A medicina evoluiu, mas a relação entre médico e paciente continua no centro do cuidado
Nem sempre um diagnóstico ou um procedimento é o que faz um médico permanecer na memória de um paciente. Às vezes, a diferença está na forma de conduzir situações que ultrapassam um atendimento clínico.
Para a enfermeira Eliane Xavier, foi assim. Duas semanas antes do nascimento do primeiro filho, ela perdeu a cunhada, de 23 anos, após complicações no parto. Naquele momento, o ginecologista e obstetra que a acompanhava tornou-se uma referência também pela disponibilidade e pelo apoio oferecido à família.
Eliane já confiava na capacidade profissional do médico. A experiência, porém, ampliou sua percepção sobre o papel dele.
“Além de eu ficar segura, no momento do parto ele também tranquilizou meu marido. Entendeu nosso momento, acompanhou meu esposo e deu todo o apoio e segurança para que ele não ficasse tão preocupado.”Enfermeira Eliane Xavier
A história ajuda a traduzir uma característica da medicina que permanece mesmo diante das inúmeras transformações da profissão: o cuidado com as pessoas e com a escuta.
Nas últimas décadas, a saúde de modo geral e a medicina, em particular, enfrentam um cenário bastante desafiador em nossos tempos.
Isso inclui questões como influências demográfica e populacional; medicina baseada em valor; os desafios do envelhecimento e do que se chama hoje de longevitalidade; a personalização da medicina, sustentada no ambiente digital; e a necessidade de um sistema de saúde articulado, sem falar de novas tecnologias e da inteligência artificial e orgânica.
Ainda assim, como aborda o artigo publicado pela Harvard Business Review, o verdadeiro potencial de cura da medicina moderna depende de um recurso: o tempo e a capacidade de ouvir os pacientes, suas histórias e aprender também o que é importante para eles.
O diretor Administrativo e Financeiro da Unimed Paraná, Antonio Carlos Valezi, que atua há cerca de quatro décadas na medicina, reforça essa ideia. Para ele, mesmo com todos os recursos disponíveis, ouvir continua sendo uma das principais ferramentas do cuidado.

“Mesmo que a escuta demande tempo, é ouvindo que o médico conhece a família, os problemas, a realidade do paciente e consegue construir uma hipótese diagnóstica, que depois será confirmada ou não por um exame físico.”diretor Administrativo e Financeiro da Unimed Paraná – Antonio Carlos Valezi
Para Valezi, os exames são importantes, mas fazem parte de uma dinâmica de atendimento que começa antes deles.
Essa relação entre médico e paciente está presente diariamente em uma categoria que cresceu de forma significativa no país. Ao fim de 2024, o Brasil alcançou 597.428 médicos em atividade, uma proporção de 2,81 profissionais para cada mil habitantes, de acordo com o Ministério da Saúde.
No Dia do Médico, celebrado em 18 de outubro, diferentes gerações convivem com essa medicina em constante transformação. No entanto, é preciso ter em mente sempre que, se os recursos mudaram, os conhecimentos se ampliaram e novas possibilidades surgiram, o centro da profissão continua o mesmo: cuidar de pessoas.
Para o diretor de Inovação e Desenvolvimento da Unimed Paraná, Antonio Carlos de Farias, que soma mais de 30 anos de atuação médica, para os profissionais da medicina, acompanhar essas mudanças significa incorporar novos recursos sem perder de vista o propósito da profissão.

Ele concorda com Valezi: a tecnologia ampliou as possibilidades de diagnóstico e tratamento, mas, escuta e diálogo continuam insubstituíveis.
“Uma conversa franca, científica, transparente e, acima de tudo, acolhedora é a base da boa prática médica. De nada vale o conhecimento técnico se ele não estiver a serviço de aliviar a dor e oferecer esperança. A confiança no médico não é construída pela tecnologia, mas pelo diálogo direto, face a face e continuado”Diretor de Inovação e Desenvolvimento da Unimed Paraná – Antonio Carlos de Farias
A experiência de Eliane reforça essa percepção. Acompanhada pelo mesmo ginecologista e obstetra há mais de 35 anos, ela conta que até dúvidas aparentemente simples sempre receberam atenção. “Ele sempre valorizou as queixas enquanto eu estava gestante. Na maioria das vezes podia até não ser nada, mas isso nunca impediu que ele ouvisse, desse atenção e, claro, em alguns casos, até mesmo evitasse uma complicação mais séria. E continua sendo assim até hoje.”
