Um dos nomes mais criticados pela torcida, José Carlos Brunoro deixou o cargo de executivo do Palmeiras com o sentimento de dever cumprido. Em entrevista em seu escritório, revelou que quase pediu demissão porque suas opiniões não eram levadas em consideração.

Brunoro contou que queria o técnico Vanderlei Luxemburgo no lugar do argentino Ricardo Gareca, criticou a falta de liberdade para trabalhar e disse que o presidente Paulo Nobre precisa amadurecer e tomar cuidado com falsas amizades. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Agência Estado – Porque você resolveu falar agora? Quando era dirigente do Palmeiras não apareceu tanto assim…

José Carlos Brunoro – Desde o início da gestão foi elaborado um projeto que toda entrevista tinha que passar pela assessoria (de imprensa). Ela que definia quando, onde e com quem falar. Nunca pude ter a liberdade para falar quando eu quisesse, mesmo na crise. Eu queria falar, mas não tinha autorização.

AE – Qual sua parcela de culpa por tudo que aconteceu no Palmeiras?

Brunoro – Parcela de culpa é complicado, mas tive participação em todas as decisões. Só que não dava a palavra final. Foi decidido que tudo seria resolvido em uma conversa entre o Nobre, o Omar (Feitosa, ex-gerente de futebol) e eu. E esse ano tinham mais dois vices (Maurício Galiotte e Genaro Marino) que se aproximaram do futebol.

AE – O Palmeiras terminou o ano com quase 40 jogadores no elenco. Isso não é falta de planejamento?

Brunoro – Quando chegamos, em 2013, o Palmeiras tinha 18 jogadores e precisava montar o elenco para a Libertadores e Paulista e sem dinheiro. Por isso, trouxemos alguns jogadores por empréstimo e subimos alguns da base. No meio do ano, voltaram jogadores de empréstimos e não teve recolocação no mercado. Sempre que chegava um treinador, a gente perguntava se era para afastar alguém e eles falavam que queriam trabalhar com todos, porque afastar jogador poderia criar um ambiente ruim. E empréstimo, os times queriam os jogadores de graça e não aceitávamos isso.

AE – Não seria melhor emprestar de graça ao invés de deixá-los só treinando?

Brunoro – Na minha visão, sim. Sempre bati nesta tecla. Você economiza água, luz, funcionários e, claro, valoriza o jogador porque ele poderia ir bem em outro clube e ser negociado. Mas era uma opinião pessoal, que não foi levada em consideração. Prevaleceu a vontade da maioria e a gente trabalhava junto, concordando ou não.

AE – Queria ter ficado?

Brunoro – A minha família não queria que eu ficasse e eu ficaria dentro de algumas condições. Não seria mais o CEO porque assumi muita responsabilidade que não era vista. Só o futebol interessa e parece que tudo se resume ao time e o patrocínio master. Se fosse para ficar, seria só para tocar o futebol, mas nem chegamos a falar dessa possibilidade. O Nobre só me disse que não teria mais o meu cargo e ele tinha razão. O cargo de CEO é muito profissional para existir no futebol brasileiro, onde tem muita política.

AE – Faltou liberdade para você trabalhar?

Brunoro – Sim, mas não foi culpa do Nobre. Ele tinha assessores e foi difícil assimilar esse modo de trabalho. A carreira toda eu tive autonomia e sempre fui um cara que confiavam muito em mim. Mas eram regimes profissionais e não estatuários. Eu tenho culpa nisso, também. Primeiro por ter aceito tudo isso e depois porque muitas vezes minhas opiniões não eram consideradas. Eu devia ter saído, mas durante toda a minha vida, nunca pedi para sair e sempre tive a esperança de que as coisas poderiam melhorar. Mas sim, acredito que precisava ter um pouco mais de liberdade para fazer as coisas.

AE – Que opiniões não foram respeitadas?

Brunoro – Existem vários pontos. Eu não concordava, por exemplo, com o preço de patrocínio. Achava que a gente pedia um valor muito alto e não aceitava reduzir aquilo. Eu discordava na demora na hora de acertar um contrato também. Tudo virava novela. E tem algumas coisas que na visão da diretoria era considerado custo e eu via como investimento. Por exemplo, a categoria de base. Queriam cortar custos na base e eu achava que tinha que investir mais, pois teríamos retorno. Terminamos o campeonato com cinco garotos da base entre os titulares (Nathan, João Pedro, Gabriel Dias, Victor Luis e Renato). Essas situações foram difíceis de colocar na cabeça das pessoas. Acho um absurdo o marketing do Palmeiras trabalhar com três pessoas para atingir 16 milhões de torcedores e sem ter investimento. A única preocupação era não gastar. Tudo para eles era gasto.

