Quem passa pelo Mercado Municipal de Curitiba talvez não imagine que parte da história de uma marca conhecida nas cozinhas brasileiras começou justamente naquela região da cidade. Antes de ganhar espaço nas prateleiras dos supermercados, de ficar conhecida pelas azeitonas, azeites e frutas secas e de chegar a consumidores de diferentes regiões do país, a La Violetera teve uma origem muito mais simples: o trabalho de um imigrante que encontrou no comércio de alimentos uma maneira de construir uma nova vida.
No dia 15 de outubro, a empresa completa 98 anos de uma trajetória que começou em Curitiba, atravessou gerações e acompanhou as mudanças da cidade e dos hábitos de consumo dos brasileiros.
Por trás dessa história está a família Raad, que mantém vivo o legado do fundador, Hassan Mohamed Raad. Ele chegou ao Brasil vindo do Líbano, em 1914, sem recursos financeiros e sem conhecer a língua portuguesa. Para pagar a viagem, trabalhou no próprio navio que o trouxe ao país. Depois de desembarcar no porto de Santos, seguiu para Curitiba. Foi nas ruas da capital paranaense que começou a vender alimentos, como bananas e palmitos trazidos do litoral do estado.
Mais de um século depois da chegada de Hassan ao Brasil, a coragem que marcou seus primeiros passos ainda é lembrada pela família.
“Meu avô deixou a coragem como legado. Pois atravessou o oceano em um navio para tentar a vida em outro país, chegando aqui sem falar a língua, sem dinheiro e começou a trabalhar”, conta Isabel Raad Carneiro, neta do fundador.
Das ruas de Curitiba para o Mercado Municipal
A história da empresa começou oficialmente em 1928, com a criação da Imperatriz das Frutas. O negócio passou a importar frutas frescas, especialmente maçãs da Argentina, que o próprio Hassan transportava de caminhão até Curitiba. Com o passar dos anos, o pequeno comércio cresceu. A empresa, que tinha uma loja na Rua Riachuelo, uma das tradicionais vias comerciais da capital, transferiu suas atividades para a região do Mercado Municipal, que se consolidava como um importante ponto de compra e venda de alimentos.
Na década de 1960, o empreendimento passou a ser conhecido como Importadora de Frutas Filomena. Mas foi nos anos 1970 que surgiu o nome pelo qual a marca ficaria conhecida em todo o Brasil: La Violetera.
A inspiração veio do filme espanhol La Violetera, de 1958, estrelado pela atriz e cantora Sara Montiel. Dessa referência também nasceu a personagem Sarita, que se tornou um dos símbolos mais reconhecidos da empresa.
Quem se lembra das antigas embalagens de azeite, especialmente das tradicionais latinhas, provavelmente também guarda na memória a imagem da personagem. As embalagens mudaram, os produtos se diversificaram e a marca ganhou uma aparência mais moderna. Ainda assim, muitos desses elementos continuam fazendo parte das lembranças de consumidores que acompanharam diferentes fases da empresa.
A marca que entrou na cozinha das famílias
Durante décadas, a La Violetera acompanhou transformações no jeito de cozinhar e de receber as pessoas em casa.
A empresa, que começou com a comercialização de frutas, passou a trabalhar também com azeites, azeitonas, conservas, frutas secas, massas e outros produtos utilizados tanto nas refeições do dia a dia quanto em ocasiões especiais. Para muitas famílias, esses alimentos fazem parte de receitas preparadas aos domingos, das ceias de fim de ano e de encontros em torno da mesa.
É justamente essa ligação entre alimentação e lembranças que Isabel considera uma das características mais importantes da trajetória da empresa.
“A alimentação tem uma relação muito especial com a memória afetiva. Ela está presente nas reuniões de família, nas comemorações, nas receitas que passam de geração em geração e também nos pequenos momentos do dia a dia”, afirma.
A presença da marca na vida dos consumidores foi construída ao longo de muitas décadas. E, assim como as receitas de família, a história da empresa também passou de uma geração para outra.
Depois do fundador Hassan, seu filho Faissal Raad deu continuidade ao negócio e teve participação importante na expansão da marca.
Para Isabel, o pai deixou ensinamentos que vão além da administração de uma empresa. Entre eles estão a disposição para trabalhar, a valorização do dinheiro e, principalmente, a maneira de se relacionar com as pessoas. Ela lembra que Faissal era carismático, acreditava nas pessoas e demonstrava entusiasmo pelo trabalho e pela vida. São características que a família procura preservar.
Uma história de Curitiba que chegou a todo o Brasil
O crescimento levou a La Violetera a ampliar suas instalações e sua variedade de produtos. Em 1989, a fábrica passou a funcionar na Cidade Industrial de Curitiba, onde a empresa mantém sua estrutura industrial. O negócio também ganhou novas marcas, linhas de produtos e presença em diferentes segmentos do mercado de alimentos.
E Curitiba continua ocupando um lugar especial nessa trajetória. Foi na capital paranaense que Hassan encontrou as primeiras oportunidades, estabeleceu seu comércio e começou a construir o negócio que seus descendentes levariam adiante, o Mercado Municipal, as ruas do Centro e a Cidade Industrial representam diferentes momentos dessa caminhada.
A história da La Violetera acaba, assim, se misturando à própria transformação de Curitiba: de uma cidade onde o comércio de rua tinha papel central na circulação dos alimentos até uma capital com empresas que distribuem seus produtos para todo o país.
O que vem depois dos 98 anos?
Chegar perto de um século não significa viver apenas das lembranças. Para Isabel Raad Carneiro, o desafio de uma marca com tanta história é acompanhar as novas gerações, entender mudanças nos hábitos alimentares e continuar presente no cotidiano das famílias.
A antiga latinha de azeite e a personagem Sarita permanecem como símbolos importantes, mas a empresa reconhece que precisa continuar mudando. Novas embalagens, produtos e formas de conversar com o consumidor fazem parte dessa evolução. O objetivo é preservar aquilo que trouxe a empresa até aqui: a confiança, o compromisso com a qualidade e o respeito pelas pessoas.
Afinal, uma marca que nasceu das mãos de um imigrante vendendo frutas nas ruas de Curitiba e chegou às mesas de tantos brasileiros ainda tem novas histórias para construir
Aos 98 anos, a La Violetera celebra o passado, mas olha para o futuro com o mesmo espírito de quem, quase um século atrás, decidiu começar.
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