Para ela, a confiança e a escuta construídas ao longo de décadas são parte importante dessa relação.
O propósito que permanece
A escolha pela medicina nem sempre acontece de forma linear. No caso de Farias, a profissão não foi a primeira opção. Antes, cursou um ano de geologia, atraído pelo estudo de rochas, águas e petróleo. Faltava, porém, algo que considerava essencial: o contato com pessoas.
Mais de três décadas depois, a escolha continua fazendo sentido. Para Farias, ciência e tecnologia podem avançar, no entanto, o propósito do cuidado permanece.
“A tecnologia avança e a ciência evolui, mas a essência do cuidado humano permanece como a base inabalável da nossa prática. O conhecimento deve ser aplicado para embasar decisões que visem sempre o bem-estar do paciente.”Diretor de Inovação e Desenvolvimento da Unimed Paraná – Antonio Carlos de Farias
Para Valezi, a escolha começou cedo, entre a curiosidade pelo funcionamento do corpo humano e a vontade de ajudar. Desde criança, diversas situações despertavam sua atenção e o desejo de compreender o que acontecia. A medicina, então, conseguiu reunir os dois interesses e se transformou em uma trajetória profissional.
O tempo trouxe experiência, novas responsabilidades e uma rotina bastante diferente daquela do início da carreira. Não mudou, porém, a satisfação diante daquilo que, para Valezi, está no centro da escolha profissional. “É gratificante quando você consegue melhorar a vida do paciente, devolver qualidade de vida. Isso não mudou”, conta.
Algumas histórias ajudam a explicar as escolhas nos dois casos. Ao longo da carreira, Farias, neuropediatra, acompanhou crianças e famílias em momentos de dificuldade e também presenciou recuperações que marcaram sua história. Entre elas, lembra de uma criança que passou mais de 30 dias em coma e sobreviveu.
Hoje adulta, leva uma vida ativa. Também acompanhou outras crianças com lesões cerebrais graves que evoluíram sem sequelas físicas ou mentais. Experiências que, para ele, reforçaram não apenas as amplas possibilidades da ciência, mas como o cuidado e resiliência familiar fazem diferença em cada tratamento.
Valezi, que é cirurgião do Aparelho Digestivo, também carrega histórias que marcaram. Algumas pelo resultado alcançado; outras, justamente, porque deixaram aprendizados. “Nós sempre temos pacientes que marcam a trajetória. Aqueles em que você devolve o sorriso, devolve a saúde – e isso é muito bom”, diz. Nos casos em que o desfecho não foi o esperado, permanece a reflexão sobre o que poderia ter sido feito de maneira diferente.
E depois de décadas de um trabalho diário, a experiência também muda a perspectiva sobre aquilo que é necessário para exercê-lo. Quando pensa nos futuros profissionais, Valezi coloca lado a lado dois aspectos que considera fundamentais: conhecimento e disponibilidade para ouvir.
“É preciso estudar e é preciso saber escutar o paciente, ter tempo para escutar – porque isso faz diferença no resultado profissional, no resultado humano e também fará diferença no íntimo de cada um.”Diretor Administrativo e Financeiro da Unimed Paraná – Antonio Carlos Valezi,
Farias segue uma linha semelhante. Para ele, a segurança adquirida ao longo da carreira passa pela prática e pelo estudo, mas também por manter a atenção aos sinais e percepções de quem está diante do médico. O conselho aos novos profissionais se resume nessa combinação: manter o rigor técnico-científico sem perder a humanidade.
Os próximos anos trarão novas transformações, mas a experiência de quem já participou de parte dessas mudanças direciona para um caminho mais simples: tecnologias podem evoluir, mas o propósito dos profissionais não precisa mudar. Mais de 30 anos depois, é também o que permanece na lembrança de Eliane: a escuta, a disponibilidade e a atenção recebidas em um momento difícil.
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