Nesta terça-feira completa um ano que o Bom Senso FC realizou a sua primeira reunião. O encontro, realizado no escritório de uma agência de publicidade em São Paulo, contou com a presença de 20 jogadores. Após aquela reunião, foi divulgado o primeiro manifesto produzido pelos atletas, com as reivindicações do grupo. Nascia ali o movimento que mexeu com os bastidores do futebol brasileiro e criou a expectativa de mudanças profundas no esporte.

Passado um ano, o Bom Senso FC cresceu e ultrapassou a marca de mil assinaturas de jogadores das séries A, B, C e D do Campeonato Brasileiro. No site do movimento, um abaixo-assinado pedindo a democratização da CBF conta com mais de 75 mil apoiadores. A lista de solicitações dos atletas, no entanto, ainda está longe de ser atendida.

O Bom Senso FC tem cinco propostas centrais (calendário, férias, pré-temporada, Fair Play Financeiro e participação dos atletas nos conselhos técnicos das entidades que administram o futebol). Com relação a calendário e pré-temporada, por exemplo, a CBF não atendeu às demandas do movimento apesar dos protestos feitos pelos jogadores.

Para este ano, por causa da Copa do Mundo, já se sabia que não era possível fazer grandes alterações. Mas o que mais decepcionou os atletas foi o calendário para a temporada de 2015 divulgado pela entidade. O período reservado para a realização da pré-temporada é de 25 dias (de 7 a 31 de janeiro), enquanto que o Bom Senso FC pediu pelo menos um mês de trabalho antes do início dos campeonatos. Outra crítica é que o Campeonato Brasileiro não será paralisado durante a Copa América, de 11 de junho a 4 de julho, e nas Eliminatórias para a Copa do Mundo e amistosos da seleção brasileira. O formato das competições também não sofreu alterações significativas, como queria o Bom Senso FC.

Mesmo assim, os líderes do movimento fazem uma avaliação positiva do primeiro ano de trabalho do grupo. Para o zagueiro Paulo André, do Shanghai Shenhua, da China, o Bom Senso FC já “conquistou inúmeras vitórias”. O volante Gilberto Silva, sem clube, também faz um balanço positivo e destaca a atuação dos jogadores no debate sobre a Lei de Responsabilidade Fiscal no Esporte, que deve ser votada na Câmara dos Deputados depois das eleições.

“Fomos a Brasília, discutimos as mudanças na Câmara, tivemos audiências com a presidente Dilma Rousseff. Esse é um grande avanço. No começo, a CBF nem queria nos receber. É verdade que as coisas não acontecem na velocidade que todos gostariam, mas aos poucos estamos alcançando os nossos objetivos”, disse Gilberto Silva.

Bom Senso FC e clubes chegaram a um acordo e decidiram apoiar a criação de um órgão independente para fiscalizar as finanças dos clubes, que deverá ser constituído e custeado pela CBF. Funcionará como uma espécie de auditoria externa, sem vínculo direto com a entidade. Também ficou definido que os clubes que não pagarem suas dívidas perderão pontos e os dirigentes, o seu patrimônio particular.

Gilberto Silva diz que o Bom Senso FC é um “caminho sem volta”. Para o volante, que participa das discussões do grupo desde a primeira reunião no ano passado, o movimento inseriu os atletas nos debates sobre o futuro do futebol brasileiro. “Os jogadores passaram a ser ouvidos e isso deverá continuar para as próximas gerações”, afirmou.

APOIO – O presidente do Coritiba, Vilson Ribeiro de Andrade, lidera uma comissão de clubes criada no ano passado pela CBF para discutir o Fair Play Fiscal e Financeiro e atua como interlocutor da entidade com o Bom Senso FC e os demais dirigentes e elogia a atuação do grupo. “Os atletas têm os seus sindicatos que os representam, mas o Bom Senso veio para ocupar uma lacuna. Muitos dizem que eles são um contraponto aos clubes, mas a verdade é que muitas reivindicações são as mesmas. É evidente que há algumas posições divergentes, mas em muitas questões os interesses são os mesmos. O diálogo é muito bom”, disse.

Opinião semelhante tem o presidente do Flamengo, Eduardo Bandeira de Mello. “O Bom Senso é uma iniciativa que tem como principal objetivo melhorar as condições gerais do futebol brasileiro. Qualquer movimento ou ação que venha para somar e discutir o nosso esporte será sempre bem vindo. O Bom Senso hoje já está ajudando nos debates de reestruturação do nosso futebol. E espero que eles aprofundem o diálogo e a cooperação com os clubes”.

O primeiro presidente de clube a declarar publicamente apoio ao Bom Senso FC, no ano passado, foi Fernando Schmidt, do Bahia, que havia tomado posse dias antes do surgimento do movimento. E hoje ele avalia, assim como Gilberto Silva, que o Bom Senso FC não pode mais ficar ausente da mesa de negociações do futebol brasileiro.

“É muito positivo os atletas se posicionarem sobre temas que interessam a todos. É claro que quando você modifica um cultura atrasada, você desperta resistência e incompreensões, mas as conquistas acontecem passo a passo. Você não muda as coisas com uma vara de condão. É um projeto de médio e longo prazo”, comentou.