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Inesquecível Charles: Um dos mais emblemáticos diretores da Tribuna

Charles e Rafael Tavares. Foto: Arquivo Pessoal

Entre todos os funcionários da Tribuna nas décadas de 1970, 1980, 1990 e início dos anos 2000, pelo menos 90% deles vão contar espontaneamente alguma história vivida com Carlos Roberto Tavares, o “Charles”. Formado em  Ciências Sociais, Charles começou na Tribuna do Paraná em 1973 como diagramador. Anos depois, começou a escrever uma coluna no jornal O Estado do Paraná, chamada “Dicas do Charles”, que falava das boatinhas das sociedades.

A coluna cresceu e fez sucesso. Charles passou a promover o baile dos “Melhores do Ano”, elegendo os melhores diretores das Sociedades do Paraná. Em 1987, Francisco Camargo, que era o diretor da Tribuna, foi para a Gazeta do Povo. E o Mussa José Assis, que era diretor de O Estado do Paraná, conversou com o Paulo Pimentel, dono da editora, e indicou o Charles para direção da Tribuna. E assim iniciou-se uma era de ouro.

Charles exerceu o cargo por 15 anos e imprimiu memórias inesquecíveis nas pessoas, funcionários e leitores da Tribuna. Seu maior talento era criar as manchetes. Ninguém entende como ele conseguia, de reportagens muito simples, criar títulos tão envolventes, criativos e que faziam vender jornal que nem água.

Ronise Vilela foi repórter policial da Tribuna por anos. E através de um crime que escreveu, mostra o humor único do Charles para as manchetes e que dava o tom e a cara da Tribuna. Uma chacina aconteceu em Rio Branco do Sul e uma família inteira morreu. Caso de comoção, a polícia tratou de prender logo alguém.

O homem prestou depoimento, mas negou tudo. Mesmo assim, a polícia o apresentou à imprensa. “Eu escrevi uma matéria toda ‘politicamente correta’, com cuidado. Chamava o homem de ‘suspeito’, não de ‘acusado’. Aí o Charles meteu a manchete: Monstro!”, conta Ronise, capa que chamou muito a atenção dos leitores.

O problema, que ninguém soube no dia, nem a polícia, foi que uma das vítimas da chacina, a mãe do rapaz, se fingiu de morta. No hospital, no dia seguinte, ela contou quem era o verdadeiro assassino, que foi preso. “Fui lá entrevistar o cara, com todo cuidado, pra dar a retratação. Aí vem a manchete do Charles: Não era monstro!”, diz Ronise, título que mostrava o jeito “debochado e popular” do diretor em lidar com a vida como ela é.

Doce durão

Charles muitas vezes tinha um jeito sério de olhar, sempre fumando e andando pela redação, vendo como as notícias estavam caminhando, como os repórteres estavam escrevendo ou conferindo os títulos que os editores criavam.

Tinha um jeito durão de dar bronca. Mas era um durão “doce”, como descrevem diversos jornalistas dirigidos por ele. “Ele me fez chorar três vezes. Mas me fez chorar com razão. Ele foi um pai, um amigo, um chefe durão. Mas me fez ser melhor repórter, pessoa, mãe, esposa. Porque ele dava uma bronca que só ele sabia dar”, diz Bia Moraes, que foi repórter policial e depois tocou um caderno que Charles criou para ela, o Tribuna da Mulher.

Arroz com feijão

Mas a frase do Charles que todo repórter e editor conhecia era o “feijão com arroz”. Bia conta que, quando começou na policial, foi fazer um acidente com duas crianças mortas. Mãe, chegou na redação abalada e não conseguiu escrever. “O Charles passou algumas vezes atrás de mim, até que uma hora perguntou o que estava havendo. Respondi e ele disse: faz o seguinte. Sabe o ‘arroz com feijão’ do jornalismo? O quê, quem, quando, onde, como. E funcionou, escrevi o básico da reportagem e nunca mais esqueci disso”, relatou Bia.

E o arroz com feijão foi o que salvou a pele do próprio sobrinho do Charles, o Rafael Tavares, bem no dia que o jovem assumiu o cargo de chefia de reportagem na redação. Sob o “nariz torto” de muita gente, por ser o sobrinho, Rafael descobriu quase no fim do dia que teria que fechar, sozinho, um caderno de oito páginas para O Estado do Paraná. Foi um desespero, pois além de não ter muita experiência naquela editoria, já deveria ter iniciado horas antes.

