Em um mundo em que empresas surgem e desaparecem em poucos anos, existe um modelo de organização criado há quase dois séculos que continua crescendo e se reinventando. Presente em diferentes setores da economia, o cooperativismo reúne hoje 25,8 milhões de cooperados no Brasil, movimenta R$ 757,9 bilhões por ano e demonstra que colaboração e inovação podem caminhar juntas.
Celebrado anualmente no primeiro sábado de julho, o Dia Internacional do Cooperativismo destaca, em 2026, o tema “Cooperativas por um Mundo Pacífico”, reforçando o papel dessas organizações na promoção do desenvolvimento humano e social.
A capacidade de adaptação é uma das razões que explicam a longevidade do modelo. Em um cenário marcado por transformações aceleradas na economia, na tecnologia e, especialmente, na medicina, as cooperativas mantêm seus princípios fundadores enquanto incorporam novas formas de gestão, inovação e atendimento.
“O cooperativismo surgiu em 1844, em um momento em que as pessoas buscavam soluções coletivas para problemas comuns. Esses princípios nasceram no século XIX e continuam sendo a base das cooperativas até hoje”, explica o diretor-presidente da Unimed Paraná, Alexandre Gustavo Bley.
Fundamentado em valores como adesão voluntária, gestão democrática, participação econômica dos cooperados, autonomia, intercooperação e compromisso com as comunidades, o cooperativismo busca conciliar desenvolvimento econômico e responsabilidade compartilhada.
Para Bley, três palavras resumem a essência desse modelo: propósito, empreendedorismo e coletividade. “Quando um grupo de pessoas compartilha um propósito e empreende de forma conjunta, cria soluções que beneficiam todos e contribuem para o desenvolvimento da sociedade.”
Os números demonstram a dimensão desse movimento. Atualmente, o Brasil conta com 4.384 cooperativas distribuídas em 3.586 municípios, responsáveis por mais de 578 mil empregos diretos e pela administração de R$ 1,39 trilhão em ativos, segundo dados do Sistema OCB. Na área da saúde, esse modelo alia assistência médica, gestão compartilhada e desenvolvimento regional.
Evoluir sem perder a essência
A medicina mudou profundamente nas últimas décadas. Novas tecnologias, inteligência artificial, tratamentos cada vez mais complexos e pacientes mais informados exigem atualização permanente das organizações de saúde.
Para o diretor de Mercado e Intercâmbio da Unimed Paraná, Durval Francisco dos Santos Filho, a capacidade de adaptação sempre fez parte da história do cooperativismo. “Passamos por muitas transformações e continuaremos passando. Uma das maiores virtudes do cooperativista é justamente saber se adaptar.”
Essa visão é compartilhada pelo presidente da Unimed Vale do Piquiri, Sidney Calixto Junior. “A medicina evolui rapidamente. Temos de estar sempre atentos para acompanhar e estar à frente das evoluções que vem acontecendo para continuarmos como a referência do atendimento no país”.
Decisões construídas em conjunto
Um dos diferenciais do cooperativismo está na forma como as decisões são tomadas. Enquanto empresas tradicionais costumam concentrar decisões em poucos executivos ou acionistas, as cooperativas adotam uma gestão compartilhada, envolvendo diretorias, conselhos e assembleias. “Uma decisão não é tomada por uma única pessoa. Ela passa por diferentes instâncias e isso amplia a participação, fortalece o consenso e torna as decisões mais consistentes”, afirma Durval.
Na prática, isso faz com que o médico cooperado participe não apenas da assistência ao paciente, mas também da construção dos rumos da organização.
Cooperado da Unimed Londrina desde 1986, Roberto Menoli acredita que esse é um dos maiores diferenciais do Sistema. “Mais do que ser sócio do próprio negócio, fazemos parte de um modelo em que as decisões são construídas coletivamente. Isso fortalece a cooperativa e valoriza o trabalho médico.”
O cardiologista Artur Andrade, cooperado da Unimed Campo Mourão há mais de três décadas, reforça que a participação ativa dos cooperados é essencial para a sustentabilidade do modelo. “A cooperativa só cresce quando seus cooperados participam das assembleias, discutem ideias, fazem perguntas e ajudam a construir soluções.”
A colaboradora Soraya Galvão, analista de Gestão de Pessoas, há 17 anos na Unimed Paraná, destaca que a cultura do cooperativismo se reflete em cada ação da organização seja com seus colaboradores, cooperados, Singulares ou beneficiários.
Quando a cooperação beneficia o paciente
Os efeitos desse modelo também chegam aos beneficiários. Segundo Durval Francisco dos Santos Filho, uma das principais vantagens está na ampla rede de atendimento oferecida pelas cooperativas médicas. “O paciente encontra diferentes médicos, hospitais e clínicas para escolher onde deseja ser atendido, ampliando suas possibilidades de acesso aos serviços.”
Para Artur Andrade, existe ainda um componente que não aparece nas estatísticas: o sentimento de pertencimento. “Eu me sinto responsável pela cooperativa. Quero que ela cresça e, por isso, procuro atender cada paciente da forma como gostaria de ser atendido.”
Além da assistência médica, as cooperativas também fortalecem as economias locais. Ao manter profissionais, investimentos e serviços nas próprias regiões onde atuam, contribuem para gerar emprego, renda e desenvolvimento comunitário.
Um modelo voltado para o futuro
Quase dois séculos depois de sua criação, o cooperativismo continua olhando para frente. O desafio agora é aproximar novas gerações de médicos, incorporar tecnologias como a inteligência artificial e responder às mudanças do setor sem perder sua essência.
Para Alexandre Gustavo Bley, esse equilíbrio explica por que o modelo permanece atual. “O senso de propósito continua sendo nosso principal patrimônio. Somos um conjunto de cooperativas da saúde cuja razão de existir é cuidar das pessoas por meio do trabalho médico qualificado.”
Em um ambiente marcado por mudanças rápidas, o cooperativismo aposta que algumas ideias permanecem atuais: pessoas que compartilham decisões, responsabilidades e resultados constroem organizações mais fortes e duradouras. É essa combinação entre tradição e capacidade de inovação que explica por que, quase 200 anos depois, o modelo continua relevante.