AE – Dentro dessa demora para negociar, o Palmeiras perdeu jogador por causa da lentidão para negociar?

Brunoro – O Alan Kardec. A negociação foi muito longa. Perdemos muito tempo e faço a minha culpa. Eu deveria ter batido o pé e acertar logo com ele. O problema é que a palavra final sempre era do Nobre, então o que eu podia ter feito era sair da negociação, até para mostrar o quanto eu não concordava com o andamento das coisas. Eu sou muito mais prático. Essa demora propiciou que outros clubes entrassem na negociação.

AE – Se você via tanta coisa errada, porque não pediu para ir embora?

Brunoro – Os problemas começaram no segundo ano da gestão. No primeiro, que ficou só o Nobre, Omar e eu tomando conta do futebol, estávamos arrumando a casa e profissionalizando tudo. No segundo ano, começaram a vir diretores estatutários (Genaro Marino e Maurício Galiotte), porque o Nobre precisava ficar livre para fazer a campanha eleitoral e ficou muita gente para decidir as coisas. Várias vezes chegava em casa com vontade de largar tudo. Criaram uma situação em que para a torcida, tudo era culpa minha. Chegaram a colocar na internet um cartão de visita meu que tinha meu telefone pessoal anotado de caneta, ou seja, que eu havia dado para alguém muito próximo. Você começa a desconfiar que as pessoas não queriam que desse certo. Tive proposta para sair em outubro (o dirigente não quis revelar, mas o Flamengo o procurou). Eu poderia ter saído, mas não queria deixar o clube naquele momento.

AE – Agora que acabou tudo, a negociação do Barcos foi um mau negócio, não?

Brunoro – Foi um bom negócio, mas eu não faria de novo. Não tínhamos noção do tamanho do Barcos para a torcida. Como negócio, foi uma boa porque nos livramos de uma dívida grande que tinha com ele, poderíamos perdê-lo na Justiça e estávamos sem time para inscrever na Libertadores. De uma vez só vieram quatro jogadores. Mas, de fato, poderíamos ter feito um sacrifício maior e segurá-lo pelo o que ele representava para o torcedor. Ele era um ídolo. Isso vale para o Alan Kardec também. Foram dois erros.

AE – Contratar o Gareca também foi um erro?

Brunoro – Ele foi indicação de um sócio do clube e empresário de futebol, o José Luis Galante. Tínhamos combinado que eu falaria com o Vanderlei Luxemburgo, Dorival Júnior e o Arce. O Genaro e o Omar falariam com o Gareca. Eles foram para a Argentina e voltaram com boa impressão. O Gareca era um cara que agradava todo mundo no clube, então politicamente a vinda dele seria importante para unir mais o clube. Outros nomes tinham rejeição. E pensamos que durante a Copa ele poderia se adaptar. A contratação foi legal. A gente não esperava que as coisas fossem dar tão errado.

AE – Então você foi favorável a vinda dele?

Brunoro – Eu não dei opinião sobre o Gareca porque nem o conhecia. Eu sempre gostei do Vanderlei e queria ele. Senti, na nossa conversa, que ele estava motivado para vir e que poderia dar certo. Sei que ele ficou chateado por fazermos uma entrevista com ele, mas na verdade, o que fomos discutir era sobre comissão técnica e objetivos da equipe. Não daria, por exemplo, para ele trazer toda a comissão dele.

AE – Como avalia o Paulo Nobre como presidente?

Brunoro – Ele precisa amadurecer. Conversei bastante com ele. O Paulo passou por muita coisa e durante toda a vida, teve autonomia para fazer o que quisesse, mas chegou em um modelo político bem complicado. Muitos erros aconteceram e ele sabe o que precisa ser feito agora. Bateram muito nele nesses dois anos e acho que ele entendeu que muita coisa tinham razão. O Paulo precisa ter equilíbrio e saber que tem muitas pessoas que podem ajudá-lo. Ele só precisa saber ouvir as pessoas certas e ficar em alerta, porque algumas pessoas podem prejudicar o trabalho dele.

AE – Quem são essas pessoas?

Brunoro – Eu não posso falar. No momento certo, ele vai perceber. Alguns eu até já falei para ele tomar cuidado.