Charles, que costumava ser mais duro com o sobrinho do que com outros jornalistas, se voluntariou. Enquanto o Mussa cobrava agilidade numa orelha, pois o caderno estava atrasado, Charles estava na outra ajudando a pescar os títulos possíveis em cada página. “Ele ia lendo as matérias na minha tela, apontava no meio do texto o que poderia ser o título e dizia: feijão com arroz. Faz o feijão com arroz”, conta Rafael, que conseguiu fechar tudo – atrasado – com a ajuda do tio.

Balde de água fria 

Rafael começou em 1996 como estagiário, foi diagramador e a partir 1997 passou a escrever no esporte. Dois anos depois, o Armindo Berri, que era editor, viajou ao Paraguai para acompanhar a Copa América por uns 20 dias. E nomeou Rafael como editor. Nisso, houve decisão de campeonato em Curitiba.

“Montei a cobertura, organizei os repórteres e também fui pro campo. E pensei: tenho que fechar a edição mais linda do mundo. E o jornal vendeu muito no dia seguinte. Teve até reposição nas bancas. O Coxa não era campeão há 10 anos. Caí na cagada de entrar na sala do Charles e perguntar se ele tinha gostado da edição. Sem levantar a cabeça das matérias que ele estava revisando, disse: ‘Tá igual todos os dias’. Foi um balde de água fria, mesmo com todo mundo elogiando. Mas ao mesmo tempo era doce e ajudava quando precisava. E esse era o jeito dele. Aprendi muito, aprendi a caçar manchetes no meio das matérias”, relata Rafael, que décadas mais tarde assumiu o cargo do tio na Tribuna.

A morte do Charles

O diretor mais emblemático da Tribuna morreu em 5 de fevereiro de 2002, por um infarto. Uma edição especial foi feita sob forte comoção na redação. E é impossível não falar disso sem citar a Mara Cornelsen, jornalista que foi repórter policial por muitos anos na Tribuna, fez um enorme sucesso. Depois de cinco anos afastada, trabalhando na Gazeta do Povo, Charles a convidou para voltar. Isso aconteceu no dia anterior à sua morte e por isso as histórias se entrelaçam.

Mas é preciso voltar um pouco no tempo para entender que a relação da Mara com a Tribuna vinha desde os anos 1960. Mara foi alfabetizada com as manchetes do jornal. Seu pai era contador e todo dia chegava em casa com um exemplar, além de uns tocos de lápis e borracha. Sua mãe comprava pão, que vinha embrulhado num papel. Mara pegava as manchetes e, com os tocos de lápis e borracha, deitada no chão de madeira bem lustrado de sua casa, reproduzia no papel de pão as letrinhas do jornal.

Formou-se em jornalismo pela Universidade Federal do Paraná em 1979, época da ditadura militar. Neste mesmo ano ela fez 3 meses de estágio na Editora O Estado do Paraná. Mas, por regras do Sindicato dos Jornalistas, não pode continuar. Então seu professor, que era diretor do Diário do Paraná, a convidou para trabalhar no jornal, onde ela cobriu o sequestro da filha de um empresário famoso da época.

Mara grudou em dois delegados do caso e acabou escrevendo excelentes matérias, que lhe renderam convite para ir para a Tribuna. Ela não aceitou. Mas um amigo seu, que sabia que o Diário ia acabar, pegou Mara, a colocou dentro de um ônibus, e a obrigou a aceitar o convite. E deu certo. Com apenas 20 anos de idade, Mara virou repórter policial da Tribuna em fevereiro de 1980, época em que o Francisco Camargo era diretor.

Gazeta do Povo

Sentindo curiosidade de ter novas experiências, em 1997 Mara recebeu uma proposta financeira vantajosa para ir para a Gazeta do Povo. Mesmo sendo alertada por amigos que sofreria, porque o conceito de jornal era outro, Mara partiu. Foram cinco anos sem conseguir desempenhar o que sabia, pois a pauta era decidida pelos editores-chefes, e não conversando com todo mundo na rua, como era acostumada.

Num domingo à tarde, último dia de férias da Gazeta, Mara foi conversar com Charles, contar a sua insatisfação. O diretor da Tribuna disse que não estava contratando ninguém no momento. No dia seguinte, ela voltou à Gazeta e assumiu seu posto. O clima estava tenso na redação.

No meio da tarde, recebeu um telefonema. Era uma voz grossa falando: “Nega, volta pra casa. Dr. Paulo mandou você voltar já”. Era dia 4 de fevereiro de 2002 e era o Charles a convidando para voltar para a Tribuna. Mara não pensou duas vezes. Imediatamente levantou da cadeira, se demitiu, juntou suas coisas e foi embora.

Às 23h30, Mara conta que recebeu um telefonema do Charles. Ficaram uma hora no telefone. Ambos estavam extremamente felizes e Charles detalhou todos os projetos que tinha para ela. Que ela voltaria como coordenadora, que ia editar o caderno policial e que escreveria reportagens especiais, entre outros detalhes.

