Registro sim, campanha não: o duro golpe da Justiça Eleitoral contra Deltan Dallagnol

Deltan Dallagnol: impedido de fazer campanha. Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados
Deltan Dallagnol: impedido de fazer campanha. Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados

A candidatura de Deltan Dallagnol ganhou contornos que nem o mais criativo advogado eleitoral desenharia. O TRE-PR manteve seu registro, o TSE suspendeu os atos de campanha e agora a Justiça Eleitoral determinou que ele desative o Instagram ou retire, em 24 horas, toda a propaganda publicada na plataforma.

O nome continua na disputa pelo Senado. A campanha, entretanto, vai sendo desmontada enquanto o mérito da elegibilidade aguarda definição. Deltan conseguiu chegar à reta final numa situação rara: é candidato para o eleitor, mas precisa desaparecer da campanha.

Eleições fazem as pazes. Até quando?

Eleição opera milagres. Em Foz, Sergio Moro colocou no mesmo campo Silva e Luna e os deputados Vermelho e Matheus Vermelho, que até outro dia economizavam até bom-dia. Sandro Alex também reuniu seus improváveis: Paulo Mac Donald e Chico Brasileiro, antigos aliados transformados em adversários.

Dentro da prefeitura, a criatividade é maior. Silva e Luna está com Moro; o vice Ricardinho, candidato a deputado estadual, com Sandro. Continuam governando juntos. Outubro dirá se a diplomacia eleitoral sobrevive à apuração.

Tarifa nada zero

A passagem custava R$ 5 quando Antonina implantou o Tarifa Zero em pleno ano eleitoral de 2024. Dois anos depois, o TSE formou maioria para cassar a prefeita Rozane Osaki e o vice Diogo Machado por abuso de poder político e econômico relacionado ao programa.

O julgamento abre caminho para nova eleição municipal. A experiência deixa uma curiosidade semântica para a política do litoral: no transporte, zero era o preço. Na Justiça Eleitoral, a tarifa ficou bem mais salgada.

A estatal que chegou antes das respostas

Maringá quer criar a Maringá Data e Tecnologia S.A., uma empresa 100% municipal para implantar e operar o data center projetado como âncora da futura ZPE. A Câmara recebeu três projetos em regime de urgência, inclusive um crédito de R$ 10 milhões. A estatal poderá receber até R$ 20 milhões em aportes ao longo de quatro anos.

O detalhe é delicioso: antes disso, um vereador havia apresentado requerimento pedindo explicações sobre o próprio data center, inclusive custos, imóvel, energia e água. Segundo ele, as respostas não chegaram. A empresa chegou.

Nada contra velocidade digital. Mas talvez fosse conveniente carregar primeiro todas as informações antes de clicar em “executar”.

Campanha no atacado

A Justiça Eleitoral paranaense também resolveu fornecer sua própria estatística da campanha. Faltando nove dias para a votação, o TRE-PR já havia julgado 374 representações por propaganda irregular. Em todo o período eleitoral de 2022 foram 231. Há ainda 41 direitos de resposta e 197 notícias de irregularidades.

A campanha continua nas ruas, no rádio, na televisão e nas redes. Mas uma parcela considerável dela parece ter encontrado endereço fixo no tribunal.

Os candidatos pedem votos. Os advogados já podem pedir hora extra.

Sua vida está à venda

Nome, CPF, endereço, filiação, documentos e informações processuais. Segundo a investigação da Operação Perseu 7, tudo isso alimentava uma plataforma clandestina que comercializava dados de milhões de brasileiros. Um dos alvos foi preso em Cianorte.

O episódio encontra um Paraná em que o golpe do falso advogado cresceu mais de 70%. Não há elemento para afirmar que os dois casos estejam diretamente ligados, mas eles pertencem ao mesmo tempo: criminosos chegam à vítima sabendo o nome, o processo e detalhes suficientes para transformar confiança em dinheiro.

Privacidade digital ainda soa abstrata até o momento em que alguém conhece a sua vida, chama você pelo nome e manda uma chave Pix.

A conta de amanhã

Ratinho Junior chega ao fim de oito anos deixando uma máquina estadual com investimentos elevados e sucessivos resultados fiscais positivos, mas também um colchão financeiro menor. Levantamento da Folha mostra que o caixa do Paraná encerrou 2025 em cerca de R$ 10 bilhões, redução real próxima de 20% em relação a 2022, enquanto despesas com pessoal e o déficit previdenciário avançaram.

É um detalhe importante numa campanha em que quase todos disputam alguma parcela da herança política do atual governador. O sucessor receberá estradas, obras, programas e indicadores para mostrar. Receberá também as planilhas.

Herança política costuma aparecer no horário eleitoral. Herança contábil prefere janeiro.

Irmão é irmão

Daniel Vorcaro parabenizou Davi Alcolumbre quando ele reassumiu a presidência do Senado. A resposta, encontrada nas mensagens obtidas pela Polícia Federal, foi carinhosa: Alcolumbre agradeceu a amizade e disse ser seu “irmão” para a vida toda.

A proximidade pessoal não comprova favorecimento nem transforma amizade em crime. Mas adquire outro peso quando o amigo é Daniel Vorcaro, o interlocutor preside o Senado e a CPI do Master continua sem sair do lugar.

Talvez o problema das relações fraternas seja justamente este: família sempre acaba entrando na conversa.

Todo mundo voa

Flávio Bolsonaro confirmou que voltou dos Estados Unidos para o Brasil, em janeiro de 2025, no Legacy 650 ligado à Prime You, empresa da qual Daniel Vorcaro participava. É o mesmo avião que depois seria usado por Alexandre de Moraes.

Flávio diz que acreditava que a aeronave pertencia ao advogado Willer Tomaz e que desconhecia a participação de Vorcaro. Viajar no avião, por si só, não demonstra irregularidade. O desconforto é outro: o candidato havia afirmado posteriormente que nunca viajara em avião de Vorcaro.

O Master já tinha banqueiro, ministros, políticos, contratos, mensagens, charutos e uísque. Agora também tem programa de milhagem.

Um charuto é só um charuto?

Paulo Gonet chega a esta sexta-feira diante de uma situação incomum: o Conselho Superior do Ministério Público Federal decidirá se existem elementos para abrir investigação sobre a atuação do próprio procurador-geral da República no caso Master.

No pano de fundo estão mensagens e o encontro em Londres no qual Gonet apareceu com Vorcaro numa noite de uísque e charutos. O procurador-geral reconhece o encontro, mas o classifica como breve e banal, nega amizade com o banqueiro e sustenta não haver impedimento para continuar atuando no caso.

A sessão de hoje decidirá se, para o Conselho Superior, há algo a investigar. Até lá, convém deixar o charuto aceso e a conclusão apagada.

Eleição sem calendário

Delcy Rodríguez foi à Assembleia-Geral da ONU prometer que a Venezuela terá eleição presidencial. Falou em democracia plena, diálogo com a oposição e participação política em igualdade de condições.

Só faltou uma miudeza: a data.

A presidente interina disse que os venezuelanos decidirão o momento adequado para convocar o pleito. Depois de anos em que o problema venezuelano esteve concentrado no resultado das eleições, o país conseguiu inovar. Agora a primeira discussão é descobrir quando haverá uma.

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