar com a minha corrida. Tem gente que faz o ?vale tudo?. Eu prefiro marcar os pontos. Se der para ganhar, ótimo. Se não der, vamos continuar pontuando?, resume o piloto.
E Cacá teve o imponderável a seu lado para conseguir vencer. ?O Pedro, felizmente para mim, teve o problema com o pneu e acabou saindo da pista. Foi tudo ótimo, a equipe esteve maravilhosa, mas se o homem lá em cima não ajuda, eu não teria vencido. Hoje, eu contei com a sorte?, confessa.
Com 107 pontos, ele tem boa vantagem sobre Ricardo Maurício, mas ainda não quer descuidar. ?Eu tenho que ir para Brasília tendo como foco o Ricardinho. Ele ainda pode me passar, e eu quero chegar nesse playoff na primeira colocação?, finaliza Cacá. (CT)
Tudo muito além da velocidade na pista
Não há categoria mais ?endinheirada? no automobilismo brasileiro do que a Stock Car V8. É impressionante a estrutura que o campeonato leva a cada prova – e a resposta se vê no público, que compareceu em massa ao Autódromo Internacional de Curitiba. Torcedores que se dividiam em três estilos: o fã da velocidade, o conhecedor do assunto e o ligado aos patrocinadores.
O fã da velocidade é o que menos aproveita a estrutura da Stock. Afinal, é aquele que comprou o ingresso, que pegou ônibus para chegar ao AIC (ou colocou seu carro em um dos estacionamentos afastados do autódromo), encarou as filas para entrar e, no momento em que a prova principal acabou, voltou para casa para curtir o feriadão com a família.
O conhecedor do assunto chegou mais cedo ainda. Precisava guardar seu lugar dentro do autódromo, pagando o que fosse necessário pelo conforto. Depois, tinha que visitar os boxes, e tirar todas as fotos possíveis com carros e pilotos. Mas rápido, porque tinha show de Carlos Cunha (como? Você não sabe quem é Carlos Cunha?) na pista. A corrida da Stock V8 era só a primeira do dia – ele não iria perder a chance de assistir várias corridas no mesmo sábado.
Para o torcedor ligado aos patrocinadores, ir ao AIC era um pouco diversão, um pouco obrigação. Visitar os boxes nem era preciso, porque já conheciam de cor as cores, o estilo e os pilotos da equipe patrocinada por sua empresa. E a dele se fosse visto em outra equipe, ainda mais se fosse da concorrente.
Essa turma movimentava paddock, os centros de hospitalidade e os camarotes. E explicava o porquê da exuberância financeira da Stock Car. Dezenas de grandes empresas colocavam suas marcas por todos os cantos do autódromo Raul Boesel – de telefonia, de peças automotivas, de bebidas, de remédios. É tanta marca diferente que confunde o desavisado. Não fosse a disputa na pista, poderia se ter a certeza de que, ao invés de um autódromo, você tinha chegado em uma feira de produtos. (CT)
Pneus dificultam ações na corrida
Mais uma vez, apesar de ninguém falar abertamente, o vilão da etapa de ontem em Curitiba da Copa Nextel Stock foi o pneu – e pode-se dizer que foi ?o pneu?, pois o dianteiro esquerdo é que mais atrapalhou os carros na prova no anel externo do AIC. Era o mais exigido, pois quase todas as curvas (menos uma) eram para o mesmo lado. Vários carros tiveram problemas e acabaram batendo. E a dificuldade no equilíbrio do carro fez com que as balançadas e derrapagens fossem constantes na prova.
O composto escolhido pela fornecedora dos pneus já não tinha sido aprovado pelas equipes no início da temporada. Com o aperfeiçoamento dos carros, os problemas tinham diminuído, mas voltaram com tudo no autódromo Raul Boesel. O paranaense William Starostik, que fazia grande prova na nona posição, teve um acidente espetacular no final da reta dos boxes – seu pneu estourou e ele foi para fora da pista.
Menos ?vistoso?, mas perigoso, foi o já citado acidente de Thiago Marques. Pedro Gomes, então líder da corrida, ficou pelo caminho (e terminou em 19.º) por causa de um furo no pneu, que o jogou na brita. Na coletiva após a prova, Cacá Bueno, Ricardo Maurício e Marcos Gomes – os três primeiros – reclamaram veladamente dos pneus.
Mas o lance mais polêmico da corrida veio no final. Paulo Salustiano, que vinha passando todo mundo, exagerou na tentativa de deixar Thiago Camilo para trás. Bateu, tirou Thiago da prova e, na hora de voltar para a pista, surgiu na frente de Hoover Orsi, que acabou atingindo-o. E, em apenas uma manobra, Salu tirou três – inclusive ele – da prova. (CT)