Amigos e parentes de jogadores e funcionários do Ninho do Urubu passaram boa parte da manhã em vigília na porta do centro de treinamento do Flamengo, em Vargem Grande, na zona oeste do Rio. Um incêndio destruiu um alojamento de atletas dos times das divisões de base do clube, deixando dez mortos e três feridos.

A bandeira do Flamengo, em local de destaque na frente da entrada do centro de treinamento, foi hasteada a meio pau já no meio da manhã, depois da confirmação das mortes. Amigos e parentes que aguardavam informações fizeram uma grande roda e rezaram um “pai nosso”. Flores também foram depositadas na porta do CT.

“Eu estava pensando em alojar meu filho”, contou Joaquim Pacífico Bezerra de Lima, pai de Maicon Vieira Bezerra de Lima, de 16 anos, atleta da categoria sub-17. “Soube agora pela manhã da tragédia, quando um amigo me ligou para saber se meu filho estava bem, se tinha vindo treinar. Mas como ele tinha sido liberado do treino, ficou em casa. Mas dos dois melhores amigos dele, um morreu e o outro escapou por pouco. Ele está arrasado em casa, chorando, nem quis vir para cá.”

Marli Porto, mãe de um outro atleta do clube que tampouco estava entre as vítimas, também foi para a porta do centro de treinamento em busca de informações. “Ele não fica no alojamento porque nós temos moradia aqui perto; então ele vai e volta”, contou ela. “Mas eles são todos muito amigos, muito unidos, estão sempre juntos; é muito triste tudo isso.”

Marli lembrou que todos os garotos compartilham um sonho em comum, de se tornaram atletas do Flamengo. “É um sonho muito forte de todos eles; ficam longe da família, lutam com muita garra para estar aqui e conquistar esse sonho”, contou.

Jefferson Rodrigues mantém uma pensão na região de Vargem Grande, onde também já abrigou muitos garotos das divisões de base do Flamengo, antes de eles irem para o centro de treinamento. Ele é especialmente ligado ao atleta Caíque Soares, de 15 anos, filho de um amigo, que escapou por pouco do incêndio.

“Ele escapou só com a roupa do corpo”, contou. “Estávamos muito agoniados porque não conseguíamos falar com ele, mas até o celular tinha se queimado.” Caíque contou a Jefferson que acordou de madrugada e não teve tempo de pensar, apenas saiu correndo do alojamento, onde outros dez colegas morreram. “Ele está chorando muito e está muito triste pela perda dos colegas”, contou.

Washington Luis Barbosa, pai de Samuel Barbosa, de 17 anos, um atleta do Piauí que dormia no alojamento que pegou fogo, também estava aliviado por ter conseguido falar com o filho logo cedo. Samuel contou que acordou com o barulho de uma explosão. Ainda teve tempo de chamar o colega que dormia ao lado e fugir.

Oficialmente, ninguém informou ainda quantos meninos dormiam no alojamento que pegou fogo.