Logo que Charles desligou, por volta de meia noite e meia, encontrou com o sobrinho, Rafael, que como chefe de reportagem ainda estava pelo jornal, que tinha acabado de fechar. “Eu passava 10 horas por dia com meu tio. Passava mais tempo com ele do que com qualquer outra pessoa. Nesse dia, ele me falou da volta da Mara e me contou os projetos que tinha pra ela. Fomos conversando até o carro e cada um foi embora pra sua casa”, contou Rafael.

Depois de jantar e adormecer no sofá, o telefone tocou na casa do Rafael. Eram umas 3h da manhã. Solteiro, ainda morava com os pais. Charles tinha sofrido um infarto. Rafael e seu pai, o “Vadico” – diretor comercial da Tribuna muito querido por todos, e irmão de Charles – foram ao hospital, Charles estava na UTI do Santa Cruz, onde morreu perto das 8h da manhã.

Delegado Recalcatti

Mara conta que, pela manhã, recebeu um telefonema do delegado Rubens Recalcatti, seu amigo, e que já é falecido. E o delegado perguntou: “Mara, você sabe o que aconteceu com o Charles?”. Ela respondeu feliz: “Sim, ele me chamou de volta pra Tribuna, ficamos conversando até de madrugada no telefone”. Até que Recalcatti a cortou, perguntando de novo, em tom mais alto e firme: “Mara, você sabe o que aconteceu com o Charles?”. Mara emudeceu e ouviu: “O Charles morreu agora de manhã”.

Mara disse que gritou, jogou o celular no chão e ficou em choque. Foi amparada pelo filho, que correu pro quarto, viu a cena, pegou o celular no chão e falou com com quem estava do outro lado da linha, para entender o que houve. Mara foi para a redação à tarde e escreveu duas matérias especiais sobre o Charles, na edição mais dolorosa que a Tribuna já teve. A então coordenadora da equipe policial ficou na Tribuna até 2014, até se aposentar, desenvolvendo os projetos que Charles lhe deixou.

Charles é até hoje lembrado por todos que trabalharam com ele. “Foi um dos melhores amigos que eu tive. Nunca achei que ia ser jornalista. E ele me deu apoio, ajudou a pensar no Paraná Online”, disse Marcos Paulo Assis, que comandou o setor gráfico e deu início à era da internet no jornal.

“A Tribuna pra mim é o Charles. E o Charles é a Tribuna. Ele é insubstituível”, afirmou emocionada Bia Moraes.

Novos tempos, nova direção

Quase um mês depois, no dia 1º de março de 2022, Paulo Pimentel, dono dos jornais, chamou Rafael e informou que ele seria o novo diretor da Tribuna. Que havia conversado com muita gente e que isso era o que a maioria das pessoas lhe sugeriam.

Atônito com o que ouvira, Rafael ainda sentia muito a falta do tio e não lhe passou pela cabeça que poderia receber esse convite. Até porque viu algumas pessoas voluntariando-se para o cargo. Bem como outros que tiveram o nome citado, mas não aceitaram. Mas ninguém lhe falou que o nome dele também era ventilado. As pessoas apenas o fitavam com os olhos, alguns pensativos, observando, outros com olhares menos nobres.

Mas Pimentel disse que ele poderia entrar na sala do tio – que ficava na frente da sala em que estavam conversando – que poderia mudar o que quisesse na sala e assumir o posto. Era uma sexta-feira, a redação estava cheia. Rafael pediu um tempo. Disse que não conseguiria no momento. Mas faria isso no domingo, com a redação mais vazia, para que ele pudesse se ambientar. Assim aconteceu. Desde 3 de maio de 2002 Rafael é diretor de redação da Tribuna do Paraná, onde tentou manter a mesma linha do tio.

Não é tão passional. Quieto, observador, aprendeu a ser gestor, a provocar ideias nas pessoas. Passou pela venda da Tribuna ao Grupo Paranaense de Comunicação (GRPCOM) – dono da RPC (TV Globo no Paraná), Gazeta do Povo, e outras mídias, tornando-se 0 diretor que comandou o jornal por mais tempo. “São 23 anos à frente da Tribuna”, resume o jornalista, que também foi diretor comercial do jornal e, nos últimos 9 anos, desempenha a gestão geral da empresa.

Muito obrigada Charles! Muito obrigada Rafael! Por terem conduzido a Tribuna com amor, dedicação, e manchetes que são a cara de Curitiba. E que continuarão pelos novos tempos da internet, da inteligência artificial, e das redes sociais